domingo, 25 de novembro de 2012

Malhadinho





Tão pequeno e indefeso,
nasceu no monte
à sombra duma giesta em flor,
amparado pelo pegureiro
com mãos calejadas só de amor!

Nasceu da «Malhada»
que, balindo, toda dor,
confiou sem reservas o seu filho
ao generoso pegureiro
de mãos calejadas só de amor!

Um tufo de fentos e erva seca,
ao lado duma torga abandonada,
foi seu primeiro ninho de calor
no aconchego da primeira mamada..
.
E quando ao fim da tarde conheceu
os caminhos que iam dar ao lar,
sentiu o abraço enternecedor
que o levava ao peito,
muito ao jeito
do bondoso pegureiro
com mãos calejadas só de amor!

Cresceu o «Malhadinho»!
Já sabe andar sozinho
e não precisa da ajuda de ninguém,
nem mesmo do úbere de sua mãe.


Mas, quando calha, dia madrugado,
a vez de abrir a porta ao gado,
a vez de fazer sua vigia
ao amigo pegureiro
de mãos calejadas só de amor,
há sempre um olhar terno de alegria
e um balido de bom entendedor.

Aurora Simões de Matos


sábado, 24 de novembro de 2012

A ninhada



Era a ninhada
acocorada
debaixo da mãe galinha
quietinha
não fosse algum deles fugir
e sair
do calor das asas dela.

Ela rodava
ajeitava
debicava com carinho
levezinho
cacarejando de amor
ao redor
junto da palha amarela.

E o pintainho
apertadinho
deu a primeira corrida
conseguida
e fugiu da mãe pedrês
um dois três
só seis ficaram com ela.

Mas a galinha
coitadinha
além de galinha mãe
é também
mãe-galinha mãe zelosa
e receosa
avista aberta a cancela.

Abre uma asa
qual a casa
e levando os pintainhos
bem juntinhos
os seis baixinho a piar
vai buscar
os três pra debaixo dela.

E mal se move
que são nove
na hora de recolher
têm que todos caber...

Mas que família tão bela!



Aurora Simões de Matos

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Quando o Verso se Desfolha – Programa N.º 9

A voz de Aurora Simões de Matos
em três poemas
Rádio Clube de Lamego
 
 
(Do livro Poentes de mar e serra:
- Dá-me tudo o que te peço
                                - Malhadinho
                                - Trovoada na Serra)


Clique no link a seguir:
Quando o Verso se Desfolha – Programa N.º 9

quarta-feira, 21 de novembro de 2012


As Alminhas, nichos de fé




Uma das mais ingénuas e românticas manifestações de arte popular, associada à religiosidade do nosso povo, são as Alminhas.

São pequeninos oratórios, onde os vivos podem rezar pelos mortos em sofrimento nas penas do Purgatório.

Construídas em pedra, podem ter formas diversas, mas são fundamentalmente constituídas por um nicho com pintura ou imagem resguardada ou não por protecção de vidro e encimado por uma cruz em relevo. Por vezes, mãos piedosas encarregam-se de nelas manter mais ou menos viçosas as flores de uma jarrinha.

Com o tempo, desapareceram alguns pormenores destes pequenos monumentos, como as tábuas pintadas em que sobressaía o fogo vermelho onde ardiam e sofriam as almas, assim como os anjos que levavam as purificadas a caminho do Paraíso.

As Alminhas foram construídas como sinal de uma tradição de fé, em tempos bem recuados, quase sempre por iniciativa das Irmandades das Almas, que muitas vezes nelas inseriam pequenos cofres de ferro chumbados na pedra. Estes cofres destinavam-se a guardar as esmolas dos crentes, para depois se mandarem celebrar missas de sufrágio pelas almas do Purgatório. Essa prática caiu em desuso e hoje já não é costume deixarem-se ofertas em dinheiro.

Através dos tempos, plantadas à beira dos caminhos, nas encruzilhadas, nos cunhais das habitações, em muros estratégicos, discretas ou bem visíveis, a encimar fontes ou à entrada de pontes centenárias, estes sinais de devoção tão profunda e piedosa do nosso povo sempre têm merecido o carinho de quem não é indiferente à tradição.

Muitas estão em ruínas ou desapareceram entretanto. Muitas outras vão acompanhando o desenrolar de novas eras e sofrendo adaptações mais ou menos consentâneas com a rusticidade que lhes é tão peculiar. Algumas transformaram-se mesmo em pequenos monumentos de cariz estilizado, de acordo com a pessoa ou a entidade que quis deitar-lhes a mão, evitando o seu desaparecimento.

Os nichos das Alminhas, onde quer que se encontrem e qualquer que seja o seu estado de conservação, emprestam sempre à paisagem uma impressão de tranquila afectividade e levam-nos a pensar nos outros como irmãos, com generosa emoção. Assinalam a presença do Cristianismo e são pontos de referência para os residentes e para os viajantes.

No meu concelho, na Serra ou no Vale, não há povoado em que não se encontrem umas ou várias Alminhas.

Curiosamente, a casa onde nasci ostenta, num dos seus muros voltados para o caminho público, um desses nichos. Por diversas ocasiões, a dita parede foi sujeita a obras de restauro e beneficiação. No entanto, uma imagem enfeitada com flores lá continua, embora adaptada a novos tempos.

A minha rua? Chama-se Rua das Almas, naturalmente. É um sítio de passagem, um ponto de encontro, um lugar de regresso.

É a Rua das Almas, despojada e simples, como simples são os nomes das coisas à beira-Paiva.




terça-feira, 20 de novembro de 2012

Bailes antigos - Poema de Aurora Simões de Matos

Bailes antigos





Naqueles tempos de menina
que minha lembrança encerra
recordo com saudade
os bailes da minha terra

Rapazes, chapéu ao lado
e as moças bem sadias
algumas delas rogadas
nas povoações vizinhas
mesmo doutras freguesias
faziam do seu bailar
a arte de bem saber
como, num rodopiar
se pode a vida viver
E como bem o faziam!
Porém, as comprometidas
com a sua compostura
a um só par se ofereciam
bem à maneira do crer
em valores que defendiam

E ai da voz ou do gesto,
um simples olho pisca
do intruso que tentasse
seduzir namoro alheio!
Fervilhavam os ciúmes
e a faca de dois gumes
que o baile traduzia
em perigo e alegria
poderia redundar
cena de pancadaria

Se tudo corresse bem,
vigorava o fresco viço
dos corpos, sangue maciço
a redobrar de euforia
ao som da gaita de beiços
ou então da concertina
em loucas valsas de roda
em chulas, danças da moda
e também na mais esperada
de toda a bonita dança
a célebre contradança
que a todos enfeitiçava

«Agora ao centro tudo...
e outra vez...
rodas em cabeceiras...
rodas ao outro lado...
à direita passeia tudo...
procurar o seu par...
é força, balanço e tudo...
mais uma vez rodar...
meia volta e troca o par...»

Nesta dança delirante
de cega obediência
ao mandador bem falante
num jogo de resistência
que não permitia engano
os meus olhos não largavam
meu Tio Floriano

Ainda hoje, quando há festa
gosto de o ver dançar
nos seus setenta e tal anos
Corpo janota, bem feito
num porte todo elegante
de tronco muito direito
e pés de grande dançante
puxar da sua Mulher
e... de repente... esquecer
desgostos e desenganos
num bailar em rodopio
como nos tempos antigos
quando era jovem meu tio

E lembro-me espectadora
de muito roubo de beijos
escondidos no sabor
do toque dos realejos!

Aurora Simões de Matos
do livro Poentes de mar e serra - 1997


domingo, 18 de novembro de 2012


Capela de madeira




Plantado na colina, junto à eira,
erguia-se o canastro de madeira,
belo, robusto, altivo, sobranceiro
na sua postura e autencidade
herdadas do tempo e na rusticidade
da terra-mãe
que lhe oferecera a força e o poder
arrancados à verdade do monte:
o xisto de seus pés e sua fronte,
o tronco de árvore que lhe dera corpo,
a lousa negra que lhe cobria o ser,
o ventre feito de vísceras douradas
na aridez do sol, na aridez do vento,
que corria, livre, à vontade do tempo
e lhe atravessava os ossos, lhe retesava as veias
na generosa intenção de oferecer
a dádiva do amadurecer
o pão, fruto de meses na canseira
do lavrador, até chegar à eira.



Ainda hoje, sereno monumento
à ruralidade, que é de todo o tempo,
podemos vê-lo, na colina plantado,
mesmo que das entranhas despojado,
belo, humilde, saudoso, junto à eira,
lembrando-nos capela de madeira.


Aurora Simões de Matos








quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Oração ao Anjo da Guarda

ORAÇÃO AO ANJO DA GUARDA
Autora --- AURORA  SIMÕES  DE  MATOS

(Do livro Poentes de mar e serra - 1997)



Meu Anjo Bom
Que me segues silencioso
E assistes aos meus erros, desgostoso
E vês os meus momentos de glória
Sentindo tua a minha vitória
Companheiro da noite e do meu dia
Não me abandones, faz-me companhia

Eu sei
Que o teu poder é só o meu poder
E que o meu querer
Nem sempre terá sido o teu querer
Eu sei
Que fui eu que escolhi os meus caminhos
Mesmo quando, em vez de rosas
Eu antes quis espinhos

Eu te agradeço
Por me teres deixado ser sempre EU
Iluminada pela minha Estrela
Que nos espreita sorrindo, lá do Céu
Tu sabes que tudo o que fiz
Eu fiz por bem

Eu te prometo ser sempre assim

Amém.          

                                                  


                                                                                   
                                                                              Aurora Simões de Matos