FUNDAMENTAÇÃO DO PROJECTO "A Flor" de Almada Negreiros
Acerca do texto "A Flor" - "entrelinhas e riscos - alma da flor"
Parece-me pertinente começar por citar João Sousa quando refere o escritor, o ilustrador, em ALMADA NEGREIROS OU “A LÚCIDA INGENUIDADE”.
«As linhas trocadas com que Almada Negreiros tece o seu texto poético – “umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves”, tal como as linhas daquela criança a quem pediram para desenhar uma flor – constituem uma das grandes marcas de contrastaria do seu bem vincado recorte e da sua originalidade.
Linhas trocadas e por vezes contraditórias
Linhas trocadas e por vezes tão invulgarmente díspares:
Feitas de exacerbação ou serenidade, feitas cogitação grave ou graciosa alusão, feitas arrojo expressivo ou toque de mágica singeleza, transpostas em contundente sarcasmo ou em traços de íntima, e até comovente, confidencialidade.
São linhas que o admirável pintor (e desenhador) em parte omitia ou sintetizava, geometrizando.
São linhas que o poeta – porventura de criatividade mais liberta, mais existencialmente dúctil e autêntica, mais socialmente des-condicionada, mais desinibida por uma “linguagem sem chave gramatical” – não poderia, nem quereria, escapar. »
«A Invenção do Dia Claro obra considerada, pelo próprio, ser o seu - “Reaver a inocência” -, vai decisivamente investir numa poética que postula a recuperação de inocência perdida, o nascer-de-novo, o regresso à pureza e à espontaneidade do menino que ele , tão adultamente lúcido no entendimento de si mesmo, procurou nunca deixar de ser.
A reinvenção dessa inocência, desse dia claro a emergir dum reino de obscuridades, documenta-se, na composição: “A Flor” »
«Um texto de majestosa claridade estilística, onde se reflecte, por um lado, uma óbvia adesão à criatividade efectivamente inocente – não contaminada pelo conhecer, pela acumulação cultural e, muito menos, pelas conspurcações da “esperteza saloia” -, e onde se perfila, por outro, a consequente valorização do não-saber, a positividade de uma bem entendida “ignorância”. Um não-saber, uma ignorância que em termos de realização estética, longe de significar inconsciência e ausência de cultura, quer dizer capacidade de, no instante da aventura criadora, do fulgor inventivo, se ser capaz de superar o peso e os constrangimentos dessa cultura, ser capaz de construir um novo espaço de liberdade. »
O primeiro painel remete-nos para uma leitura de “(des)construção” do texto, através de registos foto/gráficos, facilitando-nos o entendimento de que é pela alquimia da palavra que a obra literária de Almada Negreiros está tão interligada à sua obra de artista plástico.
No texto poético “A Flor” ambas as artes, a plástica e a literária, estão tão estreitamente ligadas – linhas carregadas, leves – que traduzem o traço e a ideia de uma flor que a criança concebe na sua ingenuidade e vai construindo a seu modo.
Almada, através de um texto aparentemente singelo, consegue mostrar o seu processo de criação artística, tão linear que parece usar apenas traços elementares, tal como os representados pela criança.
No segundo painel, entre a palavra e o desenho, a partir do ponto, da linha, do risco, pela mão da criança somos levados a descobrir o aparentemente simples, mas complexo universo de Almada, fazendo surgir, só como ela sabe, desenhos lineares ou distorcidos…, que nos remetem para os princípios básicos da linguagem plástica, tão bem presentes nas ilustrações de Almada Negreiros.
Da forma mais simples e natural, a partir do texto, permiti-me facilitar a passagem da palavra ao desenho:
Pedindo a uma criança: “Desenha uma flor!”
Dando-lhe papel e lápis…
Foram o ponto de partida para a criação de desenhos em suportes tradicionais a que posteriormente se juntaram diversos materiais riscadores.
Com esta mostra, deixo o desafio: Sermos capazes de transportar o nosso olhar atento para o registo gráfico de cada criança, agora e aqui exposto, tentar olhar “entre as linhas” e tentar “correr o risco” de saber ler nas “entrelinhas e riscos” porque só assim, como as crianças, vamos poder sentir a essência de cada flor – a “alma da flor”.
Não poderia terminar sem prestar o meu agradecimento à “Professora Aurora Simões” e ao “Professor Victor Rebelo”, pelo voto de confiança ao entregarem-me a concepção desta actividade que, acima de tudo, a entendi como mais uma oportunidade de enriquecer o trabalho que tenho vindo a desenvolver, com as crianças, como educadora.
Um bem hajam, a todos os presentes!
Ricardina Maia