sábado, 16 de setembro de 2017

VINTE POEMAS DE AMOR

POESIA DISPERSA



Foste tu

Foste tu que inebriaste a gargalhada que soltei do peito, no dia em que me
elegeste o cofre dourado dos teus tesouros. Foste tu que me endoideceste de
grandeza a pequenez do tédio. E me ofereceste bálsamos e flores amarelas
- as minhas preferidas - com que enfeitei, noite após noite, a monotonia do
quarto descolorido e a lonjura do meu sonho. E  me embriagaste os sentidos,
no perfume do olhar com que me amaste a intimidade. Me ensinaste a luxúria
e  levaste em bandeja de prata o beijo canibal, com que selámos aquele pacto de
vida e de morte. No dia em que o meu pudor compreendeu a linguagem de amar.

E foste tu que, partilhando comigo o mistério de dar vida a outras vidas,
me colocaste no pedestal mais alto que o artista esculpiu na praça maior
da nossa cidade.


***


CONTENTAMENTO


Andava por ti perdida, doida de contentamento. A minha rua parecia enfim a 
minha rua, a fervilhar de gente feliz, com sacos entulhados de guloseimas e 
braçados de ramos de camélias. Cada janela vestia cortinas lavadas para 
espreitar o meu contentamento, quando passava a caminho do encontro 
que marcara contigo, do outro lado da cidade.
Naquele tempo não encontrava muros nem sombras na minha rua. Os mendigos
riam da desventura. Os velhos punham gravatas para cumprimentar os meus
sentimentos, com mãos polidas do tempo que gastaram à espera desses dias.
O campanário da igreja da minha rua tocava a repique. Como só tocava quando 
queria dizer que, nos rostos das almas e das coisas, era dia de festa.

E o repique do sino do campanário ouvia-lo tu do outro lado da cidade, a 
anunciar-te que ia a caminho. Para te dizer que andava por ti perdida, doida de
contentamento.


***

PROXIMIDADE

Era a tarde perfeita. E não deveria nunca poder a hora ser mais certa, o
que restava de um gesto tão vivo. Alguém viria, o rosto confundido no 
outro. O rumo de uma fonte. A mão estendida. Alguém diria que nada
mais contava agora que encontrar a palavra certa. O sinal de si mesmo.
O nome das vestes rente à nudez, ao encontro das horas ditas sem pressa.
Depois, no olhar de cada um, desfeita a surpresa, o mesmo olhar impaciente.
E os sussurros levados pela brisa ao afago de um corpo comum.

Já nada nem ninguém seria tão próximo. É que por ali passava um raio
de sol, estendido no seu limite. O amor rondava a paisagem.

***




MOMENTOS ÍNTIMOS

Havia um nome que tinha de nascer. Esperá-lo era a maneira mais simples
de acreditar que haveria de chegar, no sentido único daquele enleio. O
deserto rasgado em linguagens que não são de entender. Uma onda de espuma
enrolada em sinais que não são de rasgar. Uma certeza inscrita em papel
que não é de escrever. Quando se encontraram na pele e no olhar, à hora da
intimidade  total, os lábios dela, tocados pelo mistério, beijaram o silêncio do
momento.

Como se aquele filho sonhado fosse o esboço secreto de um sorriso ainda por abrir.

***

REDENÇÃO

Era noite à transparência das penumbras que contornam o silêncio.
Naquele vazio perdido, continuou a imaginar a fundura do céu pelo
escuro da noite. Ouviu depois o seu nome a partir de outros lábios.
Em sílabas mordidas no beliscar da emoção. Alguém disse o seu
corpo em livro entreaberto na página que não se lê. Desfolhada e
estremecida. Na respiração molhada de todas as vezes que em si
morrera.

 A mão que a percorreu ao toque murmurado no delírio, evocou a vida 
como uma redenção.


***



                                                              JANELA

«Vens todas as madrugadas prender-te nos meus sonhos...»

Contigo trazes o segredo da vida e a alvorada da idade. Regato
de água cristalina que me acorda para a verdade do dia. Em
gotas suspiradas pelos ares que me respiram. Vens do fundo
da noite, com vestes de luar. Iluminas-me o quarto. Afastas o
cortinado rubro, com os dedos esguios de brandura. De mansinho,
como quem abre uma janela preciosa. A mais cobiçada do teu
mundo.

 E o sol entra-me contigo o dia inteiro.


***


                                                                      TAÇA

« A tua boca, taça misteriosa que ninguém mais possa encontrar...»

Quero beber-lhe o gosto até ao fim. Nela buscar o húmus líquido que
alimenta a terra sequiosa da minha sede. Para além da palavra, oiço-lhe
a música que canta a vida num beijo ardente. Há recantos do meu corpo,
onde só a tua boca vibrou na pele do gosto. Não preciso de mais nada.
Em todos os argumentos que inventasses, sempre haveria a singularidade
do gesto treinado para me fazeres feliz. Servido em taça de bordos rubros,
pelo mistério dulcificado no prazer do mel.

É única e só minha, a boca onde te bebo e tu me bebes.


***



                                                          PÉTALAS

« Comprei rosas encarnadas às molhadas dum vermelho estridente
 tão rubras como a febre que eu trazia...»

Encheu-se a minha cama de alegria. Que a cor das rosas não tardou
a despertar. Vozes dobradas na elegância dos lençóis. Bainhas lisas,
no recorte da linha com que se cose a emoção. Bordada a crivo aberto
de pequenos sinais. A brancura lasciva almofadada no interior da noite.
Marcas da mulher-amante que neles deixava perfumes de alexandria.
Eco de segredos sussurrados ao entardecer. O diálogo entre dois corações
que ali se desfolharam.

Nas pétalas que esvoaçaram suspiros, podiam ler-se mensagens que só
os nossos sentidos entenderam.


***


PENAR

«Asa negra que esvoaça negros dias ensombrados...»

Em que noite deixaste as penas luzidias que meu afã por ti amaciou
de carícias? Quem cativou o piar lânguido do teu espanto sofrido? Sei
que perdeste a largura do adejar que te sustinha, quando soltaste o
último penar em leito sem esplendor. Que é feito do esvoaçar alegre
ao redor do meu telhado tão só teu? Em que memórias escureceste de
sonhos a finura transparente do teu voo ?

Espero-te à hora do costume. No peitoril da janela frente ao mar. Esvoaça-me,
que te desensombrarei.


***


ESPERO A TUA PALAVRA

Não desisto de falar contigo e espero a tua palavra. Para ouvir o que pensas da 
noite e da madrugada. Do vulto que se perde e se denuncia pela luz. Do rosto
que se embrenhou na escuridão sem se despedir da lua. Por companhia o
rasto de uma estrela moribunda.
Sei que me ouves e não desisto de perguntar-te: A quem pertence o que perdemos
de nós? Será que cada um guardou o que o outro perdeu? A sombra é um vulto da
noite ou da madrugada?

Espero a tua voz. Ainda que seja só para dizer-me: « Encontrei o rasto de uma estrela
moribunda. O dia está aí.»


***



         SEDE

Era noite de cálidos regressos. Sorriu à vida na seiva inquieta
da saudade. O amor abrigado nos louros cabelos desgrenhados
de lassidão. Que em noites de volúpia a lassidão não se abriga
em qualquer veia. Confessou-se presunçosa de ser assim como
era. Na deriva das horas cegas sussurrando a lúcida aventura. Entre
duas emoções espalhou incenso de aromas. Dos lábios brotou-lhe
uma canção. Tão cúmplice como a virtude partilhada. «Se eu pudesse
dava-te um rio. Onde o meu nome boiasse à tona da maior fundura.
Trazê-lo à margem seria teu fado!».

 Adormeceu e sonhou que era nascente. Acordou a tremer cheia de sede.


***
             
                                                        VULCÃO

Era noite estrelada de sorrisos. Que se abriam tão serenos como
um desejo que chega devagar. Tão íntimos como um silêncio que
nos fecunda o tempo. Naquele momento ela acreditou que o
primeiro deus é o deus do amor. O deus de todas as esperanças.
Mesmo que um dia o fogo lambesse o que restasse do vulcão, Que
nele consumasse o grito dos que morrem. No acaso do último
instante. À boca da cratera aberta sem futuro nem perdão. Onde
os dois lados que somos se confundem na imensidão de um outro
deus.

O deus da ausência que recolhe em seu reino todas as
dúvidas. E nelas a escuridão do desencanto.


***


                                                QUIETUDE

Era noite rendida à cor que se merece. E naquele corpo fogoso
perdeu-se de encantamento. Precisa de silêncio agora. De ficar
calada e estendida no momento da última celebração. Apetece-lhe
chorar sem lágrimas nem remorso. Deixar-se ficar assim na quietude
de morrer por alguém. A porta está fechada e ninguém sabe de nada.

Justo será celebrar este descanso de prazer em si. Não quer beijos nem
abraços. Apenas uma mão que aperte a sua.


***



DECOTE


Naquela tarde não havia nuvens a abrir melindres no céu da
esplanada. O sol e a sombra em desatino quase perfeito. Não
fosse a vontade de pensar sonhando o gesto. Não fosse o vento
na agitação febril do estontear. Ou a crocância trincada do pão
carnal no saborear profundo da impaciência. Não fosse o vento
a segredar os anseios de um peito em chamas. Na insinuação
daquele seio a crescer de dureza rente ao coração. A poesia
estava toda ali. No decote atento de uma boca a oferecer cornucópias
de desejo. A fantasia gritante de quem morde. O desespero ofegante
de quem corre. A língua a viajar por entre os montes e vales do
poema.

Não fosse a sombra do vento, o artista inventaria a luz. Para a imagem
guardada no último sorvo do retrato.


***

NUDEZ

Naquela visão furtiva reparou na bela ruiva que lhe deixava os nervos em
sobressalto incontido. Dengosa no andar perdido numa rua de Lisboa. Alta
e esguia como um arbusto sem folhagem de estorvo. O sorriso de ironia
estilizava-lhe a figura onde podiam ler-se sinais de madrugada. Qual
escultura de sensual nudez a escorrer aromas pela noite inteira.

No ciúme que despertou prazeres sem nome, adivinhou-se a alcova em que 
fulminou de prazer quem a esperava há tanto.


***

APETITE

Naquela hora de sede, murmurava-se o entardecer de um dia longo. A
garganta secava-lhe na agonia da falta. À procura da gota, que ao leve
toque de um beijo, anunciasse o deslizar sereno de um rio. Que serpenteasse
pela veia, na correnteza do apetite. Perto viria a turbulência da fonte, em
descontrolada corrida, que haveria de saciar-lhe a fome líquida.

Intensamente forte era o amor.

***

                                                                           BEIJO

Naquele instante de encontro o olhar cresceu. Quando a boca se insinuou
à intimidade total do grito. A vida em turbilhão morria e renascia. Sem
pressa nem ansiedade. Em purpúreo esplendor do infinito. No aberto incêndio
do desejo. Pois ali tudo era céu e inferno. Fogo e chuva. Vulcão de lava ardente.
Rio que desabava. Trovão a ribombar em seu lampejo. Pêssego de veludo e
sumo de uva.

Romã que amadurou no momento selvagem daquele beijo.


***



RETROSPETIVA

Medi o tempo pela distância do teu abraço. À hora de saber quantos
degraus de vida conquistada por uma aberta, em dia de outono
pardacento. Haverás de insinuar que só a infância sabe guardar os gestos
e as imagens que o tempo desnudou.

É como se o passado estivesse à minha espera para, embrulhado em filigranas
de amor, me entregar este presente onde sempre te pressinto.


***



SEMENTE

A ternura com que o teu nome me enleva, me basta. Como se bastando, me 
enchesse. Me consumasse todos os sentidos. Não contes a ninguém de que
cor são os frutos que provamos, pelo sumo de só provar pelo prazer da 
semente. Não contes  nossos tudos e os nadas de momentos que crescem
como se desertos de areia  fossem. Na hora de conhecermos a hora de onde
nascem as flores, desses desertos aí seremos nós. 

E as malhas do tempo alongar-se-ão como nuvens pressurosas do nosso 
abraço, recuperado do nosso sangue.

***

TRÊS CAMINHOS

Era noite de três caminhos. O primeiro não tinha saída. Cumpria um destino
na senda do vestígio cujo sentido ia dar a um corpo deserto. As palavras
ficavam-lhe suspensas da sombra onde a luz se escondera na cegueira. O 
segundo era povoado de mitos que tornavam o ar irrespirável. Entre a razão
da impaciência e o desassossego do assombro. Que não servia o que se espera 
da harmonia com que se traduz o amor. No mistério de um olhar tranquilo encontrou
a promessa dentro dos últimos lábios que beijou. 

E o abraço tornou-se mais longo. Acabava na mesma fonte que fora seu começo. O 
terceiro caminho aconteceu já dentro da madrugada.

***

NOTA:
Poemas insertos nos livros:

Poentes de mar e serra - 1997
Uma Palavra - 2001
O amor é sempre inocente - 2017




                                       Autora - Aurora Simões de Matos


terça-feira, 12 de setembro de 2017

FEIRA DO LIVRO DO PORTO - 2017

" O AMOR É SEMPRE INOCENTE - Homenagem a Judith Teixeira, Poetisa silenciada do Modernismo Português"


Seleccionado para 


LIVRO DO DIA,  NA FEIRA DO LIVRO DO PORTO, a 10 / 09 / 2017







com redução de preço de capa


                                                                                                   
LIVRO DO DIA , NA FEIRA DO LIVRO DO PORTO,
 a 10 / 09 / 2017 - "O amor é sempre inocente - Homenagem a Judith Teixeira, Poetisa silenciada do Modernismo Português"

Autora - Aurora Simões de Matos
Editora - Edições Esgotadas

Anunciada desde a véspera e repetidas vezes aos altifalantes da Feira do Livro, foi uma sessão de apresentação e autógrafos, que excedeu todas as expectativas, esgotando completamente o estoque de livros disponível, obrigando à sua reposição.


ESTOU MUITO FELIZ e deixo imagens de uma das partes da "FESTA"...... transmitida em directo para o mundo, via Instagram!!!

                                         A autora
























MUITO OBRIGADA
Aurora Simões de Matos
( fotos de Ana Matos)

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A VOZ DO MAR, VOZ DE DEUS



                                                                                                                  
Faz com a mão uma concha
e guarda o som do mar na concha da tua mão.

A tua mão é o búzio
no areal do teu corpo.

Com a tua mão em concha
vais ouvir o marulhar e com ele a voz do vento.

Guarda em ti esse momento da voz de Deus a cantar...

E se no teu areal
perpassar a emoção desse instante que é só teu,
espraia-te à beira-mar
e respira a voz de Deus na brisa do seu cantar!



LONJURA

É tal a imensidão da dimensão do mar
que o olhar se perde
e a voz nele se dissipa.

Do concreto se passa ao abstracto
e tudo se dilui e se desfaz
na dispersão de lonjura tamanha.

O corpo se arrebata e a alma se desfoca
quando tudo o que eu queria
era apenas sentir
que a minha solidão 
é espaço de cumprir o tempo que se evoca.


SOL-PÔR

O horizonte vestiu vestes de fogo
e o sol incandesceu e tudo é luz
na linha que limita o fim do mar.

O milagre paira ainda um instante
diante do olhar
na deslumbrante hora de se esconder.

E só então
o sol se esconde e num repente
se afunda à nossa frente
em majestosa exibição

Já se não vê
a bola que de fogo se vestiu
e inundou de rubro o horizonte.

Do céu desceu e se escondeu 
do nosso olhar por hoje mesmo defronte
para voltar amanhã à mesma hora
do lado oposto de onde nasce a aurora




AGITAÇÃO

O mar se agita com desassombro
Onda desfeita, outra se apronta

O leão salta, ruge a procela
e se enovela
aos pés da rocha que se amedronta

Em espuma branca
todo vergasta, o mar se solta
em leviana insensatez, quase uma afronta.


AGUARELA

Um quadro sem moldura
uma paisagem
manhã serena

Não há gaivotas

A  luz intensa
azul e azul
e um barquito que se despede no horizonte


Aurora Simões de Matos
no livro " Poentes de mar e serra" - 1997


















segunda-feira, 14 de agosto de 2017

" A Escola do Montemuro e beira-Paiva: meio século de desafios, conquistas e perdas"


É este o título do novo livro que acabo de escrever e que entrará na minha Editora, nos próximos dias.
Da sua edição, oferecerei uma boa parte aos habitantes de Meã, meu torrão natal, e à Junta de Freguesia de Parada de Ester.
Prenda minha, como recordação de tempos inesquecíveis na minha aldeia, ainda na escola que funcionava em espaço arrendado a um particular. Onde havia disciplina e saber, respeito e esforço. Onde os castigos corporais eram prática comum a todo o país, e onde se trabalhava de sol a sol, na busca da tão almejada 4ª classe, o limite da escolaridade para a grande maioria da população portuguesa.
Quando, na década de 1960, aqui leccionei como primeira professora diplomada, para mais filha da terra, a escola que me tinha como única titular era frequentada por mais de sessenta alunos. Isso mesmo: mais de sessenta alunos, para uma única professora.
Hoje, toda a região vive o drama da falta de crianças. A juntar-se às demais crises, de onde sobressai a económica e políticas desajustadas da nossa realidade, instalou-se a grave crise demográfica.
Não nascem crianças, os jovens e os adultos mais capazes partem, os idosos passaram a ser a força sem força de muitas das nossas aldeias, praticamente abandonadas pela serra e pelo vale.
Os poucos meninos, que por aqui vivem ao derredor ainda, perderam o direito a poderem crescer junto dos seus. E partem diariamente numa longa viagem diária até ao Centro Escolar mais próximo, porque a escola da sua terra encerrou portas. E foram tantas as escolas que fecharam!
Ao Centro Escolar de Parada, afluem diariamente alunos de várias aldeias das duas margens do rio Paiva. Vêm em carrinhas da Câmara disponibilizadas para o efeito. Uma situação que, dizem-nos, é a única possível, na conjuntura dos factos.
E assim continuamos a ver crescer crianças que o não são, porque lhes roubaram o tempo, o espaço e o direito de o serem, em plenitude. Lacunas dramáticas que um dia, inevitavelmente, hão-de reflectir-se numa sociedade adulta em convulsão.
* A ESCOLA NOVA da aldeia de Meã, construída na primeira metade da década de 1960, fechada por falta de alunos, e onde funciona agora a Associação Cultural, Desportiva e Acção Social " Os Sete Casais de Meã"

Edifícios onde, até há pouco mais de duas décadas, se ouvia o alegre bulício da criançada em busca do saber, são agora lugares-fantasma, no silêncio de espaços que já não sabem sorrir.

A fugir a toda esta dramática situação, os pais que actualmente constituem família, ao contrário do que se passava no século XX, saem agora para as grandes cidades de Portugal e estrangeiro, por lá criando os seus filhos. E ninguém tem o direito de os julgar, por terem "fugido" de uma zona que a isso os obrigou.
A aldeia de Meã, totalmente vazia de crianças hoje, delas mata saudades, quando os pais as trazem em tempo de férias no Verão.
Aqui, no Montemuro e beira-Paiva, a antiga trilogia « Deus, Pátria, Família» do Estado Novo de Salazar deu lugar à moderna trilogia « Austeridade, Poupança, Conformismo» do Estado Democrático do Possível. A filosofia que rebentou com toda a estrutura escolar do Montemuro.
Se é bem verdade que a Educação sempre determinará o futuro de qualquer Povo, a razão e a prudência impõem que nela nos empenhemos por inteiro e lhe demos a mais urgente, correcta, primordial e assumida prioridade.
NOTA:
Estas e outras considerações na análise que, a par de lembranças saudosas e críticas severas ou poéticas aos antigos e novos programas escolares, e suas práticas pedagógico-didácticas, constitui, neste livro, um honesto e creio que importante testemunho documental para a história da Escola da nossa grande região do Montemuro e beira-Paiva.

Aurora Simões de Matos
* A ESCOLA ANTIGA DE PARADA DE ESTER, onde fiz a minha primeira classe, e que há muito fechou portas à criançada. Aqui funciona agora a sede do " Clube de Caça e Pesca da Encosta do Montemuro e Paiva".
* O edifício onde agora funciona o Centro Escolar de Parada situa-se no espaço do Largo Nossa Senhora do Rosário, em lugar de mais fácil acesso.

* Parque Infantil da aldeia de Meã, construído no princípio da grande crise e que, verdadeiramente, nunca se encheria de crianças

* Mais um lugar-fantasma, onde o abandono levanta inquietações
* O Jardim de Infância de Meã, onde as crianças já não brincam

* Primeira escola masculina de Vila Seca, que funcionou em casa particular, desde o início do século XX


* Escola do Plano dos Centenários, construída em Vila Seca na década de 1950, e hoje transformada em "Centro de Convívio"



* Na Escola de Picão, onde já funcionaram várias turmas dos dois sexos, ainda se lecciona, embora apenas com uma turma. Sujeita a acabar, pela falta de crianças que façam o número exigido por lei.


( Fotos de Carlos Batalha , Artur Marado e Mauro Granja)

sábado, 12 de agosto de 2017

NOS 110 ANOS DE MIGUEL TORGA


                    12/ 08/ 1907 - 17/ 01/ 1995
                ~~ A  MINHA  HOMENAGEM, EM  JEITO  DE  RESPOSTA ~~



Faria hoje 110 anos esta que continua a ser uma das maiores vozes da literatura portuguesa. Recordo, em homenagem, o seu poema " SEI UM NINHO". E a minha resposta, em imagem, no poema que escrevi em 2012.

Aurora Simões de Matos



« Sei um ninho
( poema de Torga que me inspirou o poema " Também eu sei - LOUCA ÂNSIA ")

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.                                                            
E o ovo, redondinho,                                                                    
Tem lá dentro um passarinho
Novo.
Mas escusam de me tentar.
Nem o tiro, nem o ensino.
                                                               
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar... »

Miguel Torga                                                           

terça-feira, 1 de agosto de 2017

A PONTE DE NODAR, RELÍQUIA DAS MINHAS RAÍZES

EM  VISITA  A  LUGARES    
                     QUE  ME  SÃO  SANGUE




 A história de meu bisavô António Joaquim conta-se em três tempos e três acenos de cabeça. Três gestos de boa vontade.

Corria o tempo da sua juventude e o tempo da Primeira Grande Guerra, que o haveriam de levar ao tempo de desertar, como tantos outros, das fileiras do exército.
Nas suas deambulações pelo Montemuro e pela Arada, acossado pela fome e pelo frio, pelo medo e pela incerteza, faminto de tudo e aterrorizado pelo espectro da morte ou da prisão, aconchegou-se à hospitalidade, à compreensão e à discrição da boa gente de Nodar.


Nessa aldeia pequenina, aninhada junto ao rio Paiva, encontrou condições para viver em paz e constituir família. Maria Duarte, uma das filhas e minha avó materna, assistiu ao meu nascimento.
Não tenho lembrança dela, uma vez que, sendo eu muito criança, faleceu em Meã, meu chão natal, com cerca de quarenta anos. Deixando sete filhos e meu avô Casimiro mergulhado no mais profundo desgosto.

Olhando hoje a Paiva e sentindo as suas vibrações numa ondulação que me é tão familiar, dou comigo a agradecer-lhe boa parte do sustento da família deste meu avô Casimiro, que era pescador. E sou levada em pensamentos até Nodar, do outro lado do rio. Até meu bisavô António Joaquim, também ele porventura pescador. 

Nada me dirá dele a memória, que só o conheço de ouvir falar. Protagonista de uma história contada em três tempos e três acenos de cabeça. Três gestos de boa vontade.
Nada me dirá dele a lembrança. Nem dele nem de minha bisavó, que a vida correu em espaços sem encontros e em tempos sem memória nem retorno.

No entanto, apesar de tamanha ausência, Nodar lá continua, aninhada junto à Paiva. Ciosa da hospitalidade, da discrição e da generosidade das suas gentes. Ciosa da sua cultura.

Cercada de montes, no sopé da serra de S. Macário, conseguiu sempre sair do isolamento e abrir-se como ponto de partida, de passagem ou de chegada.
Quando houve necessidade de alcançar a outra margem para trocas comerciais, de experiências e de convívio, ou simplesmente alargar a área da sua zona de cultivo, fez-se ao rio, que atravessou de barco.





Quando a intensidade do caudal das águas dificultava a viagem que já não conseguia dar resposta a tanta procura, sentiu necessidade de uma ponte que a levasse a espaços com novos horizontes.
Perante as dificuldades do Estado em satisfazer tamanha ambição, haveria de ser um dos da terra, de seu nome Manuel Duarte Pinto de Almeida, a lançar mãos à obra e a nela empenhar o farto pecúlio de uma vida de êxito em terras do Brasil.

Corria o ano de 1886 e demorou a ponte três anos a ser construída. E a ser a menina dos olhos do seu dono e daquela boa gente hospitaleira, generosa e discreta. E passou a ponte a ser da maior importância para a vida de toda aquela região, unindo dois concelhos, a partir de qualquer margem do rio: Castro Daire e S. Pedro do Sul.
 Com direitos de portagem até à década de quarenta do século XX, ainda hoje é a imagem de marca daquela terra com praia fluvial improvisada e procurada por muita gente, nos meses quentes de Verão. Ainda hoje, motivo de orgulho e sinal de independência.



Passados mais de cento e trinta anos sobre a sua construção, a ponte lá continua, ufana da sua utilidade, da sua solidez, da sua beleza. Orgulhosa da sua serventia e da força das suas pedras. Com a dignidade do dever cumprido e com a ousadia de quem tem a certeza de que há-de morrer de pé.

Por ali andei em visita, por estes dias de férias estivais. Em romagem às  minhas raízes. Em visita a lugares que me são sangue.
Muito obrigada.

                               * Aurora Simões de Matos






Nodar, Julho de 2017