sábado, 21 de julho de 2012

PALAVRAS - A FORÇA DAS PALAVRAS


A FORÇA DAS PALAVRAS

"Se soubéssemos quantas e quantas vezes as nossas palavras são mal interpretadas,
haveria muito mais silêncio neste mundo."
               Oscar Wilde 

Fréderic Duhamel "Busca da palavra




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     Há vozes que subsistem ao tempo e aos lugares, como se a  força das palavras fosse capaz de levantar os anos, como se a essência das palavras marcasse o destino das coisas.
     Por detrás das palavras há sempre a voz que lhes dá corpo e movimento e sentido. Na voz de uma palavra se lê o sofrimento ou a alegria, se escurece o dia ou ilumina a noite.
     Há momentos doridos em que uma palavra nos basta para sarar a ferida que ficou, como pano rasgado de que sangramos. Há momentos de descontrolada euforia em que uma palavra nos basta para cortar o caudal de certos desvarios. Numa palavra de desencanto e desespero acordamos de morrer no esquecimento sombrio de um rosto de lágrimas caladas. Numa palavra de coragem somos transportados ao limite das metas mais distantes.
    
     De uma palavra calada, o mundo fica suspenso; de uma palavra de ordem, o mundo fica suspenso. Tudo depende da cor da palavra. Se ela é branca ou cinzenta, assim a surpresa do mundo.

     De uma palavra pode nascer o amor, que é o único sobressalto que vale a pena; de duas palavras pode ele crescer ou morrer. De uma palavra pode nascer o ódio, que é o único sobressalto de que não deveríamos conhecer o rosto; de duas palavras pode ele transformar-se no fim de tudo, incluindo a vida.

     Há quem diga mais com uma palavra muda do que com um vozeirão de mil palavras em atropelo. O que pesa são so sentimentos e a forma dos sentimentos. Palavras sem sentimentos são palavras sem peso. São leves como penas e delas dizemos: «palavras leva-as o vento...». É o que acontece às palavras que, por força de muito se repetirem, se transformam no seu próprio eco e perdem credibilidade.

     Há palavras que se abandonam ao dizer, apenas pelo dizer. Sem critérios. É a banal situação da "conversa fiada". Há também palavras que se abandonam ao dizer, pelo prazer, pela convicção e pelo dever do dizer. São estas que arrastam multidões, comovem plateias, definem ideais, traçam o destino dos outros.
     E há quem tudo invista na busca da palavra certa que melhor esconda o que quer mostrar. Não se sabe muito bem o que verdadeiramente sentem estas palavras, já que falam com todos os sentidos ao mesmo tempo. Sabe-se que são capazes de se esconder na limpidez da água mais pura ou no azul do céu mais limpo. São as palavras dos poetas, quase sempre entendíveis apenas pelos outros poetas, o que faz delas o elo de ligação de um grupo de vozes com um estatuto muito próprio. Geralmente vozes sofridas que não se sabe por que sofrem, enfim, vozes um pouco à parte, que vivem de e para o culto da palavra, em jogo subtil com as emoções.

     Já me tem acontecido perder o fio à conversa. Nesse caso, tento refazer a urdidura das malhas desfeitas na palavra que se partiu.
     Passajar ponto por ponto, cerzir pacientemente até entretecer uma nova teia, que é como quem diz, um novo discurso, num discurso novo, é exercício de maturidade, às vezes doloroso. Este exercício requer particular cuidado com o uso das palavras. Se as agudas podem ferir susceptibilidades, pela sua marcada disposição para protagonismos de última hora, as esdrúxulas podem gerar distanciamento, pela frieza do seu pragmatismo. Estes dois tons de palavra devem, com conta, peso e medida, fornecer apenas o suporte ao fruir das palavras graves que, além de estarem em inevitável maioria no discurso, são sem dúvida as mais sóbrias, logicamente as privilegiadas no refazer da conversa que se partiu.

     Quando a mão desenha a palavra, ela fica escrita na folha que o momento lhe destinou e ganha a força com que esse momento a possa decifrar e a força com que esse momento a possa projectar. Digamos que o que acontece é que a palavra assim exposta adquire uma vulnerabilidade muito própria. E se bem que a forma tenha uma força diferente do som, pela forma e pelo som das palavras passam todas as forças e todas as fraquezas do mundo. 






Aurora Simões de Matos

no livro "UMA PALAVRA"
Edições Sagesse - Palimage - 2001











     



terça-feira, 17 de julho de 2012

FNAC MAR SHOPPING

FÓRUM FNAC MAR SHOPPING


IMAGENS

Contos de Xisto no Porto



À espera dos convidados



       Mesa de Honra

Ao centro, Aurora Simões de Matos
À sua direita, Rui Lage
À sua esquerda, Paulo Coelho









Dr. Paulo Coelho, representante da Editora Edições Esgotadas







         
           
Dra. Gabriela Pina, que coordenou e conduziu o evento







Uma leitura por Aurora Simões de Matos, 
autora do livro









A Dra. Filomena Fonseca leu o conto
"Fruta do tempo" 


















O Professor Universitário Rui Lage, num brilhante improviso,
apresentou a Obra Contos de Xisto 





















Gabriela Pina canta dois poemas de Aurora Simões de Matos





Com Francisco Henriques, autor da capa do livro







A palavra da Autora
nos agradecimentos finais...





... e a felicidade pela presença de tantos amigos que quiseram trazer-lhe um abraço de apoio. 









quinta-feira, 12 de julho de 2012

A VALSA DOS POETAS

A VALSA DOS POETAS
Vídeo (também no YouTube)




Vídeo






A valsa dos poetas

«Ó virgens que passais ao sol poente»
em coches alados
e vestes de sede branca
sobranceiras aos vícios do pecado:
afinai harpas, colocai vozes,
penteai cabelos, aspergi perfumes,
que a hora da quimera chegou à marginal
e faltam músicos para o concerto.

Há na pista um par de namorados,
dedos entrelaçados
à espera nem eles sabem de quê,
enquanto a vida acontece por acaso
em voos de fantasia
sem rosto, nem preço, nem idade,
porque são poetas.
São poetas da luz e da cor,
da palavra e da verdade.

A notícia correu de boca em boca
e assomam curiosos à marginal.

A prostituta das noites cálidas
vestiu de luto a sua incoerência
para assistir ao concerto das virgens
e à valsa dos poetas,
na esperança duma redenção.

Está sentada na areia,
toda de negro marcada.
Na insubsistência do olhar manchado,
por companhia um cigarro sem sentido
e a erosão de pensamentos corrompidos.

É o ponto forte do cenário improvisado
onde, em justa e perfeita proporção,
se respira a euritmia da luz,
dos sons, das cores, dos gestos,
dos silêncios
e dos sentimentos dos poetas
que hão-de alimentar de sonho os outros seres.

Aurora Simões de Matos, in Poentes de mar e serra - 1997 (esgotado)







segunda-feira, 9 de julho de 2012

Entardecer

                                                                                           Imagem de Francisco Henriques

ENTARDECER



O tempo esboroou-se
na ponta dos meus dedos
e as migalhas que o vento dispersou
são agora lembranças espalhadas
que tento alcançar para juntar
e se possível reviver
na emoção das horas reencontradas.
Fragmentos soltos aqui e além
onde meus passos me levaram
na errância de caminhos onde sou
peregrina só de mim e onde vou
refazendo o que só eu sei refazer
neste tempo que já é de entardecer. 

Aurora Simões de Matos




Contracapa do livro "Poentes de mar e serra" (esgotado)


terça-feira, 3 de julho de 2012

QUANDO O VERSO SE DESFOLHA


SABORES

"Todos os homens se nutrem, mas poucos sabem distinguir os sabores."
Confúcio


"No que conseguires ler, não procures tanto o saber, mas o sabor."
São Bernardo 


Eu era menina

No meu quintal, sorriam tons de todos os verdes
e sabores de todos os vermelhos.
Pelo lençol de leito fresco, a água renascia
em cada benção da terra.
Presentes embrulhados em sol de perfumes.
O ar da manhã era puro de respirar
e a brisa da tarde oferecia segredos
às folhas novas da figueira da rua
que era de toda a gente, contente de não ser de ninguém.
Eu era menina, na idade em que a vida não estorva.
Não me lembrava do tempo para trás
e o tempo para a frente tinha sempre o mesmo nome
e nele pouco mais contava
que o sol de perfumes sem espaço
a inundar de verdes o meu quintal
onde sorriam sabores.





     

Maria Alcina - "Cereja Carmim"




Sabores

Se levantares o braço,
poderás tocar os dois sabores
que se cruzam no fruto amadurecido
para que o provasses.

Ao alcance da boca, sentirás o que procuras
no sumo de cada polpa.

A partir dele, criarás os contrastes
do teu próprio paladar.








"Os dias não adquirem sabor, até que um escape à obrigação de ter um destino."
Emil Cioran



Aí seremos nós


A ternura com que o teu nome me enleva, me basta,
como se bastando me enchesse,
me consumasse todos os sentidos.

Não contes a ninguém de que cor são os frutos
que provamos pelo sumo de só provar
pelo prazer da semente.

Não contes nossos tudos e os nadas
de momentos que crescem
como se desertos de areia fossem.

Na hora de conhecermos a hora
de onde nascem as flores,
desses desertos aí seremos nós.

E as malhas do tempo alongar-se-ão
como nuvens pressurosas
do nosso beijo recuperado do nosso beijo.



" O sabor dos contos é a propriedade com que é empregada a língua."
Miguel De Cervantes


Aurora Simões de Matos
Todos os poemas, do livro "Uma Palavra" - (esgotado)








sexta-feira, 29 de junho de 2012

CONTOS DE XISTO


Apresentação no Porto
pelo Professor Doutor Rui Lage








Capa de Francisco Henriques




Ilustrações de Carlos Miguel Batalha



 

"Tinham sido criados entre sóis abertos e as neblinas do rio em manhãs de cetim, brisas frescas e ventos desassossegados, à solta pelos requebros dos montes, frios e calores de rachar a pele no curtimento autêntico da vida, chuvas a descer do céu como cordas que as nuvens lançassem à Terra.
Tinham crescido na inocência da sua aldeia xistosa, companheiros de outros meninos quase todos seus primos que, como eles tinham adormecido ao gosto de chuchas de trapo passadas por açucar, jogado o pião nas lajes macias da eira grande, feito camiões de lata puxados por um cordel, usado tamanquinhos de madeira ferrada, comprados na Feira dos Doze."

Do Conto "As Casas Gémeas" 




 "Ti Casimiro prepara-se agora para a última fase daquele trabalho rotineiro.
Em cima da jangada de cortiça e armado de grande vara com argola no fundo, vai enxotando o peixe. Com a ajuda das filhas a puxarem o cabeção para fazer o rodo, varre o poço com a rede de montante.
- São para aí trinta quilos bem pesados! - orgulha-se o velho pescador. E traz mais bogas que barbiscos. Amanhã vamos furtar o Poço da Frieira, o mais fundo de todos.
- Ó senhor pai, nem é preciso o travessilho!"

Do Conto "Entre bogas e alvitanas"




"A luta começa. O boi finca as patas no chão e, usando a força da sua corpulência, empurra o adversário com a testa. Chifres contra chifres, músculos retesados, baba a escorrer de raiva, olhos desvirados de nervos, rabos a enxotar pachorrências que ali não têm lugar. Bravura à flor da pele, num jogo de força e resistência."

Do Conto "Luta de bois na Feira do Fojo"






"Alfredo mandou rezar um responso a Santo António, advogado das coisas perdidas e, pela burra, ofereceu uma vela para a festa da Santa Padroeira.
E não é que a Santa Padroeira ouviu as suas orações, aceitou a vela e fez o milagre?
No dia da festa, no fim da Eucaristia, o povo, atrás do andor da Santa, organizou-se em procissão até ao Cruzeiro, rezando e entoando cânticos.
A fechar o cortejo, o Tonho das Cancelas, com ar solene, montado na burra manca, ia respondendo às palavras do Senhor Abade:
Arre Mulata... cheia de graça... Arre Mulata... entre as mulheres... Arre Mulata... rogai por nós... Arre Mulata... agora e na hora da nossa morte. Amem."

Do Conto "Burra escondida... com o corpo de fora" 




O Antropólogo e Historiador, Dr. Alberto Correia, faz a sua análise do livro
Contos de Xisto


    
As avós antigas contavam habitualmente os seus contos à lareira para entretém de netos, e as narrações estavam sempre situadas num tempo longínquo – Era uma vez… começavam sempre assim e mesmo quando as histórias tivessem ocorrido em seu tempo elas eram trazidas como se viessem de um longínquo chão de memórias.
Aurora Simões de Matos, a autora de Contos de Xisto, jamais começa as suas narrações pela expressão – Era uma vez… - porque as histórias que ela conta são histórias de verdade, por mais que aureoladas por um tempo de memória, histórias vividas por ela mesma, por ela participadas, ou acompanhadas de tão perto que ela as interiorizou como se a ela lhe pertencessem e agora no-las entrega, como se estivesse em sua terra e nos trouxesse uma cestinha breza com cerejas, se tempo fosse de estarem já maduras.
De uma pequena pátria nos falam as histórias, contidas as fronteiras desta pátria por uma estreita geografia de pitorescas aldeias que marginam o Rio Paiva quando, ainda de longe, se apressa para a foz. A Paiva como antes ela lhe chama, como lhe chamam os naturais daqueles lugares, como se o rio permanecesse ali criança, como se fosse ali ainda ribeira. [...]
Pequena pátria, essa de que a autora fala, construída por homens, construída por mulheres, que os deuses ali pouco fizeram para além de oferecerem o xisto, que ofereceram, construída a partir de um chão original, desse xisto esboroado e fecundo amparado pelos longos muros dos socalcos, desse xisto de que nasceram as habitações dos homens e dos gados, esse sublime desenho da paisagem quando, ao findar das chuvas, as coberturas das casas da gente, os abrigos do gado, as abas que recobrem os canastros nos mostram na pureza da luz do sol, lavadas, o brilho da lousa original.
Pequena pátria, que ali também foi solto Adão, ali cumpriu seu fado, o suor do rosto para inventar uma terra que de algum modo lhe lembrasse o paraíso. Camponeses e pastores, que sempre foram isso, os filhos de Adão, até tempos muito próximos, modelaram uma civilização, como diz o autor do prefácio deste livro, modelaram uma cultura que permaneceu, surpreendentemente, quase intocável até tempo que não vai mais longe que a memória de nossos mais velhos avós. [...]
De outro modo se enriqueceu no tempo essa cultura com esse fácies que lhe foi acrescentado, aquilo que hoje designamos como património no sentido imaterial, e que tanto pode ser a devoção familiar entre os seus membros, o sentimento da honra de um chefe de família, a solidariedade cumprida num quadro de vizinhança, a vigia do gado da partilha comunal, a chega dos bois na Feira do Fojo, a queima de ervas benzidas numa tarde de trovoada, as rezas de quebranto, da erizipela, do mau olhado, e esse outro quadro de religiosidade ortodoxa onde, de tão forte subsiste a tradição festiva de homenagem aos santos, e também esses resquícios de religiosidade ancestral que na era cristã se aproveitou e cuja leitura podemos fazer na fogueira do Natal ou do S. João, na ludicidade do Carnaval, no assombro de uma casa guardada pelo diabo transfigurado de caprídio.
Aurora Simões de Matos conheceu este pequeno mundo e é nele que ancora toda a trama dos contos, assim ela lhe chama, verdadeiramente desses pedaços de histórias de vida que ela nos traz.
Ela sabe que esse mundo se perdeu, é arqueologia, podemos nós dizer, como Saramago chamou ao mundo que Aquilino descrevera nessa geografia das Terras do Demo, terra de pastores e camponeses, como esta, só que mais crestada do sol, só que mais exigente de suor.
A autora de Contos de Xisto incarnou essa laboriosa e sedutora missão de salvar, através da memória, a sua terra. Já o intentara antes com as Imagens da beira-Paiva.
Histórias exemplares, é o que ela nos traz. Mais de trinta, mas muitas mais poderia contar.
Dentro delas está sempre aquele chão que ela pisou nas brincadeiras da infância, nos caminhos da Escola, os trajectos familiares da travessia dos campos, das hortas, dos pastos do gado, da ida ao moinho, dos festivos caminhos da feira ou da romaria. Dentro deste chão corre, remansosa ou turbulenta, a água da Paiva, a água das pequenas levadas que regavam os milheirais, dentro dele desce a água da chuvinha mansa propícia à sementeira do nabal, as águas demoradas das invernias antigas, a água em catadupa das trovoadas, e os trovões que as arrastam e os raios que às vezes davam em tragédia como aquele que esgalhou um castanheiro e matou a Carmita e uma parte do rebanho que a pastorita guardava. Dentro dos contos há o cheiro das giestas que abrem no mês de Maio, há cerejeiras em flor, pereiras com a fruta já madura pronta para o assalto dos rapazes, renques de oliveiras como essas a cuja sombra Mindinha adormeceu. E os carreiros à beira Paiva por onde corria a irrequieta Maria Augusta desafiando as águas, a brincar, sob os olhos vigilantes do avô entretido a pescar, e os carreiros que levavam ao moinho e que levaram aquela mãe montada na burrica, aquela mãe que perdeu no caminho o seu menino porque não pôde chegar em tempo ao doutor.
Há também, nos seus contos, a alegre convivialidade das romarias, as madrugadas dos ranchos que partem cantando, descalços às vezes por todo o caminho ou tão só no passar nas poldras ou no vau da ribeira, as promessas pagas aos santos, S. Macário ou S. Bartolomeu, tanto faz, o cordão de oiro oferecido como ex-voto para salvar o filho doente, a figurinha de cera deposta num altar, os joelhos doendo no duro trajecto entre as duas capelas no S. Macário. E o farnel feito a gosto em cesto ou cabaz com alvos linhos e levado à cabeça, depois aberto na toalha comum.
Só depois destas paisagens construídas, das terras desbravadas, dos caminhos feitos, vêm os homens. Os homens, como costumamos dizer, apesar de o nome integrar os dois géneros, homem e mulher. Só depois vêm os homens, toda a gente, por mais que a autora diga que gosta de falar no feminino. Daí que sejam mulheres, me parece, a maior parte das suas heroínas.
Quem são então estes heróis, estas heroínas, que a escrita da autora assim os eleva?
Mais não são que homens ou mulheres iguais a nós. Viveram num tempo concreto, diferente do nosso. Sofreram os dramas da existência que nós sofremos e tiveram para eles, às vezes, respostas semelhantes às dos remédios de agora.
Para alguns a terra não bastou, ou foi madrasta. Ou os seus sonhos simplesmente não couberam nela. E tiveram como destino a emigração, Lisboa, a França, ou o Brasil num tempo mais distante. Como hoje temos. Alguns tiveram sorte. Cumpriram seus sonhos. A árvore das patacas foi achada. Como aconteceu com os irmãos gémeos do primeiro conto, o sol e a lua, que a estes astros se assemelhava o carácter de ambos, irmãos e amigos, as mesmas lutas e as casas gémeas construídas na aldeia, ufanas na sua arquitectura e na felicidade de seus habitantes. Outros não regressaram. Não se soube deles. Alguns voltaram pobres. Aparecem bastas vezes, ponteando os contos. No meio destes há mulheres, passageiras para Lisboa ou para o Brasil. Nenhuma foi feliz. Uma delas foi, quase ao findar dos dias, chamava-se Ana Marta, casara com um brasileiro mais velho que, depois de lua-de-mel demorada retoma o caminho do Brasil, Ana Marta não adivinhara a razão. Uma espera sofrida, e do jeito de um novo amor nasce Maria Leonor que a mãe abandona ainda menina, ao cuidado da irmã mais velha e madrinha enquanto ela, respondendo à impossível carta do seu homem se decide a partir, os dois perdoados da escolha incerta dos caminhos. [...]
Aurora Simões de Matos fala muitas vezes da fé em seus contos. A fé, a sua, que radica numa formação ou catequese antiga, e o chão sagrado da sua terra, a força do céu que observou em menina, e os seus heróis que seguiam descalços ao redor do andor da Virgem da Fátima peregrina, que cantavam ao lado do andor entre Cabril e Parada, era ela menina, e a festa de arromba ao padroeiro, S. Bartolomeu, pagadores de promessas, léguas de caminho até S. Macário. E a crença no diabo. Basta ver o que dele dizia Ti Belmiro Penata que o sentiu nas estranhas festas da abandonada Casa das Rolhas, luzes caminhando sozinhas, cantares de que coro não via e, mais tarde, quando isso passou, a presença de um bode com focinho de macaco que vagueava entre a ruina da casa que acontecera há muito. [...]
A autora, mulher de fé ou simplesmente mulher, coloca também, bastas vezes, nos seus contos, o perdão, a compaixão, dos mais puros sentimentos humanos que a gente do mundo rural cultivava, porque do leite o aprendia. [...]
A autora dos Contos de Xisto traz-nos inúmeros retratos desta gente sofredora, quase sempre resignada e se o desespero alguma vez chegou, sempre se ouve uma voz compassiva para atenuar a dor. [...]
Muitos dos contos que falam de mulheres recebem, às vezes, um título triste. É o caso de O destino de Carmita, a pastorita que morre, ferida por um raio quando intenta salvar, num parto demorado, a cabra que trazia em pastoreio. É o caso de As Mulheres da Pena, de que ela salienta a heroicidade, particularmente daquela que enterra à boca do cemitério a filha que parecia ir ter vida tão promissora. Nas Histórias de Amor e Dor, Maria do Moisés não encontra sorte, como em Isolamento e Dor a mãe que vê desfalecer o seu menino morre um pouco em seu coração. No Conto O Amor Magoado, Rosalina bem cativa de mimos o marido mineiro em Regoufe. Dá-lhe doze filhos. Ficaram sete. Os outros morreram, parece, como anjinhos. E esse amor todo do mundo que lhe deu não resiste aos maus tratos do seu homem. No fim bebe para esquecer o homem, o mundo e as dores. Tem apenas a compaixão da gente que vive ao lado dela.
São estes dramas humanos, de ontem e de hoje, que a autora do livro traz. Dramas de amores não correspondidos, de mães adolescentes salvas pelo amor de uma madrinha, de adultérios que parece nem terem sido pecado, da doença que não encontrou remédio.
Mas em Aurora Simões de Matos, apesar deste lado lunar da vida, cultiva-se a esperança. Quase sempre, no fim dos dramas, houve um abraço, ou a paz chegou. E ela celebra então a alacridade da festa, o tempo solar e benfazejo, e celebra a euforia da feira, esse outro festivo encontro dos homens. E celebra os sonhos da gente e fica feliz quando os irmãos gémeos constroem as casas novas, quando o menino que quer ser tocador de trompete tem a promessa do mestre que o vai ensinar a tocar e evoca, tocada pelo sentimentos que as quadras despertam o tempo propício da Páscoa das Flores, do familiar e mágico Natal, esse tempo em que uma Estrela ilumina os passos de um pequeno cordeiro, de um galaroz façanhudo e de galinhas poedeiras que sobem misticamente ao presépio da igreja e se aninham ao pé do Menino e a Estrela que parte outra vez e vai buscar os reis Magos e eis o seu coração bondoso revelando-se, e a generosidade cultivada num quadro de família e o sabor redivivo de uma infância feliz, de uma vida guiada por caminhos de trabalho, de honra, generosa, grata e solidária.
Uma pátria antiga, revelada, uma pátria que ela ainda quer restaurar com o álacre colorido das casas gémeas, a abundância do pão e do saber, a estrada que traga o retorno da gente, a Escola cheia de crianças que possam aprender ali, com as tecnologias novas, o velho falar de seus avós, que entendam os significados do sarge e da merugem, que entendam, isso sim, que o trabalho é redentor e que o amor só vale a pena se for compassivo e solidário.
Alberto Correia







segunda-feira, 25 de junho de 2012

O Verão Chegou

  

NOVAS VIDAS ROMPERAM


Mãos erguidas ao céu, sentido de vitória
no tempo prolongado em tempo de milagre. 




                                                                                          
O Verão chegou sem sequer dar por isso                     
como o sol que se espraia pelo dia                               
como a água que se espalha pela margem                     
como o delírio que corre pelo corpo.                            
                                                                                       
                                                                                      
O Verão cresceu de dentro para fora
e inundou de chama a terra prometida                          
do sangue que escaldava em febre libertada                  
escorreu o suor, as veias latejaram.                                
                                                                                      
O olhar ficou por ele todo ele mais quente                   
que a luz intensa no fogo de viver                                 
e do braseiro que ateou deslumbramentos                    
novas vidas romperam no desdobrar daquela.              
                                                                                       
Mãos erguidas ao céu, sentido de vitória                      
no tempo prolongado em tempo de milagre.





 
A MAGIA DO TEMPO
Entrou pela cancela de um dia aberto
de Primavera ao longe.
Mirou-se em espelho de água
linda de transparência.                                                               
Bebeu a luz sôfrega na magia do tempo
enfeitado de arco-íris a unir dois destinos.
Sonhou. Seu sonho azul de céu.
Seu acordar de mar.
Sonhou ainda mulher pele de menina.
Seu acordar de mar.

Construiu sentimentos e soltou-os ao vento
pela borda de um dia aberto
de Verão tão perto.
Atreveu-se a transformar histórias sem espaço
no espaço de uma história.

Deu de caras com a urgência.
Inventou a sorte e fez-se ao caminho.
Mesmo no centro da Vida, olhou ao redor
e descobriu que os seus mundos
eram sempre circulares.


                                                                               
 CORPO DE LUZ

E as árvores escoando o sol quente
pelos ramos de Verão.
E os frutos maduros num convite
lábios carnudos de prazer contido.
E um corpo de luz dolente
tombando sobre a tarde.
Ouvidos alerta, os olhos num clarão.
Contornos gravados pela mão
o braço caído ao longo
da pele de fogo.
Mesmo defronte, um vulto:
um deus de pedra nu
elevando-se das águas.
Quase um sopro, quase um grito
quase gente.



               

Todos estes poemas,
in "Uma Palavra"
de Aurora Simões de Matos, 2001
Edições Sagesse - Palimage