sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Imagens do Portugal Profundo

     
Gabriel e Malhadinho



(Texto de Aurora Simões de Matos
Fotos de Armando Jorge)



Tão pequeno e indefeso
nasceu no monte
à sombra duma giesta em flor
amparado pelo pegureiro
com mãos calejadas só de amor

Nasceu da "Malhada"
que, balindo, toda dor
confiou sem reservas o seu filho
ao generoso pegureiro
de mãos calejadas só de amor

Um tufo de fentos e erva seca
ao lado duma torga abandonada
foi seu primeiro ninho de calor
no aconchego da primeira mamada

E quando ao fim da tarde conheceu
os caminhos que iam dar ao lar
sentiu o abraço enternecedor
que o levava ao peito
muito ao jeito
do bondoso pegureiro                                                                                       
com mãos calejadas só de amor

Cresceu o «Malhadinho»
Já sabe andar sozinho
e não precisa da ajuda de ninguém
nem mesmo do úbere de sua mãe

Mas, quando calha, dia madrugado
a vez de abrir a porta ao gado
a vez de fazer sua vigia
ao amigo pegureiro
de mãos calejadas só de amor
há sempre um olhar terno de alegria
e um balido de bom entendedor.



                                        Aurora Simões de Matos



( uso de regionalismos do Montemuro)

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Homenagem ao pastor de rebanhos - poema de Aurora Simões de Matos

                             

Ao humilde PEGUREIRO, 
romântico ex-líbris da minha infância


Dá-me teus vãos pensamentos 
sem destino, vagabundos
e dá-me o silvo dos ventos 
e a sombra dos vales profundos


Virgílio, pastor de rebanhos ( foto da Revista Visão - 2012 )


***

Cabaça transformada em cantil

***

Dá-me a água do cantil
 que trazes a tiracolo

Dá-me a bucha do bornal
e não me leves a mal
que te peça para mim
 o burel e o cotim 
                                            desse modo de vestir
com que passeias o monte
 por longos dias sem fim

Dá-me a flauta de cana 
e a música com que enfeitas
as horas mortas que deitas 
nesse chão que não te engana

Dá-me o sol e dá-me a chuva 
do tempo agreste em teu rosto
dá-me manhãs de fescura 
e trindades ao sol posto

Dá-me teus vãos pensamentos 
sem destino, vagabundos
e dá-me o silvo dos ventos 
e a sombra dos vales profundos

Dá-me o teu tempo sem fim
que o quero para mim
e se puderes, dá-me os mundos 
que trazes nos sentimentos

Dá-me tudo o que te peço 
e mesmo o que te não peço
mas ainda pra dar tens
quando vais e quando vens 
por todos esses caminhos 
de lendários carreirinhos 
que se perdem na memória
e a serra esconde em seu rosto 
e tu percorres por gosto
dessa vida re...pe...ti...da...
de gestos gastos, sem história.


                                                Aurora Simões de Matos



*****



Do outro lado da Paiva, a bela serra da Arada


A partir de Parada, vista sobre a serra do Montemuro, confundindo-se com a serra da Freita

 No sopé sul do Montemuro, a lindíssima aldeia de Meã, estendida à beira-Paiva


Aldeia de Meã, rodeada de verdes pinheirais, que tiraram o lugar à vegetação rasteira que, durante séculos, sustentou a "vigia" ( rebanho de cabras e ovelhas, guardadas pelo "pegureiro", em regime comunitário de partilha) 



O saudoso Ti Zé da Virgínia, exímio tocador de flauta falecido há pouco, aprendeu a tocar sozinho, 
com uma flauta de cana feita por si. Talvez nos montes da sua terra... 
Paz à sua alma!


********



Cantil de cabaça, para transporte de bebidas



                                                                    Aurora Simões de Matos

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

"Amor Magoado" - Conto de Aurora Simões de Matos


(Baseado em factos reais e com a devida autorização da família. Nome fictício.)




Amor magoado

 Rosalina saiu de casa, ainda o Sete-Estrelo brilhava no escuro do céu, por entre milhões de pontinhos tremeluzentes. Faltaria cerca de uma hora para a Estrela d’ Alva anunciar o começo do dia, na madrugada que abriria caminho a uma manhã soalheira de verão, em seus princípios.

Já tinha descido à Paiva, por atalhos quase a pique entre gordos milheirais. Atravessara as poldras, seguia agora o carreiro que serpenteava pelo monte, a subir, a subir, sempre a subir serra acima.

Ao colo, a filha de três meses, embrulhada no velho lenço de merino. À cabeça, sobre a rodilha, a pequena canastra com meia rasa de feijão, a broa de milho cozida na véspera, a lata de quartilho de azeite, a chouriça que a sogra lhe dera. Na saca de trapos, as calças de cotim que Joaquim lhe deixara para lavar e remendar.

De alma angustiada e corpo denegrido pela violência do marido, Rosalina meteu-se a caminho, até às minas de Regoufe, na esperança de, com aqueles mimos, fazer as pazes com ele. Apesar de tantas vezes sentir na carne as dores injustas das bordoadas, não conseguia estar zangada. Era o pai dos oito filhos que deitara ao mundo e isso lhe bastava, entendia ela, para o amar e respeitar.

No barroco de Deilão, já manhã velha, parou a uma fresca, para dar de mamar à menina. O velho pegureiro, conhecendo-a de outras caminhadas e de outros desabafos, meteu conversa e ofereceu-lhe umas peras, dividindo o frugal almoço. Como se a partilha fosse uma obrigação dos pobres. Na despedida, ainda augurou:

- O mais certo é que, à vinda, tragas outro filho na barriga. Vais fazer-lhe festinhas, depois não te queixes…

Rosalina já não o ouvia e, a passo certo, escolhendo as poucas sombras dos castanheiros, continuou caminho, na busca de um sorriso, uma palavra carinhosa, quem sabe uma nota de vinte na algibeira.

Cerca de  duas léguas, por entre atalhos sinuosos e solitários, a separavam ainda do Alto dos Engonchos. Mas também, quando aí chegasse, por pouco se avistariam já as minas.

Depois de mais de quatro horas a andar, alcançou finalmente o seu destino, ao fim da manhã. Joaquim gozava a hora de refeição. Ao vê-la, surpreendido, olhou-a nos olhos pisados, pegou na filha e, em silêncio, ajeitou-a no chão, ao canto da enxerga de palha. 
Num repente, como se toda a vida tivesse estado à espera daquele momento, cobriu, com o seu, o corpo exausto e sem ação da mulher que, entre beijos, lágrimas e graças a Deus, sentiu mansamente o forro da barraca encher-se de minúsculas estrelinhas  que se transformavam em estrelas maiores, luas cheias e sóis cada vez mais brilhantes e poderosos, até rebentarem numa explosão de luz e cor e música e felicidade. Ao voltar do céu à Terra, no momento da descontração total, murmurou num sussurro:

- E o anjinho, ali quietinho, nem acordou!

Dois dias depois, Rosalina fazia a viagem de regresso aos filhos que deixara com a avó. Tinha valido a pena a caminhada que fizera pelo coração do seu homem. A que lhe devolvera o sorriso e as boas palavras de Joaquim. A que, alheia a cansaços, lhe trouxera ânimos com que haveria de ultrapassar as trabalheiras da vida.

Com a canastra vazia, ao passar pelo barroco de Deilão, foi avistada, de longe, pelo velho pegureiro que, ao ouvi-la cantar “meu amor era mineiro…”, comentou para os seus botões:

- Canta, canta, que logo bebes… Aposto que já aí levas mais um filho. Valha-te Deus, rapariga! Mais te valia estares quieta!

Mas de novo Rosalina não o ouviu. Parou para molhar o rosto e beber água fresca, mudou o cueiro à criança, soltou os belos cabelos louros, penteou-se com a travessa e ajeitou o noco. Ao fixar os olhos, do mais puro azul, no fio cristalino do riacho, pareceu-lhe que a água corria ao invés, como se o calor que levava dentro de si, mais forte que o sol do meio-dia, lhe alterasse a visão e o sentido real das coisas. Como uma tontura, daquelas que costumava sentir logo que engravidava. Logo, no primeiro dia… já era costume.


Não deu importância. Estava habituada a andar sempre grávida. Só queria que ninguém a maltratasse. E foi este pensamento triste que lhe fez brotar dos lindos olhos as lágrimas que lhe rolaram pela face magoada e lhe avivou recordações que não deveria ter no mesmo peito onde guardava tanto amor.

Lembrou os meses em que Joaquim, doente e muito tempo em casa, gostava de umas gemadas com vinho do Porto. Para lhe dar força! – dizia. E fora assim que, também ela a necessitar de força, começara a beber. Por gula, que se transformaria em vício. Vício que se transformaria em pesadelo. Pesadelo que se transformaria no princípio e no fim da sua vida atribulada. O álcool trazia-lhe angústia; a angústia pedia-lhe álcool. E nas malhas deste ciclo vicioso, Rosalina fora apanhada sem dó nem piedade. Sem dó nem piedade era, em casa, maltratada, com atos pouco dignificantes para a sua condição de mulher e mãe.

Pelos de fora, era estimada e merecedora de compreensão e carinho. Porque todos sabiam de que modo inocente o álcool se instalara e tomara conta da sua vida. E também porque, sempre disponível a qualquer hora do dia ou da noite, era ela  a enfermeira de que todos precisavam na aldeia. Incluindo a autora destas linhas.


Rosalina faleceu em 1969, aos 41 anos, vítima de paragem cardiorrespiratória. O coração não lhe aguentou os sobressaltos da vida.

Dos 12 filhos que deitou ao mundo, sete sobreviveram e aí estão, saudáveis e trabalhadores. Certamente que, a par dos avós que os ajudaram a criar, recordarão com saudade a mãe que tanto os amou e que, só na morte, encontrou a paz.

Eras tão bonita e doce, Rosalina! 


* Aurora Simões de Matos                                                                         


Do livro "Contos de xisto" -  2012                        

domingo, 8 de outubro de 2017

CASAS SENHORIAIS DE LAMEGO

A HISTÓRIA DE LAMEGO, 
ATRAVÉS DAS SUAS CASAS SENHORIAIS

É ESTE O TEMA DA "TERTÚLIA ARTES E LETRAS"   -   14 / 10 / 2017
                                          NA CIDADE DE LAMEGO

Organização e coordenação - Aurora Simões de Matos

AQUI FICA O CONVITE E A IMAGEM DE ALGUMAS (APENAS DE ALGUMAS) DAS MAIS BELAS CASAS DA ARISTOCRACIA LAMECENSE




                                                             *******************

                                      Antigo Paço do Bispo e actual Museu de Lamego


                                          Antigo edifício do Seminário e hoje Messe de Oficiais


                                                          Casa das Brolhas


                                                                     Casa das Mores


                                                     Casa de Almacave e actual Paço Episcopal


                                                    Casa do Poço e actual Museu Diocesano


                                                      Solar dos Padilhas ou Casa do Assento


                                                     Solar dos Pinheiro de Aragão


                                                                               Casa dos Serpas


                                                                             Casa dos Silveiras


                                                                     Solar dos Vilhenas


                                                           Solar dos Pachecos



                                                     Casa dos Viscondes de Alpendurada


                                                       Casa dos Viscondes de Arneirós


                                                            Solar do Espírito Santo



SÃO APENAS ALGUMAS

Fotos de Rui Pires e Município de Lamego





                                                                                        Aurora Simões de Matos

sábado, 16 de setembro de 2017

VINTE POEMAS DE AMOR - da autoria de Aurora Simões de Matos

POESIA DISPERSA



AUTORA  -  AURORA SIMÕES DE MATOS

Foste tu

Foste tu que inebriaste a gargalhada que soltei do peito, no dia em que me
elegeste o cofre dourado dos teus tesouros. Que me endoideceste de
grandeza a pequenez do tédio. E me ofereceste bálsamos e flores amarelas
- as minhas preferidas - com que enfeitei, noite após noite, a monotonia do
quarto descolorido e a lonjura do meu sonho. Me embriagaste os sentidos,
no perfume do olhar com que amaste a minha intimidade. Me ensinaste a luxúria
e  levaste em bandeja de prata o beijo canibal, com que selámos aquele pacto de
vida e de morte. No dia em que o meu pudor compreendeu a linguagem de amar.

E que, partilhando comigo o mistério de dar vida a outras vidas,
me colocaste no pedestal mais alto que o artista esculpiu na praça maior
da nossa cidade.


***


CONTENTAMENTO


Andava por ti perdida, doida de contentamento. A minha rua parecia enfim a 
minha rua, a fervilhar de gente feliz, com sacos entulhados de guloseimas e 
braçados de ramos de camélias. Cada janela vestia cortinas lavadas para 
espreitar o meu contentamento, quando passava a caminho do encontro 
que marcara contigo, do outro lado da cidade.
Naquele tempo não encontrava muros nem sombras na minha rua. Os mendigos
riam da desventura. Os velhos punham gravatas para cumprimentar os meus
sentimentos, com mãos polidas do tempo que gastaram à espera desses dias.
O campanário da igreja da minha rua tocava a repique. Como só tocava quando 
queria dizer que, nos rostos das almas e das coisas, era dia de festa.

E o repique do sino do campanário ouvia-lo tu do outro lado da cidade, a 
anunciar-te que ia a caminho. Para te dizer que andava por ti perdida, doida de
contentamento.


***

PROXIMIDADE

Era a tarde perfeita. E não deveria nunca poder a hora ser mais certa, o
que restava de um gesto tão vivo. Alguém viria, o rosto confundido no 
outro. O rumo de uma fonte. A mão estendida. Alguém diria que nada
mais contava agora que encontrar a palavra certa. O sinal de si mesmo.
O nome das vestes rente à nudez, ao encontro das horas ditas sem pressa.
Depois, no olhar de cada um, desfeita a surpresa, o mesmo olhar impaciente.
E os sussurros levados pela brisa ao afago de um corpo comum.

Já nada nem ninguém seria tão próximo. É que por ali passava um raio
de sol, estendido no seu limite. O amor rondava a paisagem.

***




MOMENTOS ÍNTIMOS

Havia um nome que tinha de nascer. Esperá-lo era a maneira mais simples
de acreditar que haveria de chegar, no sentido único daquele enleio. O
deserto rasgado em linguagens que não são de entender. Uma onda de espuma
enrolada em sinais que não são de rasgar. Uma certeza inscrita em papel
que não é de escrever. Quando se encontraram na pele e no olhar, à hora da
intimidade  total, os lábios dela, tocados pelo mistério, beijaram o silêncio do
momento.

Como se aquele filho sonhado fosse o esboço secreto de um sorriso ainda por abrir.

***

REDENÇÃO

Era noite à transparência das penumbras que contornam o silêncio.
Naquele vazio perdido, continuou a imaginar a fundura do céu pelo
escuro da noite. Ouviu depois o seu nome a partir de outros lábios.
Em sílabas mordidas no beliscar da emoção. Alguém disse o seu
corpo em livro entreaberto na página que não se lê. Desfolhada e
estremecida. Na respiração molhada de todas as vezes que em si
morrera.

 A mão que a percorreu ao toque murmurado no delírio, evocou a vida 
como uma redenção.


***



                                                              JANELA

«Vens todas as madrugadas prender-te nos meus sonhos...»

Contigo trazes o segredo da vida e a alvorada da idade. Regato
de água cristalina que me acorda para a verdade do dia. Em
gotas suspiradas pelos ares que me respiram. Vens do fundo
da noite, com vestes de luar. Iluminas-me o quarto. Afastas o
cortinado rubro, com os dedos esguios de brandura. De mansinho,
como quem abre uma janela preciosa. A mais cobiçada do teu
mundo.

 E o sol entra-me contigo o dia inteiro.


***


                                                                      TAÇA

« A tua boca, taça misteriosa que ninguém mais possa encontrar...»

Quero beber-lhe o gosto até ao fim. Nela buscar o húmus líquido que
alimenta a terra sequiosa da minha sede. Para além da palavra, oiço-lhe
a música que canta a vida num beijo ardente. Há recantos do meu corpo,
onde só a tua boca vibrou na pele do gosto. Não preciso de mais nada.
Em todos os argumentos que inventasses, sempre haveria a singularidade
do gesto treinado para me fazeres feliz. Servido em taça de bordos rubros,
pelo mistério dulcificado no prazer do mel.

É única e só minha, a boca onde te bebo e tu me bebes.


***



                                                          PÉTALAS

« Comprei rosas encarnadas às molhadas dum vermelho estridente
 tão rubras como a febre que eu trazia...»

Encheu-se a minha cama de alegria. Que a cor das rosas não tardou
a despertar. Vozes dobradas na elegância dos lençóis. Bainhas lisas,
no recorte da linha com que se cose a emoção. Bordada a crivo aberto
de pequenos sinais. A brancura lasciva almofadada no interior da noite.
Marcas da mulher-amante que neles deixava perfumes de alexandria.
Eco de segredos sussurrados ao entardecer. O diálogo entre dois corações
que ali se desfolharam.

Nas pétalas que esvoaçaram suspiros, podiam ler-se mensagens que só
os nossos sentidos entenderam.


***


PENAR

«Asa negra que esvoaça negros dias ensombrados...»

Em que noite deixaste as penas luzidias que meu afã por ti amaciou
de carícias? Quem cativou o piar lânguido do teu espanto sofrido? Sei
que perdeste a largura do adejar que te sustinha, quando soltaste o
último penar em leito sem esplendor. Que é feito do esvoaçar alegre
ao redor do meu telhado tão só teu? Em que memórias escureceste de
sonhos a finura transparente do teu voo ?

Espero-te à hora do costume. No peitoril da janela frente ao mar. Esvoaça-me,
que te desensombrarei.


***


ESPERO A TUA PALAVRA

Não desisto de falar contigo e espero a tua palavra. Para ouvir o que pensas da 
noite e da madrugada. Do vulto que se perde e se denuncia pela luz. Do rosto
que se embrenhou na escuridão sem se despedir da lua. Por companhia o
rasto de uma estrela moribunda.
Sei que me ouves e não desisto de perguntar-te: A quem pertence o que perdemos
de nós? Será que cada um guardou o que o outro perdeu? A sombra é um vulto da
noite ou da madrugada?

Espero a tua voz. Ainda que seja só para dizer-me: « Encontrei o rasto de uma estrela
moribunda. O dia está aí.»


***



         SEDE

Era noite de cálidos regressos. Sorriu à vida na seiva inquieta
da saudade. O amor abrigado nos louros cabelos desgrenhados
de lassidão. Que em noites de volúpia a lassidão não se abriga
em qualquer veia. Confessou-se presunçosa de ser assim como
era. Na deriva das horas cegas sussurrando a lúcida aventura. Entre
duas emoções espalhou incenso de aromas. Dos lábios brotou-lhe
uma canção. Tão cúmplice como a virtude partilhada. «Se eu pudesse
dava-te um rio. Onde o meu nome boiasse à tona da maior fundura.
Trazê-lo à margem seria teu fado!».

 Adormeceu e sonhou que era nascente. Acordou a tremer cheia de sede.


***
             
                                                        VULCÃO

Era noite estrelada de sorrisos. Que se abriam tão serenos como
um desejo que chega devagar. Tão íntimos como um silêncio que
nos fecunda o tempo. Naquele momento ela acreditou que o
primeiro deus é o deus do amor. O deus de todas as esperanças.
Mesmo que um dia o fogo lambesse o que restasse do vulcão. Que
nele consumasse o grito dos que morrem. No acaso do último
instante. À boca da cratera aberta sem futuro nem perdão. Onde
os dois lados que somos se confundem na imensidão de um outro
deus.

O deus da ausência que recolhe em seu reino todas as
dúvidas. E nelas a escuridão do desencanto.


***


                                                QUIETUDE

Era noite rendida à cor que se merece. E naquele corpo fogoso
perdeu-se de encantamento. Precisa de silêncio agora. De ficar
calada e estendida no momento da última celebração. Apetece-lhe
chorar sem lágrimas nem remorso. Deixar-se ficar assim na quietude
de morrer por alguém. A porta está fechada e ninguém sabe de nada.

Justo será celebrar este descanso de prazer em si. Não quer beijos nem
abraços. Apenas uma mão que aperte a sua.


***



DECOTE


Naquela tarde não havia nuvens a abrir melindres no céu da
esplanada. O sol e a sombra em desatino quase perfeito. Não
fosse a vontade de pensar sonhando o gesto. Não fosse o vento
na agitação febril do estontear. Ou a crocância trincada do pão
carnal no saborear profundo da impaciência. Não fosse o vento
a segredar os anseios de um peito em chamas. Na insinuação
daquele seio a crescer de dureza rente ao coração. A poesia
estava toda ali. No decote atento de uma boca a oferecer cornucópias
de desejo. A fantasia gritante de quem morde. O desespero ofegante
de quem corre. A língua a viajar por entre os montes e vales do
poema.

Não fosse a sombra do vento, o artista inventaria a luz. Para a imagem
guardada no último sorvo do retrato.


***

NUDEZ

Naquela visão furtiva reparou na bela ruiva que lhe deixava os nervos em
sobressalto incontido. Dengosa no andar perdido numa rua de Lisboa. Alta
e esguia como um arbusto sem folhagem de estorvo. O sorriso de ironia
estilizava-lhe a figura onde podiam ler-se sinais de madrugada. Qual
escultura de sensual nudez a escorrer aromas pela noite inteira.

No ciúme que despertou prazeres sem nome, adivinhou-se a alcova em que 
fulminou de prazer quem a esperava há tanto.


***

APETITE

Naquela hora de sede, murmurava-se o entardecer de um dia longo. A
garganta secava-lhe na agonia da falta. À procura da gota, que ao leve
toque de um beijo, anunciasse o deslizar sereno de um rio. Que serpenteasse
pela veia, na correnteza do apetite. Perto viria a turbulência da fonte, em
descontrolada corrida, que haveria de saciar-lhe a fome líquida.

Intensamente forte era o amor.

***

                                                                           BEIJO

Naquele instante de encontro o olhar cresceu. Quando a boca se insinuou
à intimidade total do grito. A vida em turbilhão morria e renascia. Sem
pressa nem ansiedade. Em purpúreo esplendor do infinito. No aberto incêndio
do desejo. Pois ali tudo era céu e inferno. Fogo e chuva. Vulcão de lava ardente.
Rio que desabava. Trovão a ribombar em seu lampejo. Pêssego de veludo e
sumo de uva.

Romã que amadurou no momento selvagem daquele beijo.


***



RETROSPETIVA

Medi o tempo pela distância do teu abraço. À hora de saber quantos
degraus de vida conquistada por uma aberta, em dia de outono
pardacento. Haverás de insinuar que só a infância sabe guardar os gestos
e as imagens que o tempo desnudou.

É como se o passado estivesse à minha espera para, embrulhado em filigranas
de amor, me entregar este presente onde sempre te pressinto.


****


SEMENTE

A ternura com que o teu nome me enleva, me basta. Como se bastando, me 
enchesse. Me consumasse todos os sentidos. Não contes a ninguém de que
cor são os frutos que provamos, pelo sumo de só provar pelo prazer da 
semente. Não contes  nossos tudos e os nadas de momentos que crescem
como se desertos de areia  fossem. Na hora de conhecermos a hora de onde
nascem as flores, desses desertos aí seremos nós. 

E as malhas do tempo alongar-se-ão como nuvens pressurosas do nosso 
abraço, recuperado do nosso sangue.

***

TRÊS CAMINHOS

Era noite de três caminhos. O primeiro não tinha saída. Cumpria um destino
na senda do vestígio cujo sentido ia dar a um corpo deserto. As palavras
ficavam-lhe suspensas da sombra onde a luz se escondera na cegueira. O 
segundo era povoado de mitos que tornavam o ar irrespirável. Entre a razão
da impaciência e o desassossego do assombro. Que não servia o que se espera 
da harmonia com que se traduz o amor. No mistério de um olhar tranquilo encontrou
a promessa dentro dos últimos lábios que beijou. 

E o abraço tornou-se mais longo. Acabava na mesma fonte que fora seu começo. O 
terceiro caminho aconteceu já dentro da madrugada.

***

NOTA:

Poemas insertos nos livros:

Poentes de mar e serra - 1997 - (Sobre usos, costumes e tradições da beira-Paiva)

Uma Palavra - 2001 - (Sobre a analogia entre as estações do ano e as fases da vida de uma Mulher)

O amor é sempre inocente - 2017 - ( Homenagem a Judith Teixeira, poetisa silenciada do Modernismo Português)




                                       Autora - Aurora Simões de Matos


terça-feira, 12 de setembro de 2017

FEIRA DO LIVRO DO PORTO - 2017

" O AMOR É SEMPRE INOCENTE - Homenagem a Judith Teixeira, Poetisa silenciada do Modernismo Português"


Seleccionado para 


LIVRO DO DIA,  NA FEIRA DO LIVRO DO PORTO, a 10 / 09 / 2017







com redução de preço de capa


                                                                                                   
LIVRO DO DIA , NA FEIRA DO LIVRO DO PORTO,
 a 10 / 09 / 2017 - "O amor é sempre inocente - Homenagem a Judith Teixeira, Poetisa silenciada do Modernismo Português"

Autora - Aurora Simões de Matos
Editora - Edições Esgotadas

Anunciada desde a véspera e repetidas vezes aos altifalantes da Feira do Livro, foi uma sessão de apresentação e autógrafos, que excedeu todas as expectativas, esgotando completamente o estoque de livros disponível, obrigando à sua reposição.


ESTOU MUITO FELIZ e deixo imagens de uma das partes da "FESTA"...... transmitida em directo para o mundo, via Instagram!!!

                                         A autora
























MUITO OBRIGADA
Aurora Simões de Matos
( fotos de Ana Matos)