quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Chitas em Castro Daire

DESFILE DE VESTIDOS







Texto de abertura do Desfile, no ano de 2008


Oriunda da Índia, a chita chegou à Europa no século XV, na época do grande trânsito marítimo em demanda de novos mundos que, ao Velho Continente, abriram portas para as mais diversas transacções comerciais.
Desde logo, foi enorme a divulgação e a aceitação deste tecido de algodão, caracterizado por tramas simples e desenhos ingénuos de tons garridos, com variadíssimos motivos, estampados de pintas, bolas, riscas, arabescos, flores ou cornucópias.
De textura macia e agradável, cores vistosas e apelativas, facilidade de manuseamento e confecção, a preços acessíveis às bolsas menos fartas, depressa virou moda entre as classes de menores recursos, com especial incidência no mundo rural das aldeias, mas também nas gentes humildes que habitavam e enchiam de vida o quotidiano dos grandes centros urbanos.
Sendo a chita um tecido essencialmente feminino, foi a mulher jovem, a rapariga e a criança quem mais e melhor usufruiram da sua beleza simples, da sua beleza prática, da sua natural e graciosa utilidade, numa variada gama de peças da sua indumentária, onde pontuavam os folhos, as fitas, os bordados, as rendas, as espiguilhas, os favos, os debruados, as pregas, os machos, os franzidos, os godés, os tufados e os rodados. Em vestidos curtos ou compridos, saias, blusas, bibes ou aventais que marcaram o vestuário de várias gerações.
Mas o uso das chitas, que tamanha importância assumiram na vida de um passado não muito distante, foi bastante mais que uma moda.
Desde o século XVIII, até meados dfo século XIX, estes tecidos tiveram um lugar determinante nas relações comerciais entre os mercados, nomeadamente entre Portugal e o Brasil, onde, no século XX, o chamado «Século das Chitas», pela primeira vez o seu uso se generalizou entre os estilistas.
No nosso País, a partir de 1940, por todo o lado passaram a exibir-se concursos de vestidos de chita, onde, a par das tradicionais mostras evocativas de um tempo muito recente, se foi apurando o sentido estético, o bom gosto e a riqueza da fantasia e do pormenor, que ficarão para sempre ligados à época do rock and roll, do twist, do hula hoop.
A chita deixava de ser considerada um elemento «piroso», de gosto duvidoso, para ganhar estatuto de fidalguia, no recuperar de certos acessórios de decoração, ao estilo de muitas casas senhoriais adaptadas ao mundo contemporâneo.
Ao longo dos últimos séculos, muitos foram os escritores e os poetas que nela se inspiraram, para vestirem belas e sensuais personagens de atrevida e saudável garridice ou de elegância mais contida e discreta, num colorido gracioso, que enche páginas de livros e letras de canções imorredouras.
Se é certo que um Povo deve, sem preconceitos, honrar as suas tradições, também é certo que às novas gerações devem ser facilitadas oportunidades para um contacto com essas realidades, a fim de que possam conhecê-las e orgulhar-se delas.
Com esse objectivo de carácter pedagógico redobrado, vamos assistir a mais um «Desfile de Chitas». Como modelos, crianças e jovens da nossa terra que exibirão, por que não com uma pontinha de vaidade, uma mostra da moda, ao tempo de suas bisavós.

Aurora Simões de Matos





Leitura do Poema, pela voz da autora









                                     

                                                    VESTIDO DE CHITA




Texto de abertura do Desfile, no ano de 2009



                I


Era uma linda moçoila
que vivia lá na aldeia
cercada de serranias.
Não tinha ainda vinte anos,
pele morena, negros olhos,
cabelo sempre entrançado.
Fresca moçoila bonita,
seu nome Maria Rita.
Depois da escola, a lavoura
numa vida de trabalho.
A vida vivida à justa
desde o nascer ao sol-pôr,
em tarefas carregadas
entre risos, gargalhadas,
os cansaços à mistura
com cantigas bem cantadas.
E ao domingo, bem cedo,
banho fresco, perfumado,
lençol de linho mudado
com cheirinho a barrela,
saltitava de alegria
e com outras raparigas
ia à missa na capela.
À tardinha, no terreiro,
bailava com seu namoro
e ao toque do realejo
esperava que o seu par
lhe roubasse um doce beijo.
Tão bonita, a rapariga
com o vestido que a mãe
lhe tinha feito ao serão,
todo às pregas bem certinhas
com fundo rosa às pintinhas.
Era um vestido de chita,
seu nome, Maria Rita.


              II


Era uma linda miúda
que vivia lá na vila.
Tinha perto de quinze anos,
pele risonha e seus olhos
quais luzeiros no caminho
alumiavam a vida
de quantos nela cruzavam,
de quantos nela pensavam.
Rua abaixo, rua acima,
espalhando pelos ares
um cheirinho a brilhantina
com o cabelo apanhado
e franja à solta no rosto,
ia ligeira e traquina,
toda ela simpatia,
seu nome Rita Maria.
O riso aberto, alegria
desde o nascer ao sol posto.
Tinha jeito na costura
e à mestra ia aprender
a arte que os pais achavam
ser bonita para a filha.
E foi na mestra, medindo,
cortando com muito amor,
alinhavando e cosendo,
que a futura costureira
para si própria um dia
fez o primeiro vestido
com espiguilha nos bolsos
e na gola redondinha,
todo rodado à cintura
e atrás um grande laço.
Lindo vestido de chita
de tecido – fantasia,
seu nome, Rita Maria.




                                     
                                                     III


                                     Era uma doce menina
                                     que morava na cidade,
                                     e andava pelos dez anos.
                                     Pele macia, olhos azuis,
                                     cabelos loiros à solta
                                     a emoldurar um rosto
                                     sempre à procura, curioso
                                     de tanto para aprender,
                                     de tanto para viver,
                                     muito afável e meiguinha,
                                     seu nome, à data, Ritinha.
                                     Tinha acabado a escola,
                                     ia agora ao liceu,
                                     dava os primeiros passos
                                     para uma vida que os pais
                                     escolheram para um dia
                                     ser como eles, professora.
                                     Ia ao liceu agora
                                     e não esquece aquele dia
                                     que levou a vez primeira
                                     o seu vestidinho azul
                                     que a modista lhe fizera
                                     pelo novo figurino
                                     com modelos lá de fora.
                                     Era um vestidinho aos folhos
                                     todos franzidos ns saia
                                     que ficava bem armado
                                     com saiotinho engomado.
                                     A manga era tufadinha
                                     e o peito com bolero
                                     era todo à mão bordado.
                                     Com seu vestido brilhou
                                     e à hora do recreio,
                                     em lindas danças de roda,
                                     muito ela rodopiou,
                                     toda em chita vestidinha,
                                     seu nome, à data, Ritinha.



                                                                                           Três Ritas e tantas outras
                                                                                           que a vida juntou nos folhos
                                                                                           de um tecido - fantasia
                                                                                           em peças da mocidade,
                                                                                           em pedaços de vaidade.

                                                                                           Maria Rita da aldeia,
                                                                                           Rita Maria da vila
                                                                                           ou Ritinha da cidade,
                                                                                           cada qual a mais bonita,
                                                                                           com seu vestido de chita.



Aurora Simões de Matos

segunda-feira, 12 de novembro de 2012


MORREU A SOBREVIVENTE




É com enorme pesar que informo do falecimento da Tia Céu da Seara, a heroína da minha última publicação escrita.
Completaria 110 anos, no próximo dia 5 de Dezembro.
Não estará connosco na grande festa que lhe preparava a Santa Casa da Misericórdia de Castro Daire e a Câmara Municipal. Continuará, contudo, na memória colectiva de uma região, como personificação da Mulher rural do século XX que, atravessando-o, o ultrapassou, com a ousadia e com a ternura que a caracterizavam.
Lúcida até ao fim, falava como quem reza a oração com que certamente entrou, triunfante, pelas portas ao encontro de Deus.

O Céu estará em festa, na recepção a um Anjo que recordaremos com a maior SAUDADE...

PAZ à sua alma.





UMA NUVEM SE ABRIU


(Poema lido na Eucaristia do funeral de Maria do Céu Trindade)
Igreja da Ermida, 11 de novembro de 2012


Carregavas em ti o peso do mistério,
vivias da memória que, só tua, guardavas
nas horas tranquilas de olhar tão sereno,
qual cofre de segredos que a mais ninguém mostravas.

Ao peso dessa dor, na leveza do amor,
carregavas em ti mil vidas por viver.
Eras, por todas nós, o pulsar quase exangue
a que emprestava força teu peito de MULHER.

Nesta libertação, rumaste agora ao Céu,
qual Anjo de asas brancas na cor desse cabelo
onde marcas só tuas a vida foi pintando.

Restará uma lenda do tempo que foi teu,
na memória dos dias, um nome ficará
a pairar sobre os montes, onde andaste cantando.
           
            Nas águas contra os seixos ouvem-se já queixumes.
É o rio que chora pela gentil figura
que tanta vez olhou e temeu e amou
a Paiva benfazeja, a Paiva da fartura.

E a fonte murmura um segredo baixinho.
Nos campos ondeando, o arbusto tremeu.
Suas folhas caíram, seu caule se quebrou,
gemendo de saudades por alguém que morreu.

É a Mãe- Natureza em pranto redobrado
por esta filha sua que partiu rumo ao Céu,
qual pétala de rosa esvoaçando ao vento.

Uma nuvem se abriu no céu iluminado.
Sua alma, feliz, sorriu e nela entrou...
Nós sorrimos também em nosso pensamento.


Aurora Simões de Matos

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Marcha Bairro do Castelo - 2011 - Castro Daire TV


POENTES DA MINHA INFÂNCIA





Poentes da minha infância








O sol enrubescia de muita luz e cor

e preparava vestes de sensual fulgor

para beijar em festa a serra mais distante.

No mais fundo dos vales, a noite já caíra.

Sereno e protector silêncio sucumbira

ao cansaço do dia, num esforço gigante.





  Em seu leito tranquilo, dormia já o rio.

 Na vertente do monte, o último assobio

do pegureiro exausto de tanta solidão.

 O gado, cabisbaixo, seguia mansamente

caminhos sinuosos em forma de serpente,

chocalhando sinais de vida em união.






Corpos extenuados arrastavam suor,

sentindo em pés descalços contactos de amor

por íntimos caminhos que a casa conduziam.

As leiras já lavradas exalavam frescuras

de terras reviradas, espelhos de almas puras

que por elas lutavam e por elas viviam.




Da robustez dos homens, enxadas companheiras

 salvavam os mais velhos, sentados às soleiras

 de quinteiros agrestes com forte aroma a monte.

 Treinando seus piões, crianças seminuas.

 Cansaço e alegria corriam pelas ruas

 onde todas as pedras olhavam para a fonte.







A aldeia fervilhava de azáfama caseira

e o fumo em que se erguiam novelos da lareira

cheirava ainda à força de quem era Mulher:

o caneco sedento, a ceia para os seus,

o trato aos animais, acreditar que Deus

lhe destinara a sorte, só tinha que a viver.





A poça para abrir, canções pelos caminhos

da água para as regas e a água dos moinhos,

tudo estava sujeito à mesma lei da sorte.

No sino da capela, tocavam as trindades

tangentes badaladas, prenúncio de saudades

da vida sempre igual, do berço até à morte.







Era assim a tardinha de infâncias já distantes

nas encostas da serra, onde tempos marcantes

deixaram a lembrança que me faz regressar.

Tudo se foi no tempo, hoje nada é igual…

a não ser as roupagens de fulgor sensual

que o Sol ainda veste, quando se vai deitar.




         Aurora Simões de Matos






          no livro " Poentes de mar e serra"--------1997






segunda-feira, 5 de novembro de 2012


História de uma Vida – A Sobrevivente
(Continuação)


(Biografia romanceada de Maria do Céu Trindade, que reside há 25 anos no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Castro Daire e que, no próximo mês de Dezembro, completa a bonita idade de... 110 anos)








Capítulo II



Na salita, media, cortava, alinhavava, provava, cosia os buréis, os riscados, os linhos e muito mais tarde os modernos terilenes que lhe cobriam a cama de ferro, a um canto. Tecidos que esperavam a sua mão de hábil artista. O ferro de brasas aceso, com que havia de alisar as peças de roupa que ali ia confeccionando, como alfaiate prestigiado que era. Obra não lhe faltava, ajudado pela mulher. Obra para as aldeias, os lugares e as quintas ao redor. Das redondezas chegavam os fregueses, vindos das lojas da vila ou da feira do Crasto, com os panos à cabeça, atados com uma guita. De tudo fazia e fazia bem. Mas o orgulho maior, sentiu-o ele, quando costurou a farda para a antiga música de Castro Daire. Do seu trabalho de alfaiate haveria de sustentar a casa, que as territas pouco davam, nem para o dia-a-dia. E ele tinha ambições para os filhos.

Tinha ambições para os filhos. E eles eram quatro. Ou cinco, contando com a rapariga, que também comia e a quem igualmente queria muito bem. Tinha ambições para os filhos. Queria vê-los crescer saudáveis e felizes. Queria muito que, da Quinta da Seara, os seus rapazes saltassem os socalcos e se embrenhassem no mundo.

Queria mostrar-lhes que o barroco do lameiro fundeiro das suas terras não era nada comparado com a Paiva, lá em baixo, onde tantas vezes já fora deitar as redes, na mira de sorte na pescaria que lhe valesse um petisco para o jantar do meio-dia de Domingo. Mas que a Paiva, mansa de consolo em Verões de abrasar o corpo e o chão, ou brava de meter medo em Invernos rigorosos, quando o bramido das águas se ouvia por todo o vale, a Paiva era uma criança até chegar ao Douro, soberbo de orgulho e de força. E que, mergulhadas as suas águas no caudal do grande rio, mesmo assim continuava a ser uma criança trémula de medo, ao enfrentar o mar imenso.






O mar, o mar imenso... Tão grande, que o vapor demorara quase um mês a atravessá-lo. E os seus rapazes tinham que ver e que sentir a imensidão das coisas. Da água e da terra. Das cidades e das gentes por esse mundo fora. Que os seus rapazes não haviam de ser menos que os filhos dos outros. Dos outros, dos que ele conhecera no Brasil, onde se ganhava dinheiro certo e não faltava trabalho. E não haviam de faltar oportunidades para os seus rapazes serem alguém.

Era esse o maior sonho de João Trindade. Por isso, quando cada um deles chegou à idade de aprender a ler, obrigou-o a ir para a escola. Já se sabia que ficava longe, os caminhos eram carreiros ruins de atravessar até Vila Seca, a perto de uma hora de distância, o lugar mais próximo onde a Mestra ensinava um grupo de rapazes, numa salita meia escura. Tudo rapazes. Não era que fossem obrigados, naquele tempo, à frequência da escola. Mas quem soubesse ler e escrever tinha o futuro garantido.

No caso das raparigas, a situação era diferente. Eram raríssimos os casos em que os pais dispensavam as filhas do trabalho e as mandavam para a escola. Nem haveria necessidade disso – pensava João Trindade. Para quê mandar para a Mestra a única rapariga que o Senhor lhe deixara ficar? Para quê, se a vida da mulher era no lar, a tratar do homem, dos filhos, da casa, dos animais e das terras, se adregasse de as ter? Que sempre uma mulher haveria de arranjar que fazer e onde empregar forças e afectos. Que sempre uma mulher ficaria melhor no aconchego do lar, que por esse mundo fora, louvado seja Deus!

Louvado seja Deus, que a João Trindade calhara-lhe a sorte grande. Mulher trabalhadeira a sua. E respeitadora. Amiga do marido e cumpridora dos seus deveres de mulher e mãe. Que Deus lha conservasse.

Maria Emília de seu nome, filha de gente de bem, família de boa formação religiosa e moral, tia de Padre, era ela o grande apoio daquele lar. Nunca se lhe ouviu uma praga, um maldizer, um berro zangado. A calma em pessoa, era esta mulher que, desde madrugada, não parava até altas horas da noite. Para tratar da casa, dos filhos, do homem. E de tudo o resto, que a seu cargo tinha tudo o resto. Animais e terras. E as compras na vila ou na loja de Sobradinho, ou na de Ribas. E a lã para fiar e fazer caturnos. E o linho para semear, mondar, regar, colher, massar, tascar, limpar, fiar, dobar, tecer. Do pouco linho que conseguia cultivar no lameiro do meio, abaixo da casa. Que haveria de lavar na barrela e estender no coradoiro, em lençóis e brancas toalhas. E, pela noite fora, ajudar o homem na costura. Que o tempo fez-se foi para trabalhar.

O que lhe valia era a filha, a única que o Senhor lhe deixara, desde que a última lhe morrera, com doze anos apenas. A sua Margarida, que Deus havia de ter no céu. O que lhe valia era a filha. A Céuzita, calma e obediente como a mãe, trabalhadeira como a vida lho exigia. Humilde e meiga como a mãe, responsável e atenta como o pai lho exigia. Sorridente e acomodada como a mãe, discreta e púdica como o Senhor Abade lho exigia. Que a sua religião e os ensinamentos da Santa Madre Igreja tinham grande peso nas famílias e nas pequenas comunidades espalhadas por todo o vale da Paiva e serras ao derredor.

- Ó senhora mãe, daqui por quinze dias é a festa de Nossa Senhora do Carmo. Já falta pouco para o 16 de Julho. E eu queria estrear uma saia e um lenço da cabeça...
- Já sabes que o teu pai te dá sempre qualquer coisa para estreares no dia da festa. Mas é só uma peça, que os teus irmãos são quatro e eu prometi que dois deles haviam de levar o andor de Nossa Senhora na procissão. Sempre têm que ir bem arranjados. Tu contenta-te com a saia, ou com o lenço. Eu falo com o teu pai.
- Mas eu é que sou a mordoma da festa... Também gostava de ir bem arranjada!
- E vais, e vais, minha filha. Vai ser a rapariga mais linda daquela festa! - aconchegava a mãe.
- Ó senhor pai, então sempre me dá a saia para a festa? E também me dá um lenço? Já nem lhe peço uma blusa de chita...
- Era o que faltava! Ainda no inverno te fiz uma nova.
- O riscado já se rasgou. Também... ando sempre com ela... Tanto se suja e tanto se lava, que tem que se romper.
- Não respondas ao teu pai! - repreendeu João Trindade, de mau humor.
- Tenho sempre que me calar. Já sei, já sei...
- Ela anda a ficar muito atrevida! Também me responde a mim! Não sejas malcriada, Céu. Senão, pode sair-te cara a brincadeira! - aconselhou o irmão mais velho, em tom irónico.
- Eu não disse mal nenhum...
- A pequena não disse nada que ofendesse ninguém, valha-me Deus! Só pediu uma saia e nada mais...
E dirigindo-se à filha:
- Vai segando o caldo, que eu já vou ter contigo para conversarmos.

Maria do Céu já não ouviu a mãe. Cabisbaixa, meteu-se em casa a resmungar sozinha. Que não havia direito, os rapazes tinham tudo e faziam o que lhes apetecia. Ao contrário dela, que tinha que se calar a tudo. Pegar no que lhe dessem, sem nada poder pedir. Mas o que mais a deixava triste era o pai pôr-se sempre do lado dos irmãos. Que, esses sim, davam-lhe cabo do juízo. «Céu para aqui, Céu para ali, Céu para tudo e mais alguma coisa».

Não era que não fossem amigos dela, mas falavam como se fossem todos seus pais.

- Não vês que o irmão só te quer bem? Quer é fazer de ti uma mulher como deve ser, valha-me Deus! - contemporizava a mãe, com aquela calma na voz.

Aquela calma que enchia o lar de paz. Que fazia de todas as horas, momentos de carinho e de sossego.




Aurora Simões de Matos

quinta-feira, 1 de novembro de 2012


Emigração para o Brasil
no século XX



As mulheres casadas-viúvas da minha terra





Leonor era uma das muitas mulheres casadas - viúvas que, por meados do século XX, me lembro viverem na minha aldeia, em todo o Vale e nas serras ao redor.
Casada de fresco, partira-lhe o homem, em resposta à «carta de chamada» enviada pelo sogro, que desde quase sempre vivera e trabalhara do outro lado do mar.
Ficou grávida de três meses, carregando no ventre um filho que só conheceria o pai aos dez anos, quando Malaquias Brasileiro, de paletó claro, duas malas carregadas e sotaque na fala e nos costumes, veio de visita à terra.


Nessa altura, Leonor tirou o luto e fez tréguas com a vida. Aviou-se de cores garridas na loja do Pontes, jantou várias vezes no Ivo de Castro Daire e foi de carro de praça à Senhora dos Remédios. Esbanjou alegria e rejuvenesceu dez anos. Esqueceu saudades, arranjou tempo para se enfeitar, até cortou o cabelo. Deixou de lado a escrita das longas cartas ao serão. Comprou um gira-discos e a máquina de costura. Entrou em obras com a casa e aumentou-lhe um quarto para o filho e uma casa de banho. Leonor fazia tréguas com a vida.


Curtas tréguas. Habituado a horizontes mais largos, que lhe ofereciam a única possibilidade de mais uns bens, dois lameiros mesmo à borda da Paiva, que andava a namorar há muito, Malaquias de novo partiu para o Brasil. Foi ao outro dia da Feira dos Doze do mês a seguir ao Natal, numa madrugada feita do codo cristalizado na alma de Leonor.


Novamente de luto, sentindo ainda nas fontes a latejar o eco do toque a quebrados do seu coração, com outro filho na barriga, assumiu de vez para com a sorte o crónico ressentimento que a tornara calada, triste e amarga. Destinada à solidão daquele amor sofrido, na grande injustiça de uma situação em que, por necessidade de cumprir a legítima ambição de oferecer aos filhos uma vida mais desafogada, os privava e se privava do que de melhor tinha a vida em família, Leonor foi construindo, a pulso, o lugar de uma das muitas heroínas anónimas da minha terra.


E à noite, feita num molho, depois de rezar as contas com os filhos, a ideia voava-lhe para lonjuras onde nunca haveria de chegar, à procura do seu homem. Porque era sempre nele que repousava o pensamento exausto das canseiras, saudades e esperanças duma vida injusta. Porque era sempre nele que buscava forças para, sozinha, ir criando os filhos que, indiferentes ao seu desgosto, cresciam tranquilamente à beira-Paiva.

















Carta para o Brasil                                    

E o Zezito escrevia….

Zezito escrevia ao pai

as “ palavras mal notadas”

com lágrimas embrulhadas

pela voz de sua mãe:



«Meu querido Malaquias:


Muito estimo que estejas de saúde,

que nós ficamos bem, graças a Deus.

Escrevo-te esta carta mal notada

para te dizer….


Que a vida sem ti é nada

neste vale de sofrimento;

que o luto do meu lenço

é o retrato da alma

que, por ti, pena no tempo.

E tanto tempo já é,

que chego a perder a fé

que um dia acabe o tormento.



A “ Morena” já pariu

e a bezerra tem também

o sinal do mesmo lado

que o tinha sua mãe;

no quelho detrás da casa

crescem alfobres de couves

e a sorte do Loureiro,

as da Ilha e do Vieiro

parecem jardins em flor

que, a pensar no nosso amor,

arranco ao chão do lameiro.



O teu padrinho morreu,

foi ontem a enterrar;

os povos das redondezas

o foram acompanhar.

A ti Ana Zeferina

casou a última filha

na Igreja da Freguesia;

há muito que se não via

boda com tanta alegria.


O nosso filho mais velho

no mês que vem vai às sortes

e, se Deus o ajudar,

há-de ficar apurado

e ser um bom militar.



Só me resta despedir

e desejar-te saúde

para poderes ajuntar

para a casa que queremos

e que , em breve, possas vir

juntar-te a nós e acabar

esta vida que sofremos.



Fico à espera da resposta

já na volta do correio.

Recebe os cumprimentos

dos amigos e vizinhos

e beijos dos nossos filhos.



Com a saudade maior,

tua mulher

Leonor.»


Aurora Simões de Matos
in Imagens da beira-Paiva