quinta-feira, 25 de julho de 2013

LUTA DE BOIS

                
                         LUTA DE BOIS NA FEIRA DO FOJO

                                 Parada de Ester, Castro Daire



                                             



Luta de bois






vaca de raça arouquesa

          







     (Conto)

O pequeno Diogo acordou estremunhado. O avô prometera levá-lo com ele à FEIRA ANUAL DO FOJO , onde a luta de bois seria o cartaz mais atrativo do dia.
Toda a noite, os sonhos do rapaz foram visitados por corpulentos animais de chifres longos e aguçados, que impunham respeito e lhe semearam de sustos o coraçãozito ansioso.

Aquele era um tempo sem pressas nem desaforos, os horários das aulas tinham ficado para trás e, no engendrar de peripécias que haveriam de lhe preencher os dias de verão, numa idade sem limites aberta a todos os futuros, o mês de julho trazia-lhe o que de mais genuino, másculo, irreverente e mesmo agressivo, poderia apreciar na sua freguesia.
Tinha doze anos saudáveis, inteligentes e tranquilos. A vida desafogada da família em que nascera permitia-lhe crescer sem sobressaltos, com um pé nas tradições da aldeia rural de seus avós e outro no meio mais urbano, aberto a toda a modernidade, em que viviam e trabalhavam seus pais.

Diogo era um menino feliz e, nas fantasias da sua cabecinha, tinha plantado um sonho que o enchia de orgulho. Na televisão, tinha assistido com o pai a uma série em que os protagonistas, nas barras dos tribunais, defendiam inocentes e abriam caminho à condenação da culpa, usando o conhecimento da lei e da justiça. O fascínio por aqueles profissionais bem falantes, que brandiam argumentos com a mesma solenidade das suas becas pretas, ditou-lhe a admiração, o respeito e a vocação pela jurisprudência. Um dia, será certamente o primeiro advogado ou o primeiro magistrado da família.

(......)

A meio da manhã, a família partiu pela estrada que, a subir, dá para Laboncinho e Sobrado. Precisamente entres estes dois lugares, já a feira  se espraiava no grande espaço disponível. Poucas sombrs, no dia de calor  que se abria a passos largos. Que os pequenos carvalhos, plantados para o efeito, não tinham ainda idade de cumprir missão tão benfazeja.

Tendas e mais tendas, gente e mais gente a chegar de todo o lado, como manda a tradição das feiras anuais.
Há de tudo, à vista do comprador.Na paisagem agreste da serra, naquele dia especial, avultam os lugares dos " comes e bebes " a fazer jus à fama dos bons cozinhados da região e aos petiscos próprios do lugar e do momento.

Mas naquele dia, a festa tem atrações muito específicas, vindas dos mais variados pontos do Montemuro.De Laboncinho e Sobrado, onde nasceu há cerca de duas décadas, por iniciativa dos Claudinos e outros, a ideia desta feira com características tão singulares. Mas também de Vila, Moimenta, Desfeita, Faifa, etc., chegam os mais belos exemplares de gado bovino, da raça arouquesa.



                                                                   




As vacas, jovens e elegantes,são colocadas em fila. Parecem modelos prontos para o desfile. Cada uma, a contento do seu dono, exibe ao pescoço pequenas campainhas coloridas e na cabeça, entre os chifres, laços e flores de papel.
Depois de numeradas, são minuciosamente observadas por especialistas na raça arouquesa, um veterinário e um engenheiro que, acompanhados por representantes das entidades patrocinadoras, têm a difícil tarefa de atribuir prémios aos melhores exemplares.

(......)

Mas os prémios não se ficam por aqui. A meio da tarde, chegam os bois, criados com todos os cuidados e empenhos para este fim.
É o ponto mais alto da Feira do Fojo. Os animais vêm em grandes camionetas. Depois de apeados e numerados, os especialistas atribuem a cada um o par que melhor corresponda à sua estrutura individual.


                                                                      







                                                                                    
A luta começa. O boi finca as patas no chão e, usando a força da sua corpulência, empurra o adversário com a testa, Chifres contra chifres, músculos retesados, baba a escorrer de raiva, olhos desvirados de nervos, rabos a enxotar pachorrências que ali não têm lugar. Bravura à flor da pele, num jogo de força e resistência. Até que um deles, exausto e quantas vezes a sangrar, começa a ceder, recuando no terreno, vencido pelo cansaço e pela superioridade do adversário. Está encontrado o vencedor.

A assistência, até aí em respeitoso e contido silêncio, abre em aplausos, gargalhadas e corridas, pondo-se a salvo, perante a fuga desenfreada dos animais feridos.
Um homem não fugiu a tempo e é calcado por um dos bois enraivecidos. Fica bastante maltratado e é transportado de ambulância ao hospital mais próximo. Mas esse episódio não esfria os ânimos. Outro par de bois está já pronto para a nova luta. Mudam os heróis, mas o espetáculo é o mesmo.

(..............)

Diogo observa e, na onda de euforia coletiva, entra na vertigem daquela tarde, onde parece que o desnorte se instalou.
Um dia, poderá ser advogado. Terá então maturidade e saber, para livremente fazer as suas escolhas.
Pode ser que venha a ser um fervoroso defensor das tradições da sua região. Pode ser que a sua opção seja a defesa dos direitos dos animais e colabore com alguma das associações que se opõem a estas lutas violentas.
De qualquer modo, terá muito que crescer e aprender. Então, homem feito, culto e responsável, sentirá o privilégio de uma infância repleta de experiências e emoções que o enriqueceram  e serão sempre a base sólida para opções conscientes de que possa orgulhar-se.

Boa sorte, Diogo!


                                                                                  Aurora Simões de Matos

                                                                                  No livro CONTOS DE XISTO








domingo, 21 de julho de 2013

JORNADA AQUILINIANA


                              JORNADA AQUILINIANA



                                       Aquilino Ribeiro

Por TERRAS DO DEMO
Vale Encantado, Nave e Lapa
30 /06 / 2013






Intervenção, à porta da casa onde nasceu Aquilino Ribeiro
( Carregal,Sernancelhe )

Não sendo eu especialista em coisa nenhuma, tão pouco uma aquiliniana assumida, nunca por nunca poderia ou saberia ou me atreveria a uma análise profunda sobre a obra de Aquilino. Deixo essa tarefa a alguns dos presentes que, certamente melhor do que eu, o farão.

O fascínio por este autor, de quem distingo "Terras do Demo ", "Malhadinhas", "Andam Faunos pelos Bosques", vem-me talvez de superiores e transcendentes laços de afecto que me prendem a um telurismo que, subjacente e muito presente em boa parte das coisas que, à minha dimensão, tenho publicado, continua a tomar conta desta identidade de mulher serrana da Beira

E é nessa qualidade e apenas nessa qualidade que, sim,estou muito à vontade para, na circunstância, me enquadrar nos ambientes rurais e bucólicos que o nosso autor descreve com um realismo ora romanceado, ora em carne viva expressa na dureza dos seus usos e costumes, das suas tradições ancestrais, do seu típico linguarejar carregado de regionalismos, dos seus misticismos mais puros.. Num apego umbilical ao mundo campestre e às suas gentes, reflexos de um Portugal hoje praticamente perdido no tempo. Um tempo quase irreal, paradoxo civilizacional da época contemporânea.

Exaltação do torrão natal campesino, num registo impressivo evocador dos ambientes da Beira serrana das primeiras décadas do século XX. Literatura de tradição, em natural convívio com a matriz popular que lhe moldou as marcas da força, da coragem, da irreverência, da ironia ternurenta com que nos fala, em seus personagens, das realidades humanas. Com a matriz popular que lhe oferece o manancial vocabular com que preenche as mais saborosas páginas de uma linguagem tão vernácula quanto romântica. Quantas vezes em expressões satíricas de uma riqueza lexicológica excepcional e única.

Vitorino Nemésio referiu: «A força plástica e musical do mundo aquiliniano é admirável. A serra portuguesa, a aldeia patriarcal, o rebanho transumante, vivem nos seus livros, como a vida flamenga e holandesa, nos quadros dos grandes pintores dos Países Baixos ».

Para ilustrar e documentar as palavras de Nemésio, trouxe um pequeno excerto de " Terras do Demo ". Estas, onde nos encontramos. Estas que Aquilino tão bem conheceu, vivenciou e eternizou em imagens ímpares, onde quis homenagear as paisagens, as ambiências e as gentes austeras de um canto da sua Beira natal. Precisamente o canto que nele próprio, aldeão de nascença, preenche um espaço singular na tradição honrada que lhe é referência.

                                                                                           Aurora Simões de Matos

.......................................




(excerto de Terras do Demo)

 « O Chico Brás não tornou a cuquear com a Zefinha do Alonso. Repeso e assustadiço, ia nutrindo a esperança de que os rebates da gravidez podiam ser flato ou endrómina passageira, e mesmo que Nosso Senhor, amerceando-se com a quebra de mancebia, fosse servido de sustar tão grave dano para os dois. E, todo pronóstico, cuidou de pôr os santos da sua banda, rezando-lhes, depois da ceia, uma boa enfiada de padre-nossos e não se esquecendo de ajudar todas as manhãs à missa do padre Zé. Aí estava este, que era um rascoeiro de gema, sem olhar a donzela, viúva ou casada, que para riba dos setenta andava rijo como um pêro, mimoso da divina graça. Ora, o corpo o pede...Deus consente.
O Neve-Ladroa, que fora moço de padeiro no Porto e corria feiras e romarias em chinelos de trança largando pelas tavernas suas loas de borracho e doutor da mula ruça, disse-lhe uma vez, à boca do adro:
-Estás um santarrão, amigo Brás! Mas olha, toma tento com a patroa. O marranito ainda chinca...e para toda a casta de pássaras!
O marranito era o padre, das unhas do qual, muito franzino e tarraco, nenhuma moça saía, a dar crédito às vozes, sem subir ao calvário.
O Brás, beliscado em sua honra, cresceu para ele; mas seguraram-no.
-Eu dou-te a chincadela, pedaço de bêbedo!-espumava ele.
E o Neve-Ladroa, que lhe bia dos maus repentes, desandou, pigarreando. de envergonhado, aquele seu mormo de velho piteireiro..
O Inverno zurrava lá de riba da Nave, tão ventoso e com pancadas de água  tão rijas que pareciam os penedos dos barrocais a rolar por ali abaixo, de escantilhão. As hortas nadavam na cheia, raro o folhareco de couve a que lançar os dedos. Inteigava-se o cristão com caldo de castanhas piladas, miga de unto, pão com cebola ruda ou umas azeitonas do Távora mais pequenas que carrapatos.Andavam os pobres a lazarar, de povo em povo, sequinhos como as palhas em que se deitam.
Quedava o vivo nas lojas, a esmoer nos cuanhos das malhadas, berrando por todos os foles sua dura fome.Havia rebanhos em que tinham morrido os reixelos da novidade. Deus andava de mal com a serra. »

Fundação Aquilino Ribeiro, em Soutosa



Colégio da Lapa, onde Aquilino estudou



Nesta JORNADA AQUILINIANA, visita a ;

...Biblioteca Aquilino Ribeiro, em Moimenta da Beira
...Casa onde nasceu Aquilino, em Carregal, Sernancelhe
...Colégio da Lapa, onde Aquilino estudou
...Fundação Aquilino Ribeiro, na casa onde viveu, em Soutosa
...Igreja de Alhais, onde foi baptizado


                                                                                         Aurora Simões de Matos






sexta-feira, 19 de julho de 2013

AGUARELA -----POEMA


AGUARELA






                  

Um quadro sem moldura
uma paisagem
manhã serena

uma gaivota
a luz intensa
azul e azul
e um navio que se despede no horizonte


                                                               Aurora Simões de Matos

terça-feira, 16 de julho de 2013

TREVO DE QUATRO FOLHAS........POEMA


MEU TREVO DE QUATRO FOLHAS








Remexi no gavetão 
das minhas recordações
e encontrei aquele lencinho
que minha mãe me bordou
numa noitada ao serão.
Era de pano de linho
com amor bordado à mão
e tinha flores de liz
todas em azul matiz.









Estava muito dobrado
e guardava bem escondido
um trevo de quatro folhas
que encontrei no meu canteiro.
Foi um trevo rebuscado
dentre centenas aos molhos
e que por fim encontrado
por minha mão minha sorte
vou guardar até à morte.


                                                         Aurora Simões de Matos







































quarta-feira, 10 de julho de 2013

RIO ABERTO-----POEMA



RIO ABERTO




Outros caminhos se estendem
no afago morno
com que desenhaste o leito desse rio.

O vento assim é brisa
e o sopro com que beija o chão
é apenas o gesto de se abrir
em acenos inventados de desejo...


                        Aurora Simões de Matos

quinta-feira, 4 de julho de 2013

ALÉM DAS NUVENS___POEMA


Além das Nuvens




Para além do espaço onde pairam nuvens,
o silêncio pertence todo aos que partiram.



Provavelmente as lembranças da voz
que no horizonte ecoa seus murmúrios
fizeram destes montes, destes vales,
o corpo de uma alma incapaz de soltar-se
dos lugares onde as palavras se esconderam
para não terem que acabar perdidas...

                                              Aurora Simões de Matos