quinta-feira, 13 de julho de 2017

A MINHA ALDEIA

ALDEIA DE MEÃ - PARADA DE ESTER
CASTRO DAIRE




SUBLIMAÇÃO

 A minha aldeia é linda, linda, linda
 rendando a falda à bela Montemuro 
É o passado à espera do futuro
neste presente que o não é ainda




Morena, sensual, toda verdade                                        
insinuando-se ao Paiva, sedutora
escondendo a inocência encantadora
num jogo lindo de cumplicidade
entre férteis lameiros, milheirais
caminhos soltos onde a água corre
e o sol que a abrasa numa oferta
a que o rio não resiste mais
e em arquejos de amor como quem morre
lha cai aos pés numa paixão aberta


E assim vivendo, em plena doação
se complementam na doce magia                          
suprema dum amor todo alegria
que não lhes cabe sequer no coração
e transbordando para além de si
inunda os montes, as pedras, os caminhos
o sol, o céu, ventos e ribeirinhos
como se o mundo fosse todo ali


Passam as vidas para além do tempo
passam os tempos além das ideias
e o rio... sempre na mesma pureza
dum amor sublimado em sentimentos
que oferece à mais pura das aldeias           
que só nele mira sua eterna beleza


no livro " Pontes de mar e serra" - 1997 



(Fotos de Miguel Batalha)                                    
                                                                                                                                   


                                                      




Aurora Simões de Matos

                             Aurora Simões de Matos

domingo, 2 de julho de 2017

DOS INCÊNDIOS ÀS ARMAS ROUBADAS E AO FUTEBOL - AS MINHAS CONVERSAS COM O INFANTE, EM JEITO DE DESABAFO



Visitei o INFANTE D. HENRIQUE, na sua Casa da Ribeira do Porto. Fui recebida à entrada pela histórica Figura, tendo mantido com ela uma longa conversa, em modo de desabafo.

Não, não lhe falei da política expansionista de Portugal do seu tempo. Que muitos aplaudem e outros tantos criticam. Nem de gente escravizada. Nem do seu jovem irmão D. Fernando, que morreu prisioneiro em Fez, no Norte de África, perante a posição irredutível de D. Henrique e D. Pedro, em não entregarem Ceuta aos seus donos primeiros. Certamente, um espinho no sapato do Navegador.«Águas passadas não movem moinhos» e os tempos eram outros, e a palavra Pátria tinha um peso do tamanho do mundo, e D. Filipa de Lencastre não tinha educado a "Ínclita Geração, Altos Infantes" para a desistência, muito menos para a cobardia. E o Adamastor era conversa fiada que não lhe metia medo. E havia povos a precisarem de ser evangelizados. E etc... etc... etc... E a economia, a cultura, a língua e a geografia estavam mesmo a pedir medidas de alargamento!

Não fui ali para lhe falar das Descobertas, nem da Guerra Colonial que se lhes seguiu, cerca de 5 séculos depois.

O INFANTE É O INFANTE, e o seu lugar na História ninguém lho tira nem põe em causa. Como ninguém porá em causa o patriotismo subjacente a todo o movimento de expansão territorial das diversas potências ultramarinas. Que fez dos Portugueses os grandes impulsionadores da recuperação de uma Europa em crise, por via dos milhões de pessoas mortas com a peste negra e por via das guerras religiosas. E que tornou Portugal numa grande potência mundial e no primeiro Império de grande amplitude, a nível global.

*

Assim sendo, tinha eu encontrado o melhor interlocutor para o meu revoltado desabafo. Vai daí, barafustei:


Senhor Dom Henrique

- Como pode este país tão cheio de referentes heróicos pela sua soberania e engrandecimento, solidariedade e respeito por si próprio deixar arder incautamente 500 milhões em bens, um valor incalculável em vidas humanas, tantas certezas  e tantas esperanças, sem ninguém de boa fé colocar sem medos a mão na consciência individual e colectiva, encontrar o rasto que despoletou o crime e se assumirem as verdadeiras culpas?!

- Como pode este país dormir tranquilo, quando quem tem o dever de olhar pela sua segurança se deixa adormecer, à hora a que assaltantes lhe levam armas e munições, material de guerra, de defesa e segurança, talvez para ser usado em ataques terroristas contra si próprio?! Talvez por desleixo grosseiro que nos envergonha? Talvez por falhas previstas, confirmadas e desvalorizadas por quem subiu ao poleiro e dali não enxerga senão o que lhe convém?! Talvez por, ingenuamente, não se ter ainda reparado que o mundo está em guerra?!

- Como pode este país de grande destaque no futebol mundial, o desporto mais popular de sempre a nível global, aquele que arrasta multidões e envolve orçamentos astronómicos, que faz parte da nossa cultura, que além de ser superiormente considerado na literatura, no cinema, na televisão, na música, desempenha um forte papel na saúde física e psíquica das gentes e na solidariedade entre os povos, como pode este país permitir que alguns dos seus clubes mais prestigiados se tenham entregado ao ódio e à vingança extrema, exibindo na comunicação social para o planeta atónito, o ridículo de e-mails comprometedores de grandes nomes do desporto- rei envolvidos em corrupções, tráfico de influências, branqueamento de gestos e de palavras, vilezas e descalabros... e a denúncia de rezas e bruxarias encomendadas a especialistas portugueses e estrangeiros da magia negra?
Isto, claro, sem nunca ninguém chegar a acordo e  a consenso, quanto a culpados, que os não há, obviamente!!! Como se sentirão Eusébio, Mário Coluna, Peyroteo, Luís Figo, Quaresma, Cristiano Ronaldo?


O INFANTE ouviu, suspirou, colocou a mão em pala sobre o olhar que dava para o rio e se prolongava pelo mar fora, perscrutou as ondas da vida, e respondeu, rouco de pasmo:

- Pobre Portugal... assim não vais longe!!!

E, cobrindo o rosto com as largas abas do inconfundível chapéu, rematou, incrédulo:

- Para não ver misérias!...

***

Por mim, dei meia volta, entrei no Museu ali a dois paços e fui visitar a Exposição sobre "O Foral do Porto", inaugurada a 10 de Junho último, com a presença do Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
E dessa visita vos deixo alguns registos:







Assinatura no LIVRO DE VISITAS

PRAÇA DO INFANTE

                                            CASA DO INFANTE - PORTO



                                                           *Aurora Simões de Matos

domingo, 25 de junho de 2017

"ODISSEIA DA ALMA", de Morgado Mbalate - Breve análise literária, por Aurora Simões de Matos


   MORGADO MBALATE, JOVEM POETA MOÇAMBICANO


                           
        Companhia inseparável, a belíssima Obra que o guindou ao respeito de seus conterrâneos



    NA  TVM  INTERNACIONAL, 
 PARA FALAR   DO  SEU LIVRO


                                                      "  ODISSEIA DA ALMA "
                                                       
                                                            ***




Breve análise, por Aurora Simões de Matos

( excerto)

( ... )
Sábio, o poeta. Numa juventude que respira legítimas ambições desocultadas, onde o cúmplice é agente de partilha. Numa inocência que se transfigura em minúsculas reflexões, onde o religioso é sinónimo e sujeito de religação. Numa disponibilidade que se expõe sem reservas, onde a sensibilidade criativa é inamovível referência de liberdade.
Manoel de Barros, um dos mais conhecidos e aclamados poetas brasileiros dos meios literários contemporâneos, será a sua mais forte influência.
A natureza e as coisas simples do quotidiano, fonte de inspiração primordial. O rio sujo e mestiço, sua poesia de eleição.Talvez que do mestre tenha herdado certo fascínio recorrente pelas palavras "pássaro", "passarinho", "ave", "garça", "gorjeio", "árvore" ou "terra", entre outras de significado tão abrangente quanto a sua especificidade. Num estilo que o define, enquanto jovem escritor, particularizando-lhe o pensamento, a ideia e a mensagem.
Sendo que a poesia é também arte, o impulso da criatividade emerge em Morgado Mbalate, num fluir de sensações em jogo de espelhos. Com a limpidez de um espírito poético de eleição, materializado em textos reveladores de afectos perenes. Sugestivas evocações, em belíssimas imagens, na sua expressão mais pura. Metáforas sinestésicas, na combinação perfeita de impressões sensoriais em profusão, com os sentimentos do poeta. A personificação, a prosopopeia, o animismo, a metonímia, em ritmos interiores geradores de uma dinâmica lírica, merecedora de toda a atenção.
Ler devagar a Obra deste autor é entrar na grande festa dos sentidos que os tons intensos de África nos sugerem. As cores, os sons, os cheiros, os sabores, maciezas aveludadas e rugosas asperezas. A pujança de uma natureza sempre viva, em harmonias que nos envolvem e acrescentam.
Os sonhos de uma moçambicanidade adulta, com coração de criança. A realidade de mãos dadas com a lenda. O preconceito de mãos dadas com a (in)diferença. A vida dura das gentes, plasmada em alegrias e esperanças redentoras.
Em toda a sua escrita, Morgado Mbalate por inteiro. Mesmo quando afirma: «Eu não sou uma semente de luz...», o poeta subscreve a importância da poesia no crescimento dos Povos.

                                                * Aurora Simões de Matos

Comentários

quinta-feira, 22 de junho de 2017

TODOS AO PALCO !!!

***  NA DANÇA DA VIDA  ***





... há quem se perca de sonho na VALSA de um estonteante salão da futilidade

... há quem se bata de convicção no  SAPATEADO  de um revoltado protesto de rua

... há quem se orgulhe de atitude no FLAMENGO de um caloroso estrado seguro

... há quem se assuma de gesto no SAMBA de um louco argumento concertado

... há quem se liberte de angústias no  FANDANGO  de uma alegre animação burlesca

... há quem se redima de excessos na CHULA de uma contida tradição serrana 

... há quem desmaie de cansaço no CORRIDINHO de um voltear perdido  em luta pelo trabalho




Enfim...
não interessa a estrutura da dança. Mas sim que ELA nos faça reagir e que cada um encontre o palco onde possa brilhar!!!




                                                            Aurora Simões de Matos

segunda-feira, 19 de junho de 2017

QUE MENSAGEM INDECIFRÁVEL?!


       INCÊNDIOS...

O ALVOROÇO 
 DA NATUREZA E DAS GENTES




                                                                          


Não estava lá, mas vi. E senti, como muitos de nós. O coração de Portugal a sangrar de pânico, feridas dilaceradas em chama.

Vi alastrar o fumo, vi alastrar o fogo, vi alastrar o grito doloroso da terra, em ecos duma linguagem estranha, no crepitar estalido das árvores agonizantes. Das casas agonizantes. Das gentes agonizantes.

Vi alastrar o fogo. E os rostos queimados das pedras faziam lembrar máscaras de onde caíam lágrimas. De onde caíam gritos.Lágrimas secas de quem já nada sentia, tanta a dor. Gritos de alarme de quem já nada pedia, tanta a raiva.

Vi a verdura ceder, apagando-se na intensidade da luz, entre a vida e a morte.

Vi os pinheiros ruírem do pleno gozo da força, envoltos nas sôfregas labaredas que os consumiam. Presos ainda à condição da sua verticalidade, num simbolismo que já nada dizia.

Vi pássaros aflitos fugirem dos seus cumes, soltando assobios roucos de pasmo.

Vi  flores e  frutos humildes com ar temeroso, à espera do funesto instante. 

Vi crianças agarradas à memória de um pai, gritando a dor de um país. Vi jovens a cuspir de desespero, perante o retrato de um amigo que partiu sem despedida. Vi mães dobradas até ao chão, num espasmo sem redenção.




                                                              

Vi a densa e pesada muralha de calor e morte esmagar o ventre feminino da terra.

Vi o medo e a revolta das gentes, retinas encharcadas no alvoroço duma guerra perdida, pálpebras pesadas de tanta insónia. Vi a vida ceder à morte que lhe esmagava o sentido, a razão e a dignidade.


E senti o desgosto turvo da impotência. Da penosa impotência, clamando por um porquê.

                                                                        

Que sentimentos albergará o coração da Natureza, que sugere a vingança dos sentidos sobre a beleza?

Que lições farão sentido, quando se realizam pelo extremo fatal da vida?

Que mensagem esta, indecifrável, cruel e injusta? Porquê tantos inocentes a serem imolados num campo de batalha sem armas que lhes acudam, sem fugas que lhes valham?

Não há pretexto humano que justifique os contornos de tanta dor!

                                                                    

Não estava lá, mas vi. Vi tudo à mercê do nada. E os meus olhos, em coro com o clamor das retinas encharcadas no alvoroço das gentes e com o silêncio pesado das fragas mascaradas de negro, choraram lágrimas de pasmo. Lágrimas imerecidas. Lágrimas secas de quem já nada sentia, tanta a dor.

Vi tudo à mercê do nada. E, na palma da minha mão fechada com muita força, quis encerrar um tempo de angústia de onde me escorreram palavras sem tino.

Que Deus me perdoe!



Aurora Simões de Matos

                                                                       

(Imagens da net)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

GRANDE INTERVENÇÃO DO REV. P. DOUTOR JOÃO ANTÓNIO TEIXEIRA, REITOR DO SANTUÁRIO NOSSA SRA. DOS REMÉDIOS, NA " TERTÚLIA ARTES E LETRAS" DE 20/ 05/ 2017, NO MUSEU DIOCESANO DE LAMEGO

        TEMA DA TERTÚLIA:
"ARTE SACRA - AS VÁRIAS LINGUAGENS DE DEUS"

***
O musical sagrado e o sagrado musical


Padre Doutor João António Teixeira


1. A título de preâmbulo, gostaria de começar esta minha intervenção com uma (dupla) confissão: 1) sempre gostei muito de música, mas 2) nunca consegui tocar qualquer instrumento musical. Isto mostra, desde logo, que a vontade também tem os seus limites. E demonstra igualmente que até os ditos dos maiores sábios também contêm as suas falhas.

Penso, concretamente, na conhecida máxima de Albert Einstein: «Se podes imaginar, também podes conseguir». No meu caso, imaginei que conseguia, mas não consegui o que imaginei. Nos alvores da minha vida, imaginei que conseguiria tocar algum instrumento musical. Além de imaginar, tentei, insisti, só que não fui capaz de conseguir.


2. Não sendo pois um executante, tenho procurado ser um modesto apreciador e consumidor. Sem ser pretensioso, queria dizer-lhes — outra confissão — que comigo viaja sempre alguma composição de Bach. As suas peças servem não só de fruição, mas também — e sobretudo — de meditação. A sua sonoridade liberta-nos até quando mais nos prende.

Não é por acaso que Bach é apontado como uma espécie de «quinto evangelista», tal é a fundura teológica e a densidade espiritual da sua obra. Daí que não falte quem subtilmente observe que o apelido está desajustado à pessoa. Bach, em alemão, significa «ribeiro», quando o caudal da sua obra é torrencialmente oceânico.



3. Significativamente, Bach colocava no cimo das suas composições a sigla «J.J.», que era uma súplica: «Jesu, juva», isto é, «Jesus, ajuda-me!»[1]. E terminava as suas peças com outra sigla: «S.D.G.», que indica «Soli Deo Gloria». A sua obra foi sempre uma interacção fecunda entre a fé e a música. A música era a sua forma de viver a fé. Não admira, então, que Emil Cioran tenha notado que, «quando escutamos Bach, vemos nascer Deus. Depois de uma oratória, uma cantata ou uma Paixão, Deus tem de existir. E pensar que tantos teólogos e filósofos desperdiçaram noites e dias a procurar provas da existência de Deus, esquecendo a única!»

É claro que a música não é a única prova de que Deus existe, mas o certo é que, pela música, foram muitos os que chegaram a Deus. Basta olhar para o caso do filósofo espanhol Manuel Garcia Morente, activista republicano e anticlerical ao tempo da Guerra Civil de 1936 a 1939. Não foi nenhum intelectual católico que o convenceu; foi a música que o converteu. Ele próprio confessa que o momento decisivo para a sua conversão foi a escuta de «L’enfance de Jésus», de Hector Berlioz.



[1] Com luminosa simplicidade, o compositor Joseph Haydn confessava: «Quando estou a compor uma obra e sinto que me foge a inspiração, peço no Terço e rezo-o. Logo me vêm à mente as melodias em caudais e, por vezes, com tanta abundância que nem tenho possibilidade de as notar»!








4. De tudo isto podemos depreender que a música, em si mesma, contém uma sacralidade congénita. E esta sacralidade não se manifesta apenas quando a música fala de Deus. Além do divino, há, segundo os estudiosos, três fontes de inspiração para a música: o amor, a dor e a alegria. Alguém negará que o amor é sagrado, que a dor é sagrada e que a alegria é sagrada? E alguém contestará que a experiência de Deus ocorre especialmente na experiência do amor, na experiência da dor e na experiência da alegria?

Por outro lado, a música especificamente sacra, ao invocar Deus, invoca-O, quase sempre, em ligação com a dor, com o amor ou com a alegria. Compreende-se, assim, que a música sacra seja omni-abrangente, de pendor panenteísta (não panteísta). Ou seja, a música mostra como Deus toca em tudo e como tudo (nos) leva a tocar em Deus. A esta luz, percebe-se também que a música sacra esteja presente muito para lá do espaço sagrado. Dou um exemplo, de todos bem conhecido. O hino oficial da Liga dos Campeões é a adaptação — feita por Tony Britten, em 1992 — de um belíssimo exemplar da música sacra. Trata-se do hino «Sadoc, o sacerdote», composto por um alemão (Handel) para a coroação de um rei inglês (Jorge II) a 11 de Outubro de 1727. A letra inspira-se na passagem do Primeiro Livro dos Reis 1, 38-40, sobre a unção do Rei Salomão. Foi David que designou Sadoc para ungir Salomão[1].



5. Esta presença da música sacra para lá do espaço estritamente sagrado tem outras expressões sintomáticas. Numa altura em que nas igrejas predomina uma música sacra ligeira, um dos maiores redutos da música sacra profunda acaba por ser o espaço público. De facto, se quisermos ouvir música sacra de qualidade, temos de nos deslocar à Casa da Música, ao Centro Cultural de Belém. Ou, então, temos de sintonizar a RTP2 ou a Antena 2. Às vezes, chego a pensar que emissora católica é a Antena 2, tal é a quantidade de música sacra que (felizmente) emite. Curiosamente, nas igrejas a música sacra profunda é mais oferecida em concertos do que na liturgia.

Esta verificação não envolve qualquer desprimor pela música sacra mais ligeira, que actualmente é costume ouvir nas celebrações. O conteúdo sacro mantém-se nas letras, embora o ritmo não seja muito diferente do que se ouve nos espectáculos de diversão. Não há dúvida de que esta música sacra ligeira tenta favorecer a prossecução de dois objectivos estimáveis: a adaptação ao nosso tempo e a participação da assembleia. No fundo, há uma certa complementaridade. A música sacra ligeira procura agradar às pessoas com o desejo de as atrair para Deus. Já a música sacra profunda procura louvar a Deus com o propósito de O levar às pessoas. Sucede que, para nosso espanto, as igrejas estavam mais cheias quando a música que nelas predominava não estava centrada naqueles que as frequentavam. As pessoas podiam não entender o que escutavam, mas acabavam por se deixar conduzir pelo que ouviam.



6. Acresce que, na música sacra profunda, a dimensão sacra não está só nas letras, que muitos nem sequer conseguem compreender. Estende-se, desde logo, à melodia, à cadência, ao aprumo. Mais do que adaptar a mensagem às pessoas, a música sacra profunda procura cativar as pessoas para a mensagem. Em tal música ressoa, mais do que a perícia, a espiritualidade. A música sacra profunda não vem de fora para dentro, mas de dentro para fora.

Enquanto a música sacra ligeira sabe muito ao tempo em que vivemos, a música sacra profunda faz-nos saborear sobretudo a eternidade que somos chamados a viver. A música sacra ligeira estimula mais a intervenção do que a meditação. Com a sobreposição do ritmo em relação à melodia, a tendência, sem darmos por isso, é mais para mexer o corpo do que para mover a alma. A pergunta que surge não pode ser senão esta: se nos centramos demasiado em nós, que condições criamos para a abertura, para a mudança, para o crescimento e para a superação?



7. O certo é que, de uma forma mais profunda ou de um modo mais ligeiro, a sacralidade da música continua bem presente na nossa vida. E, depois de uma fase propensa à desconstrução de tudo o que vinha do passado, parece que entramos numa época mais receptiva à reconstrução de tudo o que é perene. E o perene, embora datado, não vale só para um tempo; é válido para todo o tempo. O perene não perde actualidade. As grandes composições de música sacra continuam a ser bastante apreciadas, mesmo que nem sempre sejam muito reproduzidas. De resto, não foi a outra música que serviu de base à música sacra; como está documentado, foi a música sacra que deu origem a muita da outra música. Por algum motivo, a palavra «cultura» provém da mesma raiz da palavra «culto». Ambas significam «cultivar», concretamente, «cultivar o espírito». E, como sabemos, o «culto» foi, ao longo dos séculos, um dos principais «produtores» de cultura.

Queria ressalvar que, dentro da música sacra profunda, não incluo apenas a música erudita; incluo também a música mais simples. Também na música, a simplicidade está cheia de profundidade. Como não valorizar o chamado «cantochão», que significa precisamente «canto simples»? No cantochão cabem o canto moçárabe, o canto ambrosiano e sobretudo o gregoriano. De uma forma despojada, a mesma melodia é aplicada a vários textos, entoados, em alternância, por um solista e por uma assembleia.



8. É no âmbito desta música sacra simples que emerge a música sacra popular, pela qual a alma do povo se vai elevando até Deus. De facto, não deixa de ser espantoso que, apesar da extensa produção musical à volta de Fátima, a composição mais famosa e identificadora do Santuário continue a ser o «Treze de Maio». E, na verdade, o segredo da fama — e da beleza — deste cântico está, sem dúvida, na sua sublime simplicidade. O sortilégio do «Treze de Maio» é que leva imediatamente o povo até Fátima e traz instantaneamente Fátima até ao povo.

É com o «Treze de Maio» que o povo se move até Fátima e se comove com Fátima. E não se pense que esta simplicidade foi espontânea. Diria que o «Treze de Maio» nasceu de uma simplicidade intencional, procurada. As pessoas que o fizeram nascer eram bastante dotadas. A letra é do célebre poeta Afonso Lopes Vieira, que a assinou como um servita, e a música é de um sacerdote redentorista, o Padre José Maria Gonçalves. A primeira partitura mostra que se trata de uma composição para órgão e (apenas) uma voz. As harmonizações que lhe foram introduzidas são muito posteriores.



9. Na sua expressão vocal ou instrumental, a música está indelevelmente ligada à vivência da fé. Dá-lhe mesmo um acréscimo de beleza e um suplemento de encanto. Não foi em vão que Santo Agostinho terá afirmado que «quem bem canta duas vezes reza». Aliás, é curioso notar que até o nome do local onde vive o Papa remete para a música. Com efeito e segundo alguns estudiosos, entre as possíveis origens etimológicas de «Vaticano», encontramos «vate»+«cano», ou seja, «canto» do «vate», do «adivinho» ou do «poeta».

Aliás, esta breve incursão pela etimologia permitir-nos-á alargar a vinculação congénita que existe entre a música e o divino. Há quem diga que, etimologicamente, a palavra «música» vem de «musa». Como sabemos, na mitologia grega, as musas eram as deusas da arte e da ciência. Filhas de Zeus (rei dos deuses) e de Mnemosine (deusa da memória), habituaram-se a cantar em coro. E, de facto, são muitas as alusões ao Céu como um coro ou um conjunto de coros. Há quem colija nada menos do que nove coros celestes: anjos, arcanjos, principados, potestades, virtudes, dominações, tronos, querubins e serafins.



10. Se é certo que o sagrado está presente na música, também é verdade que a música não está ausente do sagrado. A apresentação mais sublime do sagrado costuma ser feita de forma musical. De resto, na imaginativa leitura que Elie Wiesel faz da visão que o patriarca Jacob teve em Betel, a escada que ligava a Terra e o Céu (Gén 28, 12) nunca foi retirada. Essa escada tornou-se escala. Trata-se de uma escala musical cujas notas permitem a Deus descer à Terra para nos falar e permitem-nos a nós subir ao Céu para O alcançar. É certamente de uma forma musical que, segundo o Livro dos Salmos, «os Céus proclamam a glória de Deus» (Sal 19, 1). É igualmente em forma de cântico que, para Isaías, os coros celestiais, clamam «Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do Universo» (Is 6, 3). Aliás, os quatro seres vivos com seis asas, referidos no Apocalipse, cantam o mesmo, de dia e de noite (cf. Ap 4, 8). Não espanta, por isso, que a iconografia represente frequentemente os anjos formando um coro — ou uma orquestra — tocando instrumentos musicais. Para muitos artistas, os anjos são músicos instrumentistas, aparecendo a tocar viola, trompete, alaúde ou harpa.

O Céu é, ele próprio, descrito frequentemente como uma orquestra ou um conjunto de coros. No primeiro dos sete cânticos do Apocalipse, são muitos os anjos, que juntamente com quatro seres vivos e 24 anciãos, cantam continuamente diante do trono do Cordeiro (cf. Ap 4, 8-11; 5, 8-10). Curiosamente, aqui bem perto de nós, o tecto do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, que pretende figurar o Céu (como se vê pelo tom azulado), apresenta dois conjuntos de instrumentos musicais. Ou seja, para o autor, Bártolo Pires Zineu, o Céu é uma orquestra que entoa louvores a Deus e à Virgem Maria.



11. Se repararmos bem, a própria criação do mundo é contada como um acontecimento sonoro e, nessa medida, habitado por uma subtil musicalidade. O Génesis introduz cada acto criador pela fórmula «Deus disse» (cf. Gén 1, 3). E o prólogo do Evangelho de São João assinala que, no princípio, tudo foi feito pela Palavra (cf. Jo 1, 3).  Enquanto o Criador coloca os fundamentos do cosmos, «as estrelas da manhã cantam em coro e todos os filhos de Deus [isto é, os anjos] louvam, a grande voz, a Sua glória» (cf. Jb 38, 6-7). É por isso que, como nota Gianfranco Ravasi, a criação é concebida como uma espécie de uma música que está ininterruptamente disponível à escuta humana.

A música, para a Bíblia, perpassa toda a história humana, ressaltando-lhe os traços divinos. Pensemos, por exemplo, no hino de Moisés e do povo durante a travessia do Mar Vermelho (cf. Êx 15, 1-21) ou no cântico final do Livro de Judite (capítulo 15), ambos acompanhados com instrumentos musicais.



12. E que dizer do Livro dos Salmos? Os 150 Salmos, no fundo, são 150 cânticos. Aliás, a palavra «Salmo» vem do grego «Psalmós», que deriva do verbo «Psállein», que significa «tocar um instrumento de corda», nomeadamente a harpa e a cítara. Ele traduz o hebraico «mizmôr» (que aparece como título de um Salmo por 57 vezes) e que designa um cântico acompanhado por instrumentos de cordas. O conjunto dos Salmos é, desde o século VI, denominado «Saltério», termo que também indica um instrumento de música.

Importará ter presente que é dos Salmos que nos vem o Aleluia, um cântico de louvor a Deus. E é por isso que, como preceituam as normas (cf. IGMR 63), se o Aleluia não for cantado, é melhor ser omitido. O Aleluia nasceu para ser cantado. Ele deriva do «Hallel» ou «Hillel», cujo início se encontra nos Salmos 113 a 118. Eram cantados nas grandes festas judaicas, mormente na Páscoa. Como nos diz São Mateus, Jesus também os cantou no fim da Última Ceia (cf. Mt 26, 30)[2].



13. Quando Jesus nasceu, o Evangelho assinala que uma «multidão do exército celeste» (Lc 2, 13) apareceu aos pastores, dizendo, certamente em coro: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados» (Lc 2, 14). Segundo muitas figurações artísticas, os anjos tocam no nascimento de Jesus, muitas vezes sentados aos pés da Virgem Maria. Os anjos, com asas, formam pequenas orquestras ou um pequeno coro.

O apelo do salmista — «cantai hinos com arte» (Sal 47, 8 — foi acolhido pelo Cristianismo desde os começos. Basta pensar no «Magnificat», cantado por Maria (cf. Lc 1, 46-55), e no «Benedictus», entoado por Zacarias (cf. Lc 1, 68-79). Não espanta, pois, que São Paulo exorte os cristãos para que cantem a Deus com salmos, hinos e cânticos inspirados (cf. Col 3, 16-17; cf. Ef 5, 18-19). Mas os cristãos não se ficaram por aqui. A convocação dos crentes para os actos litúrgicos era feita através de um sinal a que chamaram sino (que significa «sinal»). Para alguns peritos de «marketing», esta é uma estratégia muito inspiradora. Alexis Periscinoto assinala que «a primeira ferramenta de “marketing” foi o sino. Quando ele tocava, não só atingia 90% dos habitantes de uma cidade, mas mudava o seu comportamento pessoal». O sino era visto como um sinal divino. Funcionava como uma convocação para a oração. Criava um clima diferente, fomentando a união de toda a gente.



14. Tudo isto mostra como, no fundo, Deus é música. Deus é harmonia. Deus é a conjugação cadenciada entre a diferença e a unidade. Há uma subtil musicalidade no mistério da Trindade. As pessoas divinas são como diferentes notas que compõem uma mesma melodia. Elas formam uma polifonia que nos visita em permanente sinfonia. Se, como disse Aristóteles, «a música é o princípio de todos os encantos da vida», podemos inferir que a musicalidade divina há-de ser a pauta para todos os passos da nossa existência. Cada passo humano é um com-passo divino. O compasso de Deus connosco é sempre um compasso ternário, executado de um modo sempre extraordinário. Deus ama-nos desde antes do tempo, acompanha-nos em todo o tempo e acolhe-nos para lá do próprio tempo.

Na experiência de Deus está o ápice da harmonia e o segredo da autêntica alegria. É por isso que todo o músico acaba por ser um teólogo e é por isso que há muitos teólogos que também são músicos. Basta pensar no Papa Bento XVI, pianista de reconhecidos méritos, a quem alguns chamavam o «Mozart da Teologia». É que na música resplandece, além da verdade sobre Deus, a bondade de Deus e a beleza que é Deus. O então cardeal Joseph Ratzinger achava até que a beleza de Deus sobressai mais nas músicas de Bach e de Mozart do que em muitas homilias. Mas a música não pertence só à estética; também inspira a ética. É que a prece dos lábios só faz sentido se for acompanhada com a coerência da vida. A este respeito, é espantosa a advertência de Cassiodoro, no século IV: «Se continuarmos a cometer injustiça, Deus deixar-nos-á sem música». Isto significa que o pior castigo para o pior pecado é ficarmos privados de música. Ou seja, é ficarmos privados da harmonia de uma existência onde todos são necessários e cada um é irrepetível. Na «pauta» da vida, Deus é o «sol maior» que não deixa ninguém na obscuridade. É pela solidariedade que maior tributo prestaremos à divindade!



Lamego, 20 de Maio de 2017
               P. João António Teixeira


[1] Já agora, será interessante notar que Sadoc é nome de sete personalidades bíblicas, uma das quais é referida por São Mateus como antepassado de Jesus (cf. Mt 1, 14).

[2] Os Salmos do Hallel dividem-se em: «pequeno Hallell» (Salmos 113-118), «grande Hallel» (Salmo 135) e «Hallel final» (Salmo 150).

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https://youtu.be/toBZLOQULfU

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terça-feira, 6 de junho de 2017

IMAGENS DO PORTUGAL PROFUNDO



A IMAGEM DO AMOR
Viveram alegrias e dores, ganhos e perdas, alguns ócios e muitas labutas.
Construíram um mundo difícil mas honesto, à medida da sua pouca ambição. E nele viram crescer filhos e netos. Descalços na terra batida. Vestidos na estopa de linho e no burel de grosseiro aconchego. Alimentados na frescura de águas puras e verdes campos de suores eternos.
Como sempre viveram em crise, mal se apercebem de que o mundo mudou.
Nunca pediram e nunca esperaram nada de ninguém, pois se habituaram a subsistir pelo próprio esforço.
Agora, quase no limite da vida, feitas as contas...não devem nada a ninguém
e são felizes.

São a imagem da CUMPLICIDADE, DA PARTILHA DO PÃO E DAS EMOÇÕES, DA ALEGRIA, DA PAZ DE ESPÍRITO E DO AMOR.
SÃO ALGUNS DOS MUITOS HERÓIS DO NOSSO PORTUGAL PROFUNDO...que, apesar de tudo, ainda têm vontade de rir com gosto, de namorar e de confiar...
E a mim, que os conheço de perto, ao vê-los tão verdadeiramente descontraídos e felizes, apetece-me perguntar-lhes:
- Que Santo vos fez o milagre de TANTA SAÚDE , TANTA PAZ E TANTO AMOR???

                                                             * Aurora Simões de Matos