terça-feira, 15 de outubro de 2013

Parada de Ester ---- A Casa dos Mirandas


A Casa dos Mirandas
 Relíquia de arquitetura e de afetos


 A Casa dos Mirandas, em primeiro plano, ao centro


Rio Paiva, que banha os campos de Parada de Ester




 Trecho de Parada antiga 

Estamos bem perto do rio, aqui onde a correnteza da Paiva amansa e se espraia, ora em quietudes benfazejas, ora em brando saltitar, como quem brinca em leito de preguiças.

Estamos em Parada de Ester, aqui onde os campos deveriam verdejar de fartas águas e aloirar de fartas espigas de milho. Aqui, onde há bem poucas décadas, grupos de vacas pastavam em lameiros tranquilos de erva fresca e os rebanhos saíam para o monte, na mansa pacatez de um quotidiano rotineiro, mas sempre cheio de vida. Aqui, onde o alvoroço da Feira dos Doze fazia a história mensal das atividades económicas de uma região em que a agricultura e a pastorícia, o artesanato e o pequeno comércio não deixavam ninguém sem trabalho. Aqui, onde crianças e adultos fervilhavam de vida pelas ruas empedradas ou de terra batida, que se cruzavam em todas as direções e sinuosos declives. Aqui, onde não havia casas desabitadas e as gentes se tinham acomodado a um viver parco de outras perspetivas que não fossem as da sua tradição, e ainda assim iam construindo alegremente a felicidade possível.

Mas o caso mudaria de figura quando, a partir das facilidades trazidas pelo alargamento das redes de estradas e de transportes, a eletrificação de toda esta região, a chegada de novas tecnologias de comunicação e a obrigatoriedade de mais amplos estudos para os jovens, se iniciou a debandada migratória, em busca de melhores condições de vida e novos acessos a patamares de cultura mais elevados.

Toda esta situação agravada por políticas governamentais devastadoras para os agricultores.

À semelhança do que aconteceu noutras regiões, muita gente partiu para as grandes cidades portuguesas ou estrangeiras, deixando Parada sem braços suficientes para o cultivo das suas terras que, pouco a pouco, foram ficando a monte, num abandono que poucos tinham previsto

 As construções de "Parada antiga", em primeiro plano,
contrastam com as de "Parada moderna", em segundo plano


Em contrapartida, a construção de novas casas espalha-se por todo o lado, obrigando ao alargamento da área urbana e impondo novas mentalidades e novos estilos de vida.

Parada não parece a aldeia da minha juventude. Completamente descaracterizada, resta-lhe a compensação de um novo tipo de conforto e bem-estar, que lhe são garantidos pelos novos equipamentos das modernas habitações. Cada uma maior e melhor, mais bonita e mais bem apetrechada que a outra, ostentando o resultado do trabalho árduo e da pequena poupança, às vezes penosa, dos seus emigrantes.

Indiferente à euforia de todo este aparato desenfreado, uma Casa que marca toda a diferença. Pela natureza da sua arquitetura, pela qualidade da sua construção, pelo charme da sua presença, pela força de uma economia que tão bem representou, pela dignidade de vidas que acolheu. Pelo respeito com que se impôs na comunidade em que foi símbolo de abastança e boa organização, mas também de práticas de vida exemplares.

Situada bem ao fundo e um pouco separada da povoação, a Casa dos Mirandas lá continua, há bem mais de um século, a representar a grandeza de uma história familiar das elites rurais que marcaram o século XX, na freguesia de Parada de Ester.

Os habitantes da aldeia chamam-lhe mais propriamente “A Casa das Senhoras Mirandas”, numa prova de deferência pelas cinco irmãs contemporâneas das gerações mais idosas.

Quando D. Maria dos Anjos, D. Virgínia, D. Angelina, D. Arminda ou D. Cândida subiam a íngreme calçada de pedra, desde o fundo do Povo onde tinham a sua casa, até ao cimo onde ficava a Igreja, para assistirem à Missa, sempre em cadeiras próprias, nos melhores lugares da frente, toda a gente lhes dirigia um cumprimento especial, marcado pelo respeito e uma certa distância.

Tinham um irmão, Alfredo Miranda, mas a administração da Casa estava a cargo de D. Virgínia. Não seria tarefa fácil, devido ao tamanho da residência e dos vastos terrenos que lhe pertenciam, como à quantidade de criados e caseiros que ali trabalhavam, apoiados por duas juntas de vacas.


Campos de milho em Parada de Ester



Como nota invulgar desta família, é de referir que D. Arminda e D. Cândida, sendo irmãs gémeas, nasceram obviamente no mesmo dia. Foram também batizadas ao mesmo tempo. Curiosamente, casaram na mesma cerimónia. E fizeram-no ambas com irmãos de bispos. D. Arminda casou com um irmão do Bispo de Eiriz, Senhor D. João Crisóstomo Gomes de Almeida. D. Cândida casou com um irmão do Bispo de Reriz, Senhor D. José de Noronha. Ele há coincidências bem interessantes!

A Igreja Paroquial de Parada de Ester


A Casa dos Mirandas, ao contrário de praticamente todas as outras, numa zona xistosa, foi totalmente construída em granito vindo de fora da freguesia. O que, no século XIX, não seria tarefa fácil, devido às dificuldades de transporte, já que a estrada só seria construída na década de 40 do século XX.

Desde sempre pertenceu à família Miranda que, em 1904, a beneficiou com grandes obras de restauro e aumento. As suas janelas e varandas, dotadas de ornamentos em ferro pintado, são bem típicas dessa viragem do século.

Passados cerca de cem anos, a Casa sofreu recentemente novas e grandes obras, mantendo embora intacta a traça inicial.

Pelos seus três andares, distribuem-se agora vários espaços modernizados e adaptados ao conforto que hoje se exige de uma casa de férias. Quem pode exigi-lo, evidentemente. No lugar da adega, há uma sala de jogos. Várias salas e vários quartos, numa reinvenção prática dos conceitos atuais de bem-estar.

No terreno circundante, de que grande parte foi vendida a particulares, as hortas da quintazinha foram substituídas por relva e árvores de fruto.

A Casa nunca saiu da família. Num negócio entre vários irmãos e sobrinhos, o imóvel foi comprado por um deles e pertence agora ao Dr. Luís Cardoso Rocha, advogado na cidade do Porto e a sua esposa, Dra. Susana Castro Guimarães, magistrada na mesma cidade.

Situada num lugar de excelência, a Casa dos Mirandas continuará, por muitos anos ainda, a marcar uma paisagem impressiva de rústica naturalidade e de forte presença arquitetónica. Relíquia de afetos, entre os verdes e férteis campos de Parada de Ester. 
 



Aurora Simões de Matos
(No livro Contos de Xisto -- 2012
Editora Edições Esgotadas)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

POEMA------DESILUSÃO






DESILUSÃO


Eu queria fazer em palavras as imagens que trago nos olhos
e vestir com gestos de harmonia a súbita memória
mas não há olhos que cheguem aonde não há olhar
nem vozes que cheguem aonde não há palavras...

Não há gestos sem corpo que os prenda a um regaço
nem canções sem lábios que as sintam no silêncio
sem ecos de outras canções a alongarem-se no tempo...

Não há vibrações de sangue a enviar mensagens
quando a água com que se mata a sede da chegada
é a mesma com que se fazem as lágrimas da espera...


                                        Aurora Simões de Matos



sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Douro e Lamego...O mesmo Poema

ALI PASSAVA UM RIO

AQUI  ERGUEU-SE  UM  TEMPLO




Uma só voz bastava para formar um coro
palavras dispersas no chão em estendal
alargado até perder de vista
ao alcance de todos os sentidos
de todos os caminhos sinal de quantas águas
 que poço de memórias e segredos
por mim viessem correr

Aqui passava um rio

*
Uma só voz bastava para cantar o hino
que no lastro de uma vida acomodada
ao avesso das coisas ao tamanho de horizontes
onde o mundo se alarga em sóis e neblinas
fosse ainda a sobra de qualquer madrugada
cujo feitiço transbordasse para além do tempo

Aqui brilhava um astro

*
Uma só voz bastava para contar a história
das dores e alegrias de quantas histórias
 se cruzassem em turbilhão de afectos
a vida em socalcos requebrados 
de trabalhos e canseiras
num prodígio de natural deslumbramento
em cenário inviolável aos horizontes do querer

Aqui ria uma fonte

*
( ... )



( ... )

Uma só voz bastava que relembrasse a História
das pedras milenares
heranças e oferendas espalhadas
para depois se encontrarem no orgulho
porque é assim que se fala do passado
o sangue e a esperança no estandarte
desfraldado de tanta fidalguia
numa idade entre a vida e a morte
que não ousa repetir o que já foi escrito

Aqui era um cipreste

*
Uma só voz bastava a sugerir a dureza
na força expressiva das pedras
dos montes e dos caminhos
lugares onde a verdade é rude
e outra gente a nossa gente
abre portas de lés-a-lés
e à beirinha do nada silencioso
vai mastigando sem gosto e sem pressa
o sabor sem fruto duma vida 
mascarada de todos os rigores

Aqui cresciam cardos

*  
Uma só voz bastava  para o fervor da prece
que avassala de fé o coração da terra
e se transforma em lágrima e emoção
sorriso puro de encantamento
 lábio trémulo de respeito e gratidão
quando os socalcos requebrados de incertezas
se desdobram em cascata de farturas
 jardim florido de inocências e alegrias
e a altivez se desnuda em humildade
nas palavras do salmo e no sentir da alma

Aqui ergueu-se um templo

*



                           Autora  - Aurora Simões de Matos




( Excerto do poema "Vozes de sol e chuva"

no livro VOZES DO DOURO ...Antologia de textos durienses
2003
Edição da Câmara Municipal de Lamego 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O TRABALHO DAS TECEDEIRAS


ARTISTAS DA TEIA E DO TEAR 

 

A madrugada desatava-se naquela casa de xisto, por sobre a arribada, ao lado do carreiro que, sempre a descer, ia dar à fonte.O carreiro a rasgar a arribada, íngreme e muito acidentado, pedregulhos de lousa espetados no chão à flor da terra, misturados com torgas velhas.

Desatada a madrugada, rompia o amanhecer e já Ti Maria Zeladora descia o carreiro e a arribada, os ossos tortos dos cansaços da vida. Enchia o jarro na fonte e regressava a subir, sempre a subir, até à casa de xisto, ao lado do carreiro.
Já tinha acendido as pinhas,o lume estava pegado, eram horas de ir fazendo o café.
A figura esguia, os cabelos brancos. Os dias já não lhe prometiam mais nada que as dores nos ossos alquebrados, as mãos deformadas ao peso daquela vida apenas reconfortada pelas maroteiras dos pequenitos. E o tear, sempre o tear, com aqueles sons batidos e estranhos que, no entanto, lhe eram tão familiares.

Na escrita  à distância deste reviver, talvez já um pouco distorcido, que vai enfraquecendo uma realidade longínqua, quero hoje sorrir de ternura por Ti Maria Zeladora, o seu esforço humilde, os olhos na criançada, os pés a controlar os batimentos do tear. Por entre o fumo da lenha verde, entre intervalos de sombra e de luz do sol a entrar na cozinha pela porta escancarada.



A um canto, desviado da lareira e dos tropeços da garotada, erguia-se o tear, com todo o seu aparato. E a dobadoira, a roca e o fuso. Nomes do seu dia-a-dia, como o caneleiro, o pente, a peanha, a queixa, a andorinha, o liço, o linhol.
Além de zeladora da nossa capela e catequista durante muitos anos, Ti Maria, que nunca casara e vivia agora com  a sobrinha Rosa que tinha um numeroso rancho de filhos, era uma das tecedeiras de Meã de Baixo.Naquele canto da cozinha, agarrada aos vários apetrechos da tecelagem do linho, da lã, ou das tiras de trapos, passava o dia a fiar, a dobar, a urdir, a tecer.

Conhecida pela extrema bondade e paciência, aos sobrinhos-netos dedicava todo o carinho, as suas preocupações, o seu tempo sem tempo. E eram tantos e todos tão pequeninos!
Deles se encarregava enquanto os pais trabalhavam na lavoura. Por eles haveria de tecer dias a fio, noites adentro, ao som daquele matraquear ritmado, tantas vezes à luz do candeeiro de petróleo ou do gasómetro.

A urdidura era sempre feita de linho, mais tarde também de algodão. Só a teia variava, conforme o tipo de trabalho.
Da teia de linho se teciam ramos de três metros, separados uns dos outros por marcações a ervinhas tintureiras.



Com esse linho haveriam de fazer-se lençóis, almofadas, toalhas de mesa, de rosto, de baptismo ou de altar, sudários para as mortalhas.Mas também camisas e outras roupas. E o enxoval de noiva, que condensava todo este conjunto de peças.
Do linho mais grosseiro, teciam-se os tomentos ou bordascos, para fazer os sacos que transportavam os cereais para o moinho, colchões, enxergões e travesseiros, panos de cozinha e outros acessórios do dia-a-dia.


Da teia de lã faziam-se os cobertores para aquecer a cama nas longas noites de Inverno e as colchas com repuxados de várias cores, utilizando lãs brancas tingidas com anilinas, onde se desenhavam padrões mais ou menos artísticos, segundo a habilidade e o gosto da tecedeira.
As mantas de tiras, feitas a partir de roupas usadas, eram utilizadas nas camas, sobre o cobertor de lã rente ao corpo.

A tecelagem, como outras actividades ligadas à agricultura e à pastorícia, entrou há alguns anos em ampla recessão, sendo hoje os trajes de linho ou de lã de ovelha apenas usados na exibição de agrupamentos folclóricos ou para exposição em museus etnogáficos.
Há apenas algumas décadas, não havia povoação nas redondezas que não tivesse vários teares em laboração, sempre a custo do esforço da mulher, que assim supria necessidades da casa, tecendo peças essenciais ao quotidiano e, ao trabalhar para fora, contribuía monetariamente para o equilíbrio da economia familiar.
Mas nem todos esses teares foram desmantelados. Ainda hoje há quem continue a tecer passadeiras de tiras no tear tradicional, guardado como relíquia de tempos irrepetíveis.

Como outras tecedeiras, Ti Maria Zeladora faleceu há muito.
O carreiro a rasgar a arribada, íngreme e acidentado, lá continua em direcção à fonte, a mesma fonte de sempre.
A casa de xisto, ao lado de carreiro, pouco mudou também. Mas já não se ouvem os choros e as travessuras da pequenada, nem se vislumbra o sorriso paciente de sua tia-avó. Com ela, acabaram os sons batidos do tear. Na Bouça, já não se fia, nem doba, nem urde, nem tece.

  
Guardadas em grandes arcas de madeira, as toalhas de linho antigo continuam a marcar, nos dias de hoje, a diferença e a qualidade dos bens de cada família. As colchas de lã repuxada continuam a ser usadas por gente de bom gosto sobre as camas, sobre os sofás, como carpetes, ou penduradas na parede.

São verdadeiros luxos saídos das mãos de tecedeiras que, como Ti Maria Zeladora, usaram o engenho, o carinho, a arte e a fantasia, atributos desde sempre reconhecidos às mulheres da beira-Paiva.


                                  Aurora Simões de Matos

Do livro " Contos de Xisto" - Edições Esgotadas, 2012

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A FORÇA DAS PALAVRAS (POEMA)


A FORÇA DAS PALAVRAS


Na memória das palavras
reinvento oásis de frescura
que falam de viagens interrompidas
por sismos em delírio
e ingenuidades
assombros e desassombros

As palavras compõem e desfazem
as palavras são sangue
e o sangue brota como a água
de entranhas que anunciam cores em frémito

Na cachoeira
solto palavras que condimentam sentidos



                                                                                            Aurora Simões de Matos

BANCO DE JARDIM


NO BANCO DAS MINHAS MEMÓRIAS


Não é fácil desprender-me das minhas memórias.
Em boa verdade, não chego a distinguir das minhas, as memórias daquele banco de jardim.
Com ele, vida fora, partilhei tantas e tantas emoções, que agora, à distância de vários tempos do tempo, nunca o dissocio de tudo o que ali vivenciei. Do mais calmo ao mais perturbador. Do mais feliz ao mais trágico. Na companhia buliçosa das crianças e das aves... ou no mais completo abandono da sorte e do mundo.

E hoje, ao som da música que enche os ares bem para além da minha presença, não sei bem porquê, veio-me à lembrança que, naquele banco de jardim, provei o meu primeiro beijo de amor. E que, muitos anos antes, ali saboreara o meu primeiro sorvete!



                      Aurora Simões de Matos
                                                                                                  
               

NA DANÇA DA VIDA


NA DANÇA DA VIDA...




... há quem se perca de sonho na VALSA de um estonteante salão da futilidade

... há quem se bata de convicção no  SAPATEADO  de um revoltado protesto de rua

... há quem se orgulhe de atitude no FLAMENGO de um caloroso estrado improvisado

... há quem se assuma de gesto no SAMBA de um louco argumento concertado

... há quem se liberte de angústias no FANDANGO de uma alegre animação burlesca 

... há quem se redima de excessos na CHULA de uma tradição serrana de milagre

... há quem desmaie de cansaço no CORRIDINHO de um voltear perdido em luta pelo  trabalho




Enfim...
não interessa a estrutura da dança. Mas sim que ELA nos faça reagir e que cada um encontre o palco onde possa brilhar!!!




                                                            Aurora Simões de Matos