ERICEIRA
FÉRIAS DE VERÃO
II PARTE
Valeu
a pena. Vale sempre a pena regressar à Ericeira. Assim tenho feito
nos meus Verões dos últimos quinze anos. Como se estes dias
fizessem já parte de uma rotina anual que não me apetece, por nada,
alterar. É certo que aqui faço uma espécie de sede dos meus
passeios turísticos pelo litoral, com algumas incursões por um
interior mais a sul e mesmo ao país vizinho. Mas o essencial das férias está aqui. Por
muitas razões, muito em especial pelas companhias de que aqui e a
partir daqui desfruto: a Minda e o Carlos, a Maria João, o Mário e
o Miguel, o Duarte, a Leonor e a Inês. Gente do meu sangue de quem
gosto muito. Razões de sobra para que estes dias me saibam sempre a
pouco.
Em
toda a história da Ericeira, o mar está sempre presente:
No passado desta terra de pescadores que, virada para as águas, no
seu seio procura e encontra o sustento. Mas também de destemidos
marinheiros, dos mais corajosos que, na árdua tarefa dos
descobrimentos marítimos, souberam impor uma bravura que os tornou ímpares. E nas carreiras comerciais de há vários séculos atrás,
quer para o Oriente, quer para o Brasil, onde o ericeirense dava
cartas no saber e na experiência da arte de marear.
No desenvolvimento árduo do quotidiano de uma população que, a
pulso, tem sabido conquistar o seu lugar, à custa de uma economia
alicerçada à volta do seu porto. Primeiro, porto comercial, depois
porto de pesca até aos nossos dias.

Nos areais das suas praias acolhedoras tão procuradas, ano após
ano, por banhistas fidelizados que aqui encontram o bem-estar que
procuram, respondendo a apelos afectivos que proporcionam ao
visitante anónimo repetidos encontros com muitas figuras mediáticas
do nosso panorama político e televisivo.
Nas tradições religiosas que os seus perigos despertam e
aprofundam, em sentimentos de súplica ou de gratidão, que têm o
seu ponto mais alto nas Festas em Honra de Nossa Senhora da Boa
Viagem, padroeira dos pescadores. Espectacular manifestação de fé,
em noite de procissão no mar. Procissão das Velas, aberta por
barco especial em que segue a Virgem do Mar, acompanhada pelas
autoridades eclesiásticas e seguida de barcos engalanados,
carregados de penitentes cumprindo promessas, que emprestam ao
cortejo a magia que sempre me comove até às lágrimas.

Num dos momentos históricos que toda a gente aqui conhece e
relembra. O dia em que o rei D. Manuel II, a rainha-mãe D. Amélia
e sua sogra D. Maria Pia, acabada de ser implantada a República,
daqui zarparam rumo a Gibraltar e depois para o exílio em
Inglaterra. Todas as operações seguidas pelo povo que se apinhava
no paredão junto à praia, impressionado pela situação e
principalmente pela imponência da rainha. Sempre em respeitoso
silêncio. Sempre em respeitosa discreção. Sempre em respeitosa
lealdade.
No regresso de D. Amélia, já com 80 anos, quando Salazar a
autorizou a voltar a Portugal. «Fez questão de vir à Ericeira e
foi olhar o mar do alto do paredão.» Apesar da situação política
ter mudado e de reis e rainhas fazerem já parte do passado, foi
recebida com o mesmo respeito do dia do seu embarque, muitos anos
antes, tendo chegado a juntar-se povo para o beija-mão tradicional.
Ainda hoje dura a estima dos pescadores pela rainha.

Na prática de desportos marítimos, tais como o parapente, a pesca
desportiva ou o surf, desporto radical tão em voga nos tempos
actuais e que, pelas características das suas ondas e dos seus
ventos, aqui traz competições internacionais, que fazem da
Ericeira uma referência mundial nesse campo.
Situa-se
a Ericeira a 50 quilómetros de Lisboa, 25 quilómetros de Sintra e
10 quilómetros de Mafra. O seu porto de pesca, a 23 milhas marítimas
a norte de Cascais e 24 milhas a sul de Peniche.
Como
atrás foi referido, o mar é o cúmplice predilecto da vila
maravilhosa e, apesar dos ventos que a caracterizam, as areias
brancas das suas praias, abundantemente iodadas, fazem jus à
qualidade e à quantidade de turistas que a procuram.
É
certo que o Casino da Ericeira, tão famoso por ser, nos princípios
do século passado, lugar de encontro entre as elites urbanas desta
vasta região e mesmo de Espanha, fechou há muito, em 1927. O Casino
do Estoril, acabado de inaugurar, ditou-lhe o agonizar das grandes
festas e das grandes noites. Do rodopio de coches, charretes e
automóveis pioneiros de viagens a partir da capital e arredores.
Símbolos de uma sociedade em que a aristocracia convivia
naturalmente com a decadência.
Hoje,
as noites aqui podem ser passadas no cinema, nas festas em vários
palcos ao ar livre, ou em agradáveis passeios pelas ruas e ruelas
que vão todos dar ao “Jogo da Bola”, a sala de visitas mais
concorrida da terra.
Por
mim, gosto de apreciar a naturalidade com que a gente que aqui vive
todo o ano passa o serão à porta de casa, à conversa com os
vizinhos. Intimismos que me são particularmente caros.
Por
tudo o que contei, um brinde à VIDA. E o desejo de poder voltar.
Para o ano... à casa de praia de minha irmã Carminda.
GALERIA DE FOTOS
VERÃO DE 2012
Férias em boa companhia
A religiosidade na Ericeira
Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem
Passadeira em areia e sal colorido, por onde passará a Procissão
No Complexo Turístico de São Sebastião, passo parte das minhas férias de Verão, há 15 anos
Visões de luxo, a partir da janela do meu quarto
Obrigada, minha irmã Minda e meu cunhado Carlitos!!!
Até para o ano!
Aurora Simões de Matos