terça-feira, 26 de junho de 2018

NOVO LIVRO COM NOVE CAPÍTULOS - Autora: Aurora Simões de Matos




             A VIDA É UM AFORISMO


PREFÁCIO DE MÓNICA FERREIRA LIMA

 ----  CAPA E ILUSTRAÇÕES DE JOÃO TIMANE -----
Editora - Edições Esgotadas  


       A VIDA É UM AFORISMO
                                                   
                  IV CAPÍTULO





                                                  *****************


                                              IRONIAS



« A ironia talvez fosse necessária à grandeza da alma.»

                                                                           Friedrich Nietzsche



« É muito mais difícil matar um fantasma do que matar uma realidade.»

                                                                                        Virgínia Woolf
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desgraça dos pobres e a mesquinhez dos ricos não o são por fatalidade do conflito; são-no por inoperância da sua indignação.

. Andar sempre cheio de razão é ter perdido o estilo próprio da perfeição.

. Nem todas as idades ficam entre o nascimento e a morte; a vida é muito mais que o tempo de viver.

. A oportunidade é uma provocação; tanto quanto a audácia é uma afronta e o erro é uma injúria.

. O medo é a forma bastarda da impotência.

. Somos feitos para nos perseguirmos, em busca de um qualquer sentimento que nos conforte, ou destrua.

. Na vulgaridade do quotidiano, encontramos muitas vezes pequenas vitórias que abrem caminho à estética triunfal da eternidade.

A primeira desgraça é ser-se desamado; a última é ser-se ciumento.

.A idolatria tem uma ética muito própria: a submissão irresgatável à propriedade originária do impulso romântico, que se expandiu como instrumento de fé.

. O ladrão deixa a toda a família uma herança de perdição e descrença: a vergonha, sem hipótese de recurso.

. Os demónios dos outros são quase sempre inspirados nos nossos.

. O que não existe é tão complexo como a vida que nos escorre entre os dedos, em forma de tempo.

. Os segredos de um rio são muito para além de qualquer margem.

. A extravagância é a linguagem dos firmes, como a sensatez é a linguagem dos tímidos.

. O que fica depois da tragédia é a humilhação que resulta da impotência.

. Na luta contra o tempo, o homem nunca terá qualquer hipótese de triunfo; a morte é a grande glória.

. Há sempre o rumor de passos, que fica para lá da partida; escutar  seu eco, um gesto de encontro.

. Mais do que  manifestação de força, o alarido social é grito de descrença.

. Há dias, em que até o poeta mais sisudo sorri à passagem das cobras.

. A arrogância é a face mais visível do fracasso.

. A cumplicidade é um girassol que se vai desfolhando, em pétalas de puras inocências ou duras consequências.

. Há palavras que se escondem entre dentes, para não terem que acabar cuspidas.

. Qualquer sofreguidão pode levar a engasgamentos fatais.

.Quando se tropeça num capricho, é fácil o tombo de múltiplas quedas.

. Há lonjuras onde não cabe qualquer distância.

. A poesia é um rendilhado sempre imperfeito.

. Do salto arriscado pode acontecer uma queda no mar; ou um voo na maresia.

. Há noites, em que nem mesmo a brandura do céu consegue desamarrar sinais de paz.

. Eterno é o farol aceso, contra os pássaros em tímidos achegos ou largas asas de voo.

. Na lareira crepita ainda o lume que reacendi, com recordações abrigadas na frigidez do tempo.

. No estreito chão da intimidade, vamos aprendendo a segurança dos largos passos da vida.

. Há poentes de gelo em céus cor de fogo, e poentes quentes no frio das madrugadas.

. Nascemos para ser barco no mar alto, e o mar é imenso de atravessar, e os nossos destinos são os destinos dos outros!

. Grande crueldade é ser a natureza do grito, a quem sufocaram a garganta e o sentido da palavra celebrada.

. A surpresa que fere o ouvido pode inaugurar silêncios; ou tumultos.

. O frio desiludido repete-se, de cada vez que o poema nos foge, antes que o sorvamos até ao último trago.

. Há quem não saiba que o mundo se descobre pelo toque.

. Abrir o pensamento não é a mesma coisa que abrir o coração: são diferentes as chaves que os encerram.

. A vida é um estorvo para os afetos.

. Quando o amor não está confirmado, pode esvair-se em linguagens banais.

. Quando se desfaz um laço familiar, todos se transformam em vítimas da memória.

. A cordialidade é  dever simpático, quando se tem a barriga cheia.

. O arrependimento muitas vezes decide melhor do que a atitude.

. As melhores histórias são as da infância, que foram vividas em tempo de dúvida.




Autora - Aurora Simões de Matos
Para o livro: A VIDA É UM AFORISMO

segunda-feira, 18 de junho de 2018

DUAS  MENSAGENS  DE  GRANDE  SIGNIFICADO PARA  A  TERTÚLIA, EM DIA DE ANIVERSÁRIO



(Da Senhora Vereadora da Cultura da C. M. Lamego, Dra. Ana Catarina Rocha)

Estimada Senhora Professora Aurora Simões de Matos
Ilustre Coordenadora da Tertúlia Artes e Letras

Sirvo-me do presente para parabenizar a distinta Professora, pelo sexto aniversário da Tertúlia Artes e letras, que mui dignamente coordena.

A qualidade das Tertúlias é reconhecida por todos e é um marco indelével na cultura lamecense.

Saúdo a Senhora Professora com muita estima e carinho e peço que continue com essa importante ação cultural.

Faço votos para que a Tertúlia Artes e Letras se perpetue no tempo. 

Naturalmente que reitero toda a disponibilidade do Município para o que entenda necessitar.

Aproveito o ensejo para, na sua pessoa, parabenizar todos os tertulianos e todos os colaboradores culturais da tertúlia.

Infelizmente, por responsabilidades previamente assumidas, não poderei marcar presença, porém esteja certa que acompanharei com atenção a notícia que tornar pública, sobre a Tertúlia.


Com um beijinho.

Ana Catarina


( Da Tertuliana Mónica Lima, a partir dos Açores)

Feliz aniversário Tertúlia!

Seis anos de entrega, seis anos de amizade! seis anos de cultura, seis anos de dedicação!

Dedicação de todos os intervenientes da Tertúlia dirigidos pela Sra. Coordenadora, de forma entusiasta e com um rigor exímio.
Seis anos de afetos… ao produzir e defender cultura numa postura de resistência, perante um mundo em constante desenvolvimento.
Os afetos resgatam-nos do vazio dos dias, tornam-nos mais sensíveis para aquilo que nos envolve, nomeadamente na nossa relação com os outros. Numa época de ritmo apressado, há que repensar o ócio, e é crucialmente importante que as pessoas criem hábitos de cultura, e saibam que é preciso ler e conversar. A arte é uma das maneiras mais eficazes para manifestação de novas tendências e até mesmo para criar conceitos e inserir novas maneiras de abrir a perceção do ser, em relação ao mundo, à vida, ao amor e também às relações humanas.

A Tertúlia é, em Lamego, o espaço privilegiado disso mesmo. De resistência e de defesa de algo fundamental – a CULTURA! 
Cultura é inclusão, é uma porta de entrada para que tenhamos uma sociedade mais justa, mais humana.

Feliz aniversário querida Tertúlia!

É uma honra fazer parte desse lugar de troca genuína de ideias, presencialmente ou não.
Parabéns ,meus caros amigos, soprem uma das velas por mim!

Um abraço ao longe…

A todos, a minha mais sentida homenagem!
 Pela dedicação e vontade que demonstraram neste seis anos, e por não desistirem de continuar a lutar, aos meus amigos Aurora Simões de Matos e José Pessoa, o meu ABRAÇO MAIOR!

Mónica Lima




Em nome da TERTÚLIA ARTES E LETRAS, um grande abraço às autoras destas mensagens, tão ricas quanto significativas. tão amigas quanto carregadas de incondicional apoio, tão bonitas quanto de singular intenção.

O meu abraço sincero, Dra. Ana Catarina Rocha e Dra. Mónica Lima!!!

Aurora Simões de Matos

terça-feira, 17 de abril de 2018

Mulheres estropiadas de guerra - Poema de Aurora Simões de Matos

MULHERES  ESTROPIADAS  DE  GUERRA


Era um vento distante
na ramagem longínqua dos sinais de morte
a bradar na noite sem sono

Eram ecos de raiva à solta
na voz da natureza em desespero

Embrulhada no frio
a pobre mãe viúva de seu filho
no silêncio dos lábios regelados
rezava ainda a oração perpétua

São seus todos os ventos
rebelados na voz que a chuva fustiga em coro

São suas todas as noites por dormir
e a natureza em pranto tem seu corpo



                                                          © Aurora Simões de Matos


domingo, 25 de fevereiro de 2018

FONTE VELHINHA - Poema de Aurora Simões de Matos


                                             NA FONTE  DAS  ALIANÇAS



Sempre que a vida me leva
a passar junto da fonte
que me oferece a frescura
da água que vem do monte
onde linda e sossegada
se espraia a minha aldeia
de luz branca e tez escura
bebo na concha da mão
dois goles de água tão pura
que fico logo curada
dos males do coração

Meus males são tão só da ausência
da fonte da minha aldeia
que me provoca saudade
e não me sai da ideia
e me traz ecos antigos
de tempos que já lá vão
e que remontam à idade
em que minha mãe lavava
com canções da mocidade
os meus cueiros puídos
na poça que transbordava

Na poça ao lado da bica
onde à hora da torreira
as mulheres iam lavar
as roupas da aldeia inteira
e se banhavam crianças
e se arrastavam conversas
até o dia finar
até a água se abrir
à hora de namorar
na fonte das alianças
das lembranças a florir

Minha aliança com ela
foi de quando em vez  revê-la
e beber na minha mão
dois goles de água fresquinha

Consolar meu coração
junto da fonte velhinha





                                                                        Aurora Simões de Matos

sábado, 9 de dezembro de 2017

CONTO DE NATAL


A CAMINHO DO PRESÉPIO - Aurora Simões de Matos

CONTO DE NATAL
Autora - Aurora Simões de Matos
A caminho do Presépio


Por tapadas e quebradas, vales, ladeiras e altos cabeços, soutos, pinheirais e milheirais, carreirinhos de chão pisado entre carquejas e sargaços, urzes e giestais, ouvia-se, qual hino de boas-vindas, o cântico solene de um coro universal.

― Parece que toda a Terra está em festa! – murmurou o cordeirinho tresmalhado, de olhar meigo voltado para o Céu.

― Eu estava à tua espera, cordeirinho! – respondeu a estrela cadente, irmã de milhões de outras estrelinhas espalhadas pelo escuro da abóbada celeste. Para te dizer que tens irmãos e que, de olhos postos no horizonte, te esperam ansiosos. Vai, cordeirinho, corre, não os faças esperar mais. Eu ensino-te o caminho.

― E quem está a cantar esta música tão linda?

― São os anjos do Céu. É Natal, nasceu um Menino no coração de cada homem e esta noite todos param para festejar o grande acontecimento. Mas tu és pequeno demais para compreenderes estas coisas. Agora só tens que te apressar, cordeirinho. Eu ouvi no espaço a oração do jovem pegureiro aflito, pedindo a Maria a graça do teu regresso.

― É muito longe a casa dos meus irmãos, linda estrelinha?

― Duas léguas e meia, por tapadas e quebradas, vales, ladeiras e altos cabeços, soutos, pinheirais e milheirais, carreirinhos de chão pisado entre carquejas e sargaços, urzes e giestais. Estão todos à tua espera, a tua ausência uniu-os numa corrente de fé, grande é a esperança em tempo de Natal. O Presépio da Igreja está pronto e o teu lugar lá está reservado. Até à última hora e para além dela, ninguém poderá nunca ocupar o teu espaço. Se não te atrasares, chegarás a tempo, cordeirinho.

Pelos caminhos da serra, a sós com estes pensamentos, seguia ele o trilho das estrelas, iluminado pela mais brilhante de todas. Perto de um povoado, agigantou-se no silêncio da noite o cantar misterioso do galo emproado, de grande crista vermelha. A seu lado, a galinha poedeira abriu um olho e, ciente de galinácea sabedoria, cacarejou:

― Já pouco falta para a meia-noite. São quase horas da Missa do Galo e eu não quero deixar de representar a classe, como respeitada poedeira que sou.






E, atrás do galo todo emproado, em duas corridas alcançou o pequeno cordeirinho, à luz da fascinante estrela e ao som de um coro de vozes que não se sabia de onde vinham.

Os três, felizes, mas em silêncio, como se todo aquele ambiente e suas personagens fizessem parte da mesma oração, seguiram carreiro fora, à flor da terra batida e escura, fendida por pedaços de lousa macia e cortante.







À passagem dos devotos peregrinos, o cão de guarda da pequena casa isolada, à beira do Souto da Pedreira, ergueu-se nas patas traseiras, encostado à cancela de pinho e, espreitando com ar de interrogação, ladrou alto e bom som:

― Quem vem lá, por caminhos fora de horas?

Como ninguém lhe respondeu, rosnou, com ares de quem tudo percebia:

― Por aqui, alta noite estrelada, só quem vá festejar o Natal!

E, apoiando-se numa trave da cancela com as patas dianteiras, abalançou-se com as de trás e, de um salto, estava já a caminho do Presépio, na fila atrás do cordeirinho, do galo emproado e da galinha poedeira.

Cada vez mais perto dos irmãos, o jovem cordeiro, já cansado da longa caminhada, parou um pouco para beber na pequena poça que as chuvas do inverno haviam transformado em bebedouro de água transparente e em cujo espelho viu, nos ares, a estrela cadente que os guiara até ali.





















― Estamos quase a chegar. Segue-me, que eu vou à frente, a riscar com marcos de luz os caminhos que o Menino te destinou. Onde eu parar, entrarás e lá encontrarás os teus irmãos.

Cada vez mais perto, podiam ouvir-se agora, com bastante nitidez, sons de tambor e cânticos de crianças, a ensaiar a grande representação da chegada dos pastores ao Presépio.

Habituado a dar conta e sinal de pessoas estranhas, o cão de guarda apercebeu-se, através duma nesga entre dois telhados, da presença de uma estranha Figura de barbas brancas, vestida de vermelho, com um grande saco às costas.

Ladrou, espavorido, quase a despropósito.




― É o Pai Natal, que anda a distribuir prendinhas pelas crianças da freguesia! Quando chegarem da Missa do Galo, todos irão a correr ao canto da lareira buscar os presentes: rebuçados e chocolates, brinquedos ou livros. O Pai Natal sabe bem como distribuir.

Era a voz da estrela cadente que está, agora, a chegar à torre da Igreja Matriz, onde vai celebrar-se a Eucaristia da mais linda noite do ano.

Como quem toma a melodia do mais belo cântico de amor e boas-vindas e com ela consegue musicar um novo Hino da Alegria, o coro de anjos celestes, voando nas asas da sua voz, entoa por toda a Terra a frase da boa-nova:

- Nasceu Jesus! Nasceu Jesus! Nasceu Jesus!

A Igreja está repleta de fiéis, à espera da hora para o beijo ao Menino, deitado nas palhinhas da manjedoura, no grandioso Presépio Vivo. De súbito, como se o quadro não estivesse completo…

O galo emproado e a galinha poedeira entram de mansinho pela porta principal e, obedecendo ao instinto, vão agachar-se dentro do cesto vazio da pastorinha mais pobre.

O cordeirinho, exausto da longa viagem, nem dá pelos sorrisos doces dos seus irmãos e, sem cerimónia, alcança o bondoso S. José, deita-se a seus pés e adormece tranquilo.

O cão de guarda não entrou. Ele sabe que o seu lugar é à porta. Atento a todos os movimentos, faz um uivo de pasmo à passagem meteórica da estrela cadente que, da torre da Igreja, se lança pelo espaço em vertiginosa correria.

― Não te assustes, cãozinho! Tenho pressa, tenho pressa! Vou agora noutra missão. Lá longe, muito longe, os Reis Magos esperam a minha luz...






                                                    
               Aurora Simões de Matos

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

PORTUGAL RURAL ( 5 )

                                                             O CANASTRO

Foto de  Armando Jorge
Texto de Aurora Simões de Matos

                          BELO CANASTRO - CAPELA PEQUENINA

Plantada junto à eira, na colina
erguia-se a CAPELA PEQUENINA
bela, robusta, altiva, sobranceira
na sua postura e autenticidade
herdadas do tempo e da rusticidade
da terra-mãe
que lhe oferecera a força e o poder
arrancados à verdade do monte
O granito de seu pés fazendo ponte
e corpo lhe dera
arrancado à verdade do chão
o colmo corrido a cobrir-lhe o ser
e telhado  oferecera
de alma e coração

Belo canastro a relembrar farturas
Trabalhos e canseiras, as mais duras!

O ventre feito de vísceras douradas
na aridez do sol, na aridez do vento
que corria, livre, por suas janelas
à vontade do tempo
e lhe atravessava os ossos
lhe retesava as veias
na generosa intenção de oferecer
a dádiva do amadurecer
o pão, fruto de meses de canseira
do lavrador, até chegar à eira

Belo canastro a relembrar farturas
Trabalhos e canseiras, as mais duras!

Ainda hoje, singelo monumento
à ruralidade que é de todo o tempo
podemos vê-lo no seu lugar plantado
mesmo que das entranhas despojado
belo, humilde, saudoso, na colina
lembrando-nos CAPELA PEQUENINA