CORPO DE ÁGUA
Nasci perto do rio e do rio herdei
o corpo que não domino, porque é
feito de água. Na profundidade do
meu corpo podem descobrir-se os
corpos de meus pais e meus avós.
Eles ensinaram-me a lidar com a
harmonia e a desarmonia que supreende
cada impulso do meu conhecimento e
ajudam-me a aceitar os limites do
gesto onde começam as margens da
água e das palavras que nela sepenteiam.
Há uma explicação para tudo e, quando a
não encontro, interrogo-me no rosto deles.
Sei que preciso de vencer barreiras e é
nelas que tanto me debruço. Às vezes sou
arrastada pela corrente que brota das
entranhas onde acordam forças desconhecidas.
Encontro depois novos limites, que podem
bem ser a proximidade de outro rio.
**************************
RIO ERMO
Meu ser é um rio ermo
com margens inacessíveis
de altas escarpas.
Há tempestades
e há remansos
e remoinhos
em minhas águas.
Aurora Simões de Matos
terça-feira, 5 de junho de 2012
segunda-feira, 4 de junho de 2012
A Paiva da tranquilidade
Ao
encontro das águas
No limite da margem,
frente à Foz, testemunho emocionada o encontro entre os gigantes.
Mas a minha emoção não
é apenas este encontro. Ela vem já de cima, presa noutras águas
que a este Douro afluem, mergulhada noutras frescuras que a este
Douro dão corpo, vida e identidade, pressentida no desassossego que
neste ponto desagua, forma reticente do alarme que, nos labirintos do
tempo, abre caminhos à saudade.
A minha emoção vem da
intimidade com o leito de franjas bordadas nos verdes tons dos
milheirais da minha terra; está na voz das águas em cantilenas
límpidas nas manhãs claras de luz e nos queixumes rumorejados em
profundezas de vales sombrios; vive na pureza das cascatas
desfazendo-se em espuma branca de volúpia e no serpentear preguiçoso
que orla as tardes silenciosas da minha aldeia.
Com a minha Paiva, esta
emoção percorreu caminhos feitos de claridade e tempos feitos de
bruma. Deslizou por veredas estreitas de chão apagado, terra rendada
de urze e de giesta nascidas do xisto negro e alargou-se em planuras
de fertilidade. Saltitou travessuras em seixos macios de granito
acomodado à prova dos anos e quedou-se em tranquilidades lascivas à
borda das hortas, presa aos gestos lânguidos dos salgueirais. Venceu
os percalços das levadas e das represas, brincou nos alcatruzes das
noras e no romantismo de moinhos escondidos em recantos à espera de
pintores e de poetas.
Olhando este Douro
prisioneiro da sua tradição e da sua lenda, soberbo de grandeza e
de orgulho, ensalivo de ternura palavras urdidas na voz dos sentidos
e dou comigo a segredar-lhe perguntas sem resposta.
E que respostas sem
mágoa poderia ele dar-me sobre a limpidez das águas que a minha
Paiva inocente e generosamente lhe ofereceu?
Segredo-lhe queixumes
sufocados em suspiros rendidos à evidência:
- Onde está o rosto do
corpo do rio da minha aldeia? Que ânsias alterosas lhe abafaram a
voz? Que enredos imprevistos tentam afogar-lhe a história? Em que
caminhos esqueceu os vestígios para se perder nesta viagem para um
destino sem contemplações? Que prenúncios são estes que pairam na
densa atmosfera que envolve este momento?
Vejo bandos de gaivotas
varando o céu com silvos agudos de conquista e oiço ainda, muito
ténue, o medo da minha Paiva, tão longe já do rouxinol e da
cotovia, do pisco e do tentilhão. Em breve se afogará no mar.
Levará consigo os murmúrios e os tumultos deste instante e deixará,
desprendidas das águas já salgadas, lágrimas suspensas na bruma da
despedida.
E eu aqui, no limite da
margem, frente à Foz, testemunha emocionada do encontro entre os
gigantes, ignorando o que possa estar para além da imensidão desta
paisagem, porque – recordando Fernando Pessoa - é evidente que
muitas águas correrão «para além do rio da minha aldeia».
quinta-feira, 31 de maio de 2012
VARANDAS FLORIDAS
Andam
perfumes à solta
pelos
ares da minha terra...
E
visões silvestres de montanhas virgens
pedregulhos
seculares batidos pelo sol
que
acolhe a brisa balouçando os acres giestais
e
o rosmaninho misturado ao alecrim
tojo
amarelinho, sargaço e urze à espera
do
tempo que se cumpre e abre a Primavera
Andam
perfumes à solta
pelos
ares da minha terra...
Arcas abertas de enxovais de linho
e
cheiros macios a lençóis corados
em
estendais no chão com amor regados
na
santa frescura das águas da fonte
aromas a barrela, silvinha trepadeira
aromas a barrela, silvinha trepadeira
e
ao tenro trevo que lhes borda a beira
pelos
ares da minha terra...
Rumores-cristal de ribeiros que cantam
a
canção do moinho em segunda voz
à
surda cantilena solta do canastro
na
primeira voz silvada do vento
em
louvores ao homem que ali traz seu pão
cantigas
guardadas rente ao coração
Andam
perfumes à solta
pelos
ares da minha terra...
Aromas
com cores de montes silvestres
jardins
de aconchego, verdura de mimos
cheirinhos
a fruta, a mel, a cravinas
aromas
a água, a sol, a frescura
carinhos
de orgulho nos ares lavados
em
casas de xisto ou granito erguidas
frontes
enfeitadas, varandas floridas
Varandas
floridas por mãos solitárias
da
pobre viúva que vive sozinha
da
mãe saudosa que perdeu seu filho
da
criança triste que já não tem pai
Mãos
que padecem de sede e de fome
mãos
perdidas na vida, que a vida consome
mãos
que só na varanda repartem sua dor
com
flores doutras mãos lembradas com amor
Varandas
floridas por mãos companheiras
mãos
soltas na terra revolvendo amor
varandas
às cores de tanto aconchego
que
lembram salas de visita onde repousam
espargos,
sardinheiras, ervilhas de cheiro
dálias,
rosas brancas, cedros pequeninos
As
gentes que passam ficam bem cheirosas
só
de apreciar varandas vaidosas
Andam
perfumes à solta
pelos
ares da minha terra...
´ Aurora
Simões de Matos
(Do
site da Câmara Municipal de Castro Daire
Concurso " Varandas floridas" -2012)
Concurso " Varandas floridas" -2012)
terça-feira, 29 de maio de 2012
Apresentação do Livro de
Aurora Simões de Matos: Contos de Xisto
12-05-2012 15h Biblioteca
Municipal Dom Miguel da Silva, Viseu
Breves
palavras do Dr. Sérgio André Gomes sobre a Autora
Na
beira-Paiva, por entre o xisto, vive um povo humilde, mas orgulhoso,
habituado às agruras da vida, capaz tanto de sofrer como de
celebrar… sem nunca baixar os braços.
Aqui nasceu
Aurora Simões de Matos,
para mim, a Professora Aurora.
Dona de uma
experiência de vida fora do comum, é alguém que muito admiro, uma
das pessoas mais fascinantes que conheço.
Para que me
percebam, a Professora Aurora foi professora do meu pai, na aldeia
onde nasceu e deu os primeiros passos na profissão de uma vida. E
foi precisamente das palavras cheias de respeito, de carinho e
admiração de meu pai que começou a crescer o meu fascínio. Agora
que me é dada a oportunidade de conviver mais de perto com a Autora,
mais me deixo arrebatar pela sua incrível personalidade.
Desde muito
cedo, Aurora Simões de Matos começou a revelar uma invulgar
capacidade de colocar em palavras escritas, que muito honram a nossa
língua, o que lhe ia na alma. Deste exercício, já resultaram
variadas obras em verso e em prosa que, tal como a que hoje se
apresenta, podem até ser a sua forma de extravasar emoções, mas
são sempre oportunidade de nos deleitarmos com a sua escrita e uma
forma única de preservar no tempo as tradições e memórias de um
povo. O povo que nunca a abandonou, que sempre cantou, em verso e em
prosa, o que lhe granjeou o título de a Cantora
da beira-Paiva.
Ao longo da
sua vida passou por terras tão diferentes como Cinfães, Lamego,
Porto, Viseu e por onde passou fez amizades, ganhou saberes,
colecionou emoções. Sempre foi considerada uma pessoa de grande
profissionalismo e competência, de coração grande, coragem
extraordinária e doçura impagável.
É e foi uma
pessoa muito ativa em prol da Educação e da Cultura, tendo estado
ligada a uma série de projetos e iniciativas com objetivos muito
nobres.
Agora, pelo
meio da escrita, podemos também ouvi-la nesta nova aventura na Rádio
Clube de Lamego, com o programa “Quando o
Verso se Desfolha”.
Para mim, é
sempre um orgulho e uma honra poder estar na sua presença e poder
ouvi-la. Obrigado, por partilhar tanto connosco.
Por: Dra. Maria Irene Cardoso
Contos
de xisto: aqui
está o livro, na beleza expressiva da sua apresentação gráfica.
E
começo com uma citação:
«Um
dia, quis fazer um poema à beira do silêncio de um giestal em flor.
Sentei-me aos pés do silêncio, escorreguei o corpo, devagarinho (…)
sorvi com prazer o aroma da brisa que passava, sorri na plenitude
daquele estado de graça.»(In
Contos de xisto).
E
é neste «estado de graça» que Aurora Simões de Matos depõe nas
nossas mãos o seu novo livro.
«No
tempo azul da minha terra, ouvi o cuco a querer dizer-me que o tempo
verde estava aí, à espera das emoções de quem quisesse abraçar
aquele mundo em festa, beijar aquele raio de sol fagueiro a querer
inundar de vida cada ser, sorrir àquela esperança do amor a
renovar-se.» (In
Contos de xisto).
Nestas
frases, em prosa poética, estão algumas das coordenadas desta obra:
a sensação física vivida em plenitude e as emoções de um coração
intenso, na vibração máxima e sagrada de um amor sem medida pela
terra, a sua terra, a beira-Paiva, no concelho de Castro Daire. É
Meã, a aldeia natal da distinta Autora, a terra que, nesta obra,
vamos visitar. Mas somos convidados a visitar, também, a fiada de
pérolas das aldeias circundantes de Meã, que bordam as margens das
águas cristalinas, as mais cristalinas de todas as águas da velha
Europa: o rio Paiva. “A Paiva”, como, carinhosa e familiarmente,
os habitantes desta zona chamam ao rio que é seiva e alegria e vida
da sua terra.
«No
tempo azul da minha terra…»
Este
possessivo com valor afectivo, bem como a notação cromática, o
“azul”, a significar a plenitude, / o infinito, remetem-nos para
uma totalidade. Uma totalidade anímica, física e transcendental, de
que Aurora Simões de Matos é a voz, de que Aurora Simões de Matos
é a alma, mas também o corpo e o húmus, numa identificação
telúrica, que só tem paralelo em Miguel Torga: «Regresso às
fragas de onde me roubaram/Ah! Minha serra, minha dura infância!» -
diz o Poeta. Mas aqui, com Aurora Simões de Matos, na beira-Paiva,
as “fragas” são xisto, a rocha metamórfica, laminada,
geralmente escura ou mesmo negra, que tão bem conhecemos. É o xisto
que serve de moldura, mas é também elemento constitutivo e suporte
deste pequeno mundo serrano, que salta da vida para as páginas de um
livro, pela pena «ágil e grácil» de uma filha da beira-Paiva.
Em
Aurora Simões de Matos, nesta identificação com a terra e com a
serra, encontramos uma espécie de “saudade”, a “saudade” um
tanto à maneira de Teixeira de Pascoaes. A saber: «…o sincretismo
sentimental entre dois contrários - a lembrança presa ao passado e
a esperança projectada no futuro» - segundo Fernandes da Fonseca.
Efectivamente,
em CONTOS DE XISTO,
encontramos a memória ancestral de uma comunidade, nas suas diversas
vertentes: no “modus vivendi” do quotidiano, marcado pelo ritmo
do tempo. [...]
Contudo,
nesta obra, encontramos também uma actualidade pujante, nas
personagens mais jovens, com o seu modo de viver já modernizado por
uma nova visão da vida, um novo modo de estar, e o recurso às novas
tecnologias. É a esperança que abre caminho ao futuro…
A
saudade! Ela encontra expressão ao longo de toda a obra. [...]
«Quanto
ao poema que quis fazer, sentada aos pés do silêncio do giestal em
flor, dele aqui fica um esboço. (…) Que o meu poema não é mais
que uma saudade.»
E
é na saudade, nascida do passado e do presente, por paradoxal que
pareça, que Aurora Simões de Matos se exprime como a voz da terra e
da gente da sua beira-Paiva.
Recordo,
a propósito, as palavras de Manuel Alegre, num dos seus mais belos
poemas:
«Canto as armas e
os homens,
Porque
a Tribo me disse:
tu
guardarás o fogo.
E
por armas me deu
o
bronze das palavras.»
E
permito-me parafrasear estes versos, em atenção à Autora de CONTOS
DE XISTO:
«Canto
a terra e a gente,
Porque
a Tribo me disse:
Tu
guardarás o fogo.
E
por armas me deu
O
ouro, o mel e o linho das palavras.»
Assim,
investida da sua missão de «guardar o fogo», é com palavras “de
ouro, de mel e de linho” que a voz de Aurora Simões de Matos se
ergue, inebriada, para celebrar a Vida na sua beira-Paiva, com toda a
riqueza da simplicidade e da ancestralidade que lhe são próprias.
«O
ouro, o mel e o linho das palavras.»
O
ouro, encontramo-lo na expressão viva concisa e precisa de muitas
destas narrativas.
A
linguagem é versátil, plástica, por vezes poética, sugestiva,
apta a desposar a realidade no seu ritmo do quotidiano, do insólito,
quando ele surge. [...]
Em
“Luta de bois na feira do Fojo”, o leitor quase “assiste”,
empolgado, à cena como realmente se passou. O vocabulário
criteriosamente seleccionado e a feliz combinação das sonoridades,
com vogais abertas e fechadas, alternando-se, as consoantes mudas e
sonoras, as sibilantes e as líquidas, dão-nos a visão ampla e do
combate esforçado entre os animais:
«A
luta começa. O boi finca as patas no chão e, usando a força da sua
corpulência, empurra o adversário com a testa. Chifres contra
chifres, músculos retesados, baba a escorrer de raiva, olhos
desvirados pelo cansaço (…). Bravura à flor da pele, num jogo de
força e resistência.»
Em
CONTOS DE XISTO,
sentimos um mundo de aconchego e amor que nos lembra a doçura
intensa e maviosa do mel, no dia-a-dia rural, percepcionado pelo
olhar feminino de uma Pessoa com uma alma a transbordar de humanismo.
«Sobre a nudez crua da Verdade, o véu diáfano da fantasia» -
poderíamos dizer, citando Eça de Queirós. Contudo, em Aurora
Simões de Matos, esse “véu de fantasia” não atraiçoa a
realidade. Pelo contrário: dá-lhe outro relevo, apontando, sem
enfadonhos moralismos, para a construção de um mundo melhor: com
calor humano feito de solidariedade e de partilha. Com afectos.
Sempre numa atitude de total respeito: pelos humanos, pelos animais,
pela Natureza inteira. Há também uma atitude de respeito pela
Transcendência, nas várias referências à religiosidade popular e
ao modo como o Povo se relaciona com o Sagrado. A celebração
jubilosa das festas de São Bartolomeu, de São Jerónimo, de São
Macário ou de Santa Bárbara Virgem, ocupa, nesta obra, lugar de
relevo. [...]
Tal
como em Teixeira de Pascoaes, «a religiosidade e a Transcendência
estão sempre presentes, como uma inerência ao sentido da vida»,
segundo Fernandes da Fonseca. Assim também nas narrativas de CONTOS
DE XISTO: «Deus
super omnia»; ou, por outras palavras, e usando o registo popular:
«Deus é grande e está no mesmo sítio».
Finalmente,
«o linho das palavras», na atitude de «…marcar
(…) a diferença e a
qualidade
dos bens de cada família».
Mas não só. A alvura esplendorosa, no esmero do trabalhado do
linho, é simbólica da pureza e da inocência das gentes, dos ares
lavados da serra, e das águas claras da
Paiva. E passo a citar Aurora Simões de Matos:
«A
toalha branca de linho corado, bordada a bainha aberta e debruada a
bicos de renda, envaidecia o cabaz da merenda que, à cabeça das
romeiras, assumia um dos mais fortes protagonismos da festa.»
«Porque
a Tribo me disse
Tu guardarás o fogo.»
Um
dos maiores méritos da escrita de Aurora Simões de Matos é a
missão de “guardar o fogo”: preservação de um mundo que está
a acabar. [...] «Com ela acabaram os sons batidos do tear. Na Bouça,
já não se fia, nem doba, nem urde, nem tece.» Fica «o carreiro
(…) em direcção à fonte, a mesma fonte de sempre». Ficam as
casas de xisto: molduras, agora mudas e vazias, de um bulício que
era vida, que era gente,/ e gente de valor. [...]
Na
louvável tentativa de preservar o passado, surgem-nos, em CONTOS
DE XISTO,
(como, aliás, já foi dito) os nomes de muitos utensílios do
quotidiano. Desde os nomes relativos à arte da tecelagem (o tear, a
dobadoira, a roca, o fuso, o caneleiro, o pente, a lançadeira…)
até aos nomes de utensílios de alfaiataria, por exemplo. [...] Mas,
singular, é a narrativa “Marcada pelo dia em que nasceu”. Aqui,
aparece-nos, mesmo, “para memória futura”, um diálogo muito
especial. Trata-se das palavras “ipsis verbis” de uma parteira de
aldeia, sem preparação científica alguma – a mãe-velha, também
chamada “comadre” noutras terras – no acto supremo do
nascimento de uma criança – a Mindinha. O que aqui lemos é um
conjunto de palavras e de frases de incitamento à parturiente…
«tolhida de dores nas cruzes».
Em
CONTOS DE XISTO,
temos a beira-Paiva do Portugal de antanho. Como anjo tutelar, Aurora
Simões de Matos guarda, preserva, esse “fogo” antigo, como
outrora, na pré-História, em sociedades tribais, as mulheres
guardavam o fogo do lar primitivo – a caverna. [...]
Nesta
obra, a ficção
pura cede quase sempre lugar à evocação de variadas acções que
se enraízam no real, no quotidiano vivido na beira-Paiva. Os
protagonistas, os “heróis” (como a Autora lhes chama), são
pessoas reais, algumas já falecidas, outras ainda vivas. São estas
pessoas que a Autora transforma em personagens de uma obra atenta à
vida e às suas circunstâncias. Pelo prazer de criar mundos com
palavras, pelo prazer de rever a sua terra natal, / pela necessidade
de se rever a si mesma, numa catártica e muito pessoal identificação
com as suas origens, com o seu torrão natal. Nas suas recordações,
como filha que é dessa mesma terra, Aurora Simões de Matos acaba
por cumprir um outro desígnio: o de dar a conhecer e preservar este
mundo que, em muitos aspectos, está em risco de acabar.
Ocorre-me
que José Saramago dizia que os seus livros deveriam ter, sempre, na
capa, uma fita, avisando o leitor: «Atenção, este livro leva uma
pessoa dentro.» E agora digo eu: atenção, CONTOS
DE XISTO leva dentro
uma comunidade inteira: o povo da beira-Paiva, das aldeias de Meã,
Parada de Ester, Corgo de Água, Ilha, Sobrado, Laboncinho, Pena,
Canelas, Fojo, Vila, Baldios, Fujaco… Uma comunidade inteira, nas
pessoas das personagens ou actores,/ já que é em acção que os
sentimos. A acção é, assim, cheia de movimento. Todos na luta pela
vida. [...]
O
narrador, a voz que fala, situa-se, quase sempre, fora da acção,
como quem observa. Diríamos, academicamente, que de trata de um
narrador heterodiegético. Mesmo na narrativa que tem como título
“Marcada pelo dia em que nasceu” e cuja protagonista, na vida
real, é a própria irmã da Autora aqui presente./ Mindinha é
«…toda ela agitação e travessura…», nas palavras do texto,
vivacidade e rebeldia, em consonância com a trovoada do dia em que
nasceu, 22 de Maio, dia de Santa Rita de Cássia, advogada de todos
os impossíveis, segundo a religiosidade popular. Estes elementos
são, pois, já indícios da índole desta personagem, toda ela
dinamismo e originalidade, capaz mesmo de atitudes insólitas, cheias
de exuberância, mas onde avulta a sua inata «força de alegria»
bem como a bondade manifestada na generosa partilha, sempre no
sentido de construir a felicidade dos seus e (passo a citar):
«…tentando fazer de cada instante um momento único de diversão.»
Determinada e optimista, Mindinha tem como lema a sentença popular:
«Candeia que vai à frente, alumia duas vezes…» [...]
A
palavra “xisto” é recorrente. Aqui o xisto é a base, a terra, o
chão, a realidade concreta, de onde parte a humanidade, e a
espiritualidade alada das personagens/ que são gente de coração
generoso e de alma aberta ao Infinito… [...]
Em
“Aldeia da Pena, um mundo quase irreal” a própria linguagem se
faz irreal em leveza, beleza, e propriedade: pela sua significação
e sonoridades sugestivas.
«Subir
ao São Macário é já uma festa. Descer aquela estrada estreita, de
quase três quilómetros, em constante confronto com o abismo (…)
para além de ser um acto de coragem em jogo de subtilezas (…) é
também um percurso de migração em que a nossa identidade dá o
salto para um mundo quase irreal.»
“As
mulheres da Pena – heroísmo no feminino” – este título remete
para algumas narrativas em que se destacam as mulheres: pela sua
tenacidade, trabalho intenso, capacidade de resiliência, de doçura
e de imaginação criativa, no confronto com o quotidiano. É “o
eterno feminino”, na construção do mundo, no acto continuado de
tecer a paz, de tecer o aconchego familiar. Tal como outrora,
Penélope, a grega, tecendo e desfazendo a sua teia, num ritual de
silenciosa sabedoria, para manter, indefectível, a sagrada
fidelidade a Ulisses, seu marido. [...]
Com
“A casa assombrada” e “Bruxas e assombrações, temos o
fantástico em CONTOS
DE XISTO. Ele aí
está pelas vozes das personagens “Ti Belmiro” e “Maria”, a
parteira da aldeia de Meã, a mãe-velha, como é chamada.
Em
ambas as narrativas nos aparece,/ nítida,/ a ambiguidade ou
hesitação entre duas explicações: a racional e a meta-empírica
(ou supra-real). [...]
Assim,
no domínio do fantástico, produz-se um acontecimento que a razão
não explica. O “mistério”, o inexplicável” o “inadmissível”,
introduz-se na vida real, ou no mundo real - de acordo com as
citações feitas. Em “A casa assombrada”, às certezas do “Ti
Belmiro” opõe-se a dúvida, a vacilação de dois entrevistadores.
É que o “Ti Belmiro” “viu”, ele afirma que “viu” o
Diabo, o “Rabudo”, que esconjura com um “Abernúcia!”
de arrepiada rejeição. Finalmente a ordem do mundo real
sobrepõe-se quando se descobre que se trata apenas da cabra preta da
Ti Zulmira a qual, numa atitude muito pragmática, completamente
avessa ao fantástico, ou a qualquer outra especulação, pergunta
aflitivamente:
-«E
agora? Quem é que me vai pagar a minha cabra preta?»
Em “Bruxas assombrações”, a vacilação, a descrença do
fantástico, por parte da Senhora Professora (personagem secundária,
deuteragonista que se identifica com a Autora desta obra) não
encontra eco na consciência da “Maria, a mãe-velha” que,
invariável e peremptoriamente, responde:
-
«Não senhora, aquilo era o Diabo!»
-
«Não senhora, aquilo era uma alma penada!»
-
«Não senhora, aquilo eram as bruxas!»
[...]
Da
intimidade calorosa e pulcra de um conjunto de “aldeias de xisto”
nasceu esta obra, que é um contributo notável para a cultura e para
uma civilização que se quer repassada de humanismo, zelosa guardiã
do passado. Esse passado que é berço do presente e que é
imprescindível conhecer como matriz do futuro; esse passado que é
alicerce, estruturante de um agir que será, sempre, no futuro,
pautado pelos mais altos valores do Espírito, da Cultura e da Ética.
Caros Amigos
Vossa
Aurora
Senti necessidade de o fazer. Criar um blogue. Para partilhar convosco. Palavras. Emoções. As que a vida me vai trazendo. Muitas. Vindas de muitos de vós.
Esta é também uma forma de agradecer. O apoio e o carinho. Que é disso que todos precisamos.
Aqui deixarei mensagens. Aqui as receberei. Mensagens trocadas. As vossas para mim. Minhas para vós. Sempre mensagens de afeto. Respeito e gratidão serão tidos em conta.
Vossa
Aurora
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