terça-feira, 29 de janeiro de 2013

NA LADEIRA

Em Parada de Ester


POEMA








Eu quero ser enterrada na ladeira
Onde me vejam os montes que eu amei,
Onde me chorem as pedras que chorei
Ao som das mágoas de uma vida inteira.


Perto da estrada das minhas mil passagens,
Que sinta que passei mas que fiquei
Para passar mil outras mais viagens,
Companhia de quantos não deixei.


Quero a queiró e a urze em meu redor,
Perfumando meu sono com o amor
Com que na vida vivi minha saudade.


Na ladeira virada para o rio
Onde meu corpo sossegado e frio,
Enfim em paz, goze a eternidade.


                                           Aurora Simões de Matos






Do livro POENTES DE MAR E SERRA (1997)



















quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

NEVE NO MONTEMURO
 
 
 POEMA
 
 
AMORTALHADO
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
É o Montemuro branco amortalhado
silêncio pesado que lhe cobre o corpo
no frio parado que lhe esconde o rosto
na grandeza austera do céu transbordado.
 
 
 
É a serra inerte de alma despojada
na distância em flancos cobertos de alvuras
onde o som que corta o ar das alturas
me zurze de invernos a boca gelada.
 
 
 
É a cor do frio no tempo parado
de corgos que choram murmúrios de dor
nas pedras que calam sua voz de amor
ao êxtase branco do amortalhado.
 
 
 
 
Aurora Simões de Matos

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013


Mudam-se os tempos



A crise económica internacional, que se vem acentuando nos últimos anos, tem levado a medidas restritivas nos países de destino dos nossos emigrantes, tendo afectado, de forma mais ou menos drástica, o quotidiano de todos aqueles que procuram, longe da pátria, a realização pessoal, profissional e social, que dê sentido satisfatório a um percurso de vida que ambicionam com a maior estabilidade possível.


Sendo assim, uma boa parte das gentes da beira- Paiva, em movimentos migratórios internos, facilitados por uma rede cada vez mais alargada de estradas e servidos por uma razoável rede de meios de transporte, procura, nos grandes centros urbanos portugueses, a satisfação para as legítimas necessidades de um viver mais desafogado, já que a agricultura e a pastorícia, os recursos económicos mais tradicionais da nossa terra, deixaram há muito de satisfazer as naturais ambições das novas gerações.

Todo este fenómeno, aliado à obrigatoriedade cada vez mais alargada da escolarização dos nossos jovens, pela demanda de mais saber e de um emprego economicamente mais rentável, e também ao actual baixo índice de nascimentos, tem levado ao declínio demográfico, que se traduz numa população cada vez mais envelhecida.



No entanto, o regresso às origens é sempre uma obrigação. O Natal, a Páscoa e principalmente os meses de Verão assistem ao retorno dos que partiram. Carregados de saudades, de mimos e presentes para os que aqui deixaram e dos luxos possíveis transferidos de grandes centros de consumo, vão modificando a fisionomia e os modos de viver e de sentir desta região.

Trazem novos hábitos, novas experiências, novas exigências. Aprenderam por lá a competitividade que, naturalmente, passou a fazer parte das suas preocupações e que conduz a certa ostentação, exposta principalmente nos carros que conduzem, nas casas que constroem, nos electrodomésticos que usam, nos mobiliários com que recheiam as suas habitações.

Hoje, poucas serão as casas das nossas aldeias que não exibem um bom frigorífico, arca congeladora, aquecedor eléctrico, microondas e o indispensável televisor que nos aproxima do mundo.



De facto, a televisão entrou na vida de toda a gente, invadiu os seus tempos de lazer, faz agora parte dos seus serões, apresenta-lhe novas modas e novos valores.

O convívio dos homens na taberna, à porta da venda, no cafezinho intimista ao lado do minimercado, foi sofrendo alterações, ficando cada vez mais frouxo. Quase só o futebol consegue monopolizar atenções e alargar interesses que se querem partilhados com os vizinhos e os amigos. Quase só o futebol junta um razoável grupo para a discussão dos resultados. Pelo meio, a televisão.

O convívio das mulheres na fonte, nos lavadouros das poças e dos tanques, à saída da missa, nas feiras ou nos bailes, foi ficando cada vez mais desprendido de interesses e de afectos. Quase só as novelas despertam comentários que se querem partilhados com as vizinhas e com as amigas. Pelo meio, ainda e sempre, a televisão.

Com a chegada da televisão, dos telemóveis e da internet, foram dissipadas barreiras julgadas intransponíveis. As novas tecnologias estão aí, a revolucionar o quotidiano das populações. As seculares práticas comunitárias, instaladas desde tempos imemoriais, vão dando lugar ao individualismo da modernidade.

As gerações mais velhas, embaladas neste sonho de conforto e de progresso, de boamente aceitam as mudanças que possam facilitar um pouco os seus dias, desde sempre marcados pelo esforço duro e penoso.



Na prática, quase ninguém se apercebeu dos efeitos perversos desta mudança de atitudes e mentalidades. Naturalmente, as coisas foram acontecendo devagar e, quando se deu por isso, as crianças já não cultivavam práticas e linguagens, gestos, memórias e afectos que se julgavam imorredoiros. Tinham deixado de aprender, porque ninguém lho tinha ensinado nos longes das grandes cidades, o carinhoso respeito pelos nossos velhos, a quem já não recorrem para as aprendizagens da vida, com quem já não rezam as contas ao serão, a quem já não pedem a bênção pela manhã e antes de adormecerem. As nossas crianças e os nossos jovens foram perdendo o espírito genuíno que caracterizava a sua identidade e são agora, para o bem e para o mal, em tudo parecidos com os novos portugueses de todo o resto do país e do mundo.



A abertura dos ambientes outrora isolados aos novos meios de comunicação e de transporte, só pode ser encarada numa perspectiva de enriquecimento e desenvolvimento a todos os níveis. Estas regalias, até há pouco impensáveis para uns e esperadas com impaciência por muitos outros, serão por certo résteas do progresso que, com toda a justiça, chegam a estas paragens.

Difícil é prever até que ponto poderemos ainda preservar os sinais que nos distinguem como seres únicos que, respirando uma vitalidade muito própria, são capazes de se afirmar pelo mundo, sem todavia se desprenderem das raízes que os ligarão para sempre à sua terra.


(Texto escrito em 2010,antes da grave crise económica que tanto aflige o mundo)



Aurora Simões de Matos


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

NAS FALDAS DO MONTEMURO



"AMOR SUBLIMADO"






A minha aldeia é linda, linda, linda
rendando a falda à bela Montemuro...

É meu passado à espera do futuro
neste presente que o não é ainda...





Morena, sensual, toda verdade
insinuando-se ao Paiva, sedutora
escondendo a inocência encantadora
num jogo lindo de cumplicidade
entre férteis lameiros, milheirais
caminhos soltos onde a água corre
e o sol que a abrasa numa oferta
a que o rio não resiste mais
e em arquejos de amor como quem morre
lhe cai aos pés numa paixão aberta...





E assim vivendo, em plena doação
se complementam, na doce magia
suprema dum amor todo alegria
que não lhes cabe sequer no coração
e transbordando para além de si
inunda os montes, as pedras, os caminhos
o sol, o céu, ventos e ribeirinhos
como se o mundo fosse todo ali...

Passam as vidas para além dos tempos
passam os tempos além das ideias
e o rio... sempre na mesma pureza
de um amor sublimado em sentimentos
que oferece à mais pura das aldeias
que só nele mira sua eterna beleza...






        Aurora Simões de Matos




quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

COM MIGUEL TORGA
Tertúlia Literária do Hotel Lamego
08/12/2012




LEITURA DO POEMA "SÃO LEONARDO DE GALAFURA"




MEDALHA MIGUEL TORGA







DIPLOMA DO CENTENÁRIO DE MIGUEL TORGA,da Federação das Academias de Letras do Rio de Janeiro e da Academia de Letras e Artes Lusófonas





MEDALHA MIGUEL TORGA,que recebi com o maior orgulho





Poema escrito e lido pelo Presidente da Academia de Letras e Artes Lusófonas e Representante em Portugal da Federação das Academias de Letras do Rio de Janeiro,no momento da imposição da Medalha Miguel Torga


TAMBÉM EU
(Resposta a Miguel Torga)


Sei de um monte, sei de um rio,
sei de um barco a navegar,
sei duas margens de um corpo
onde é fatal descansar.
Sei da nuvem, sei da chuva,
sei da mágoa de esperar
por um abraço perdido
que ligou a serra ao mar.
Sei da rede e da jangada,
olhos, ventre a desflorar,
louca ânsia na corrente,
aflição de desejar
que não contarei, não digo,
porque o que sei é comigo.


                             Aurora Simões de Matos 

...........................................























Sei um ninho
[poema de Torga que me inspirou o poema Também eu]



Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me tentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...


                                  Miguel Torga

sábado, 5 de janeiro de 2013


POEMA

EM JEITO DE MULHER





EM JEITO DE MULHER

De braços nus,em jeito de mulher,
a árvore estende ao céu uma oração,
ou um apelo,um grito.


Só a raiz sobreviveu à chuva,
tudo o resto foi nas bátegas do vento.

A estação fria cobre de gemidos 
os gestos dos caminhos
por onde as aves calaram seu canto.

Aurora Simões de Matos


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013