terça-feira, 17 de abril de 2018

Mulheres estropiadas de guerra - Poema de Aurora Simões de Matos

MULHERES  ESTROPIADAS  DE  GUERRA


Era um vento distante
na ramagem longínqua dos sinais de morte
a bradar na noite sem sono

Eram ecos de raiva à solta
na voz da natureza em desespero

Embrulhada no frio
a pobre mãe viúva de seu filho
no silêncio dos lábios regelados
rezava ainda a oração perpétua

São seus todos os ventos
rebelados na voz que a chuva fustiga em coro

São suas todas as noites por dormir
e a natureza em pranto tem seu corpo



                                                          © Aurora Simões de Matos


domingo, 25 de fevereiro de 2018

FONTE VELHINHA - Poema de Aurora Simões de Matos


                                             NA FONTE  DAS  ALIANÇAS



Sempre que a vida me leva
a passar junto da fonte
que me oferece a frescura
da água que vem do monte
onde linda e sossegada
se espraia a minha aldeia
de luz branca e tez escura
bebo na concha da mão
dois goles de água tão pura
que fico logo curada
dos males do coração

Meus males são tão só da ausência
da fonte da minha aldeia
que me provoca saudade
e não me sai da ideia
e me traz ecos antigos
de tempos que já lá vão
e que remontam à idade
em que minha mãe lavava
com canções da mocidade
os meus cueiros puídos
na poça que transbordava

Na poça ao lado da bica
onde à hora da torreira
as mulheres iam lavar
as roupas da aldeia inteira
e se banhavam crianças
e se arrastavam conversas
até o dia finar
até a água se abrir
à hora de namorar
na fonte das alianças
das lembranças a florir

Minha aliança com ela
foi de quando em vez  revê-la
e beber na minha mão
dois goles de água fresquinha

Consolar meu coração
junto da fonte velhinha





                                                                        Aurora Simões de Matos

sábado, 9 de dezembro de 2017

CONTO DE NATAL


A CAMINHO DO PRESÉPIO - Aurora Simões de Matos

CONTO DE NATAL
Autora - Aurora Simões de Matos
A caminho do Presépio


Por tapadas e quebradas, vales, ladeiras e altos cabeços, soutos, pinheirais e milheirais, carreirinhos de chão pisado entre carquejas e sargaços, urzes e giestais, ouvia-se, qual hino de boas-vindas, o cântico solene de um coro universal.

― Parece que toda a Terra está em festa! – murmurou o cordeirinho tresmalhado, de olhar meigo voltado para o Céu.

― Eu estava à tua espera, cordeirinho! – respondeu a estrela cadente, irmã de milhões de outras estrelinhas espalhadas pelo escuro da abóbada celeste. Para te dizer que tens irmãos e que, de olhos postos no horizonte, te esperam ansiosos. Vai, cordeirinho, corre, não os faças esperar mais. Eu ensino-te o caminho.

― E quem está a cantar esta música tão linda?

― São os anjos do Céu. É Natal, nasceu um Menino no coração de cada homem e esta noite todos param para festejar o grande acontecimento. Mas tu és pequeno demais para compreenderes estas coisas. Agora só tens que te apressar, cordeirinho. Eu ouvi no espaço a oração do jovem pegureiro aflito, pedindo a Maria a graça do teu regresso.

― É muito longe a casa dos meus irmãos, linda estrelinha?

― Duas léguas e meia, por tapadas e quebradas, vales, ladeiras e altos cabeços, soutos, pinheirais e milheirais, carreirinhos de chão pisado entre carquejas e sargaços, urzes e giestais. Estão todos à tua espera, a tua ausência uniu-os numa corrente de fé, grande é a esperança em tempo de Natal. O Presépio da Igreja está pronto e o teu lugar lá está reservado. Até à última hora e para além dela, ninguém poderá nunca ocupar o teu espaço. Se não te atrasares, chegarás a tempo, cordeirinho.

Pelos caminhos da serra, a sós com estes pensamentos, seguia ele o trilho das estrelas, iluminado pela mais brilhante de todas. Perto de um povoado, agigantou-se no silêncio da noite o cantar misterioso do galo emproado, de grande crista vermelha. A seu lado, a galinha poedeira abriu um olho e, ciente de galinácea sabedoria, cacarejou:

― Já pouco falta para a meia-noite. São quase horas da Missa do Galo e eu não quero deixar de representar a classe, como respeitada poedeira que sou.






E, atrás do galo todo emproado, em duas corridas alcançou o pequeno cordeirinho, à luz da fascinante estrela e ao som de um coro de vozes que não se sabia de onde vinham.

Os três, felizes, mas em silêncio, como se todo aquele ambiente e suas personagens fizessem parte da mesma oração, seguiram carreiro fora, à flor da terra batida e escura, fendida por pedaços de lousa macia e cortante.







À passagem dos devotos peregrinos, o cão de guarda da pequena casa isolada, à beira do Souto da Pedreira, ergueu-se nas patas traseiras, encostado à cancela de pinho e, espreitando com ar de interrogação, ladrou alto e bom som:

― Quem vem lá, por caminhos fora de horas?

Como ninguém lhe respondeu, rosnou, com ares de quem tudo percebia:

― Por aqui, alta noite estrelada, só quem vá festejar o Natal!

E, apoiando-se numa trave da cancela com as patas dianteiras, abalançou-se com as de trás e, de um salto, estava já a caminho do Presépio, na fila atrás do cordeirinho, do galo emproado e da galinha poedeira.

Cada vez mais perto dos irmãos, o jovem cordeiro, já cansado da longa caminhada, parou um pouco para beber na pequena poça que as chuvas do inverno haviam transformado em bebedouro de água transparente e em cujo espelho viu, nos ares, a estrela cadente que os guiara até ali.





















― Estamos quase a chegar. Segue-me, que eu vou à frente, a riscar com marcos de luz os caminhos que o Menino te destinou. Onde eu parar, entrarás e lá encontrarás os teus irmãos.

Cada vez mais perto, podiam ouvir-se agora, com bastante nitidez, sons de tambor e cânticos de crianças, a ensaiar a grande representação da chegada dos pastores ao Presépio.

Habituado a dar conta e sinal de pessoas estranhas, o cão de guarda apercebeu-se, através duma nesga entre dois telhados, da presença de uma estranha Figura de barbas brancas, vestida de vermelho, com um grande saco às costas.

Ladrou, espavorido, quase a despropósito.




― É o Pai Natal, que anda a distribuir prendinhas pelas crianças da freguesia! Quando chegarem da Missa do Galo, todos irão a correr ao canto da lareira buscar os presentes: rebuçados e chocolates, brinquedos ou livros. O Pai Natal sabe bem como distribuir.

Era a voz da estrela cadente que está, agora, a chegar à torre da Igreja Matriz, onde vai celebrar-se a Eucaristia da mais linda noite do ano.

Como quem toma a melodia do mais belo cântico de amor e boas-vindas e com ela consegue musicar um novo Hino da Alegria, o coro de anjos celestes, voando nas asas da sua voz, entoa por toda a Terra a frase da boa-nova:

- Nasceu Jesus! Nasceu Jesus! Nasceu Jesus!

A Igreja está repleta de fiéis, à espera da hora para o beijo ao Menino, deitado nas palhinhas da manjedoura, no grandioso Presépio Vivo. De súbito, como se o quadro não estivesse completo…

O galo emproado e a galinha poedeira entram de mansinho pela porta principal e, obedecendo ao instinto, vão agachar-se dentro do cesto vazio da pastorinha mais pobre.

O cordeirinho, exausto da longa viagem, nem dá pelos sorrisos doces dos seus irmãos e, sem cerimónia, alcança o bondoso S. José, deita-se a seus pés e adormece tranquilo.

O cão de guarda não entrou. Ele sabe que o seu lugar é à porta. Atento a todos os movimentos, faz um uivo de pasmo à passagem meteórica da estrela cadente que, da torre da Igreja, se lança pelo espaço em vertiginosa correria.

― Não te assustes, cãozinho! Tenho pressa, tenho pressa! Vou agora noutra missão. Lá longe, muito longe, os Reis Magos esperam a minha luz...






                                                    
               Aurora Simões de Matos

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

PORTUGAL RURAL ( 5 )

                                                             O CANASTRO

Foto de  Armando Jorge
Texto de Aurora Simões de Matos

                          BELO CANASTRO - CAPELA PEQUENINA

Plantada junto à eira, na colina
erguia-se a CAPELA PEQUENINA
bela, robusta, altiva, sobranceira
na sua postura e autenticidade
herdadas do tempo e da rusticidade
da terra-mãe
que lhe oferecera a força e o poder
arrancados à verdade do monte
O granito de seu pés fazendo ponte
e corpo lhe dera
arrancado à verdade do chão
o colmo corrido a cobrir-lhe o ser
e telhado  oferecera
de alma e coração

Belo canastro a relembrar farturas
Trabalhos e canseiras, as mais duras!

O ventre feito de vísceras douradas
na aridez do sol, na aridez do vento
que corria, livre, por suas janelas
à vontade do tempo
e lhe atravessava os ossos
lhe retesava as veias
na generosa intenção de oferecer
a dádiva do amadurecer
o pão, fruto de meses de canseira
do lavrador, até chegar à eira

Belo canastro a relembrar farturas
Trabalhos e canseiras, as mais duras!

Ainda hoje, singelo monumento
à ruralidade que é de todo o tempo
podemos vê-lo no seu lugar plantado
mesmo que das entranhas despojado
belo, humilde, saudoso, na colina
lembrando-nos CAPELA PEQUENINA

Portugal Rural - (4)

                                              DIA DE FEIRA

Fotos de Armando Jorge

Texto de Aurora Simões de Matos





                                 Feira de Barcelos


Na Feira de Barcelos
comprei uns chinelos
de pano, e a chita
pró meu avental.
Dois metros de renda
e três de espiguilha
e uma rodilha.
Pró meu enxoval
um jogo de cama
bordado à mão
que parece igual
ao da Conceição
do Zé do Quintal.

E comprei também
lenço de merino
e umas arrecadas
que levo guardadas
junto ao coração
presas ao corpete
não vá o diabo
por aí tecê-las
e vir a perdê-las
nesta confusão.

Por lá passeei
quase a tarde inteira
que o meu maior gosto
é andar na feira
e apreciar
as louças, os panos
calçado, chapéus
os cestos, o ouro
e as miudezas
que das redondezas
o povo vai ver
comprar ou vender.



Mas o que mais gosto
é passar à beira
da bela hortaliça
toda ela verdura.
Legumes e fruta
plantas e flores
que agora na feira
já há com fartura.
E mais adiante
a feira do gado
Vacas e bezerros
burros, jumentinhas
cavalos e porcos
cabras, cabritinhas
coelhos, galinhas
e outros animais
ao lado do dono
que, a regatear
passará o dia
a tentar vender
aquilo que outros
ali vão comprar.

Ou então... como eu
 só apreciar!





sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

PORTUGAL RURAL (3)

MULHER RURAL - SÍMBOLO DE UM TEMPO

Texto de Aurora Simões de Matos

Imagens de Armando Jorge


 ~~~ MULHER - SÍMBOLO  ~~~
A rezar as memórias de uma longa vida, feita de pequenas coisas. Que, todas juntas, fazem dela a protagonista de uma grande história. 
A história de cada mulher rural, nascida e criada na aridez, pelos rigores da natureza e da vida. 
Companheira do homem, âncora da família, escrava de valores que por tanto tempo a humilharam na sua dignidade. 
A quem tudo, durante séculos, se exigiu, sem o direito de recusa.
E, ainda assim, mulher conformada e sorridente na sua condição feminina.

Mulher guerreira, mulher valente. Mulher trabalhadora, lealmente apaixonada pelos seus, coerentemente apaixonada pela vida.
Mulher-símbolo de um tempo, sem tempo nem condições para dele se desprender.