Raiz de Xisto

domingo, 25 de junho de 2017

"ODISSEIA DA ALMA", de Morgado Mbalate - Breve análise literária, por Aurora Simões de Matos


   MORGADO MBALATE, JOVEM POETA MOÇAMBICANO


                           
        Companhia inseparável, a belíssima Obra que o guindou ao respeito de seus conterrâneos



    NA  TVM  INTERNACIONAL, 
 PARA FALAR   DO  SEU LIVRO


                                                      "  ODISSEIA DA ALMA "
                                                       
                                                            ***




Breve análise, por Aurora Simões de Matos

( excerto)

( ... )
Sábio, o poeta. Numa juventude que respira legítimas ambições desocultadas, onde o cúmplice é agente de partilha. Numa inocência que se transfigura em minúsculas reflexões, onde o religioso é sinónimo e sujeito de religação. Numa disponibilidade que se expõe sem reservas, onde a sensibilidade criativa é inamovível referência de liberdade.
Manoel de Barros, um dos mais conhecidos e aclamados poetas brasileiros dos meios literários contemporâneos, será a sua mais forte influência.
A natureza e as coisas simples do quotidiano, fonte de inspiração primordial. O rio sujo e mestiço, sua poesia de eleição.Talvez que do mestre tenha herdado certo fascínio recorrente pelas palavras "pássaro", "passarinho", "ave", "garça", "gorjeio", "árvore" ou "terra", entre outras de significado tão abrangente quanto a sua especificidade. Num estilo que o define, enquanto jovem escritor, particularizando-lhe o pensamento, a ideia e a mensagem.
Sendo que a poesia é também arte, o impulso da criatividade emerge em Morgado Mbalate, num fluir de sensações em jogo de espelhos. Com a limpidez de um espírito poético de eleição, materializado em textos reveladores de afectos perenes. Sugestivas evocações, em belíssimas imagens, na sua expressão mais pura. Metáforas sinestésicas, na combinação perfeita de impressões sensoriais em profusão, com os sentimentos do poeta. A personificação, a prosopopeia, o animismo, a metonímia, em ritmos interiores geradores de uma dinâmica lírica, merecedora de toda a atenção.
Ler devagar a Obra deste autor é entrar na grande festa dos sentidos que os tons intensos de África nos sugerem. As cores, os sons, os cheiros, os sabores, maciezas aveludadas e rugosas asperezas. A pujança de uma natureza sempre viva, em harmonias que nos envolvem e acrescentam.
Os sonhos de uma moçambicanidade adulta, com coração de criança. A realidade de mãos dadas com a lenda. O preconceito de mãos dadas com a (in)diferença. A vida dura das gentes, plasmada em alegrias e esperanças redentoras.
Em toda a sua escrita, Morgado Mbalate por inteiro. Mesmo quando afirma: «Eu não sou uma semente de luz...», o poeta subscreve a importância da poesia no crescimento dos Povos.

                                                * Aurora Simões de Matos

Comentários
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quinta-feira, 22 de junho de 2017

TODOS AO PALCO !!!

***  NA DANÇA DA VIDA  ***





... há quem se perca de sonho na VALSA de um estonteante salão da futilidade

... há quem se bata de convicção no  SAPATEADO  de um revoltado protesto de rua

... há quem se orgulhe de atitude no FLAMENGO de um caloroso estrado seguro

... há quem se assuma de gesto no SAMBA de um louco argumento concertado

... há quem se liberte de angústias no  FANDANGO  de uma alegre animação burlesca

... há quem se redima de excessos na CHULA de uma contida tradição serrana 

... há quem desmaie de cansaço no CORRIDINHO de um voltear perdido  em luta pelo trabalho




Enfim...
não interessa a estrutura da dança. Mas sim que ELA nos faça reagir e que cada um encontre o palco onde possa brilhar!!!




                                                            Aurora Simões de Matos

Publicada por raiz de xisto à(s) 05:13 Sem comentários:
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segunda-feira, 19 de junho de 2017

QUE MENSAGEM INDECIFRÁVEL?!


       INCÊNDIOS...

O ALVOROÇO 
 DA NATUREZA E DAS GENTES




                                                                          


Não estava lá, mas vi. E senti, como muitos de nós. O coração de Portugal a sangrar de pânico, feridas dilaceradas em chama.

Vi alastrar o fumo, vi alastrar o fogo, vi alastrar o grito doloroso da terra, em ecos duma linguagem estranha, no crepitar estalido das árvores agonizantes. Das casas agonizantes. Das gentes agonizantes.

Vi alastrar o fogo. E os rostos queimados das pedras faziam lembrar máscaras de onde caíam lágrimas. De onde caíam gritos.Lágrimas secas de quem já nada sentia, tanta a dor. Gritos de alarme de quem já nada pedia, tanta a raiva.

Vi a verdura ceder, apagando-se na intensidade da luz, entre a vida e a morte.

Vi os pinheiros ruírem do pleno gozo da força, envoltos nas sôfregas labaredas que os consumiam. Presos ainda à condição da sua verticalidade, num simbolismo que já nada dizia.

Vi pássaros aflitos fugirem dos seus cumes, soltando assobios roucos de pasmo.

Vi  flores e  frutos humildes com ar temeroso, à espera do funesto instante. 

Vi crianças agarradas à memória de um pai, gritando a dor de um país. Vi jovens a cuspir de desespero, perante o retrato de um amigo que partiu sem despedida. Vi mães dobradas até ao chão, num espasmo sem redenção.




                                                              

Vi a densa e pesada muralha de calor e morte esmagar o ventre feminino da terra.

Vi o medo e a revolta das gentes, retinas encharcadas no alvoroço duma guerra perdida, pálpebras pesadas de tanta insónia. Vi a vida ceder à morte que lhe esmagava o sentido, a razão e a dignidade.


E senti o desgosto turvo da impotência. Da penosa impotência, clamando por um porquê.

                                                                        

Que sentimentos albergará o coração da Natureza, que sugere a vingança dos sentidos sobre a beleza?

Que lições farão sentido, quando se realizam pelo extremo fatal da vida?

Que mensagem esta, indecifrável, cruel e injusta? Porquê tantos inocentes a serem imolados num campo de batalha sem armas que lhes acudam, sem fugas que lhes valham?

Não há pretexto humano que justifique os contornos de tanta dor!

                                                                    

Não estava lá, mas vi. Vi tudo à mercê do nada. E os meus olhos, em coro com o clamor das retinas encharcadas no alvoroço das gentes e com o silêncio pesado das fragas mascaradas de negro, choraram lágrimas de pasmo. Lágrimas imerecidas. Lágrimas secas de quem já nada sentia, tanta a dor.

Vi tudo à mercê do nada. E, na palma da minha mão fechada com muita força, quis encerrar um tempo de angústia de onde me escorreram palavras sem tino.

Que Deus me perdoe!



Aurora Simões de Matos

                                                                       

(Imagens da net)
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segunda-feira, 12 de junho de 2017

GRANDE INTERVENÇÃO DO REV. P. DOUTOR JOÃO ANTÓNIO TEIXEIRA, REITOR DO SANTUÁRIO NOSSA SRA. DOS REMÉDIOS, NA " TERTÚLIA ARTES E LETRAS" DE 20/ 05/ 2017, NO MUSEU DIOCESANO DE LAMEGO

        TEMA DA TERTÚLIA:
"ARTE SACRA - AS VÁRIAS LINGUAGENS DE DEUS"

***
O musical sagrado e o sagrado musical


Padre Doutor João António Teixeira


1. A título de preâmbulo, gostaria de começar esta minha intervenção com uma (dupla) confissão: 1) sempre gostei muito de música, mas 2) nunca consegui tocar qualquer instrumento musical. Isto mostra, desde logo, que a vontade também tem os seus limites. E demonstra igualmente que até os ditos dos maiores sábios também contêm as suas falhas.

Penso, concretamente, na conhecida máxima de Albert Einstein: «Se podes imaginar, também podes conseguir». No meu caso, imaginei que conseguia, mas não consegui o que imaginei. Nos alvores da minha vida, imaginei que conseguiria tocar algum instrumento musical. Além de imaginar, tentei, insisti, só que não fui capaz de conseguir.


2. Não sendo pois um executante, tenho procurado ser um modesto apreciador e consumidor. Sem ser pretensioso, queria dizer-lhes — outra confissão — que comigo viaja sempre alguma composição de Bach. As suas peças servem não só de fruição, mas também — e sobretudo — de meditação. A sua sonoridade liberta-nos até quando mais nos prende.

Não é por acaso que Bach é apontado como uma espécie de «quinto evangelista», tal é a fundura teológica e a densidade espiritual da sua obra. Daí que não falte quem subtilmente observe que o apelido está desajustado à pessoa. Bach, em alemão, significa «ribeiro», quando o caudal da sua obra é torrencialmente oceânico.



3. Significativamente, Bach colocava no cimo das suas composições a sigla «J.J.», que era uma súplica: «Jesu, juva», isto é, «Jesus, ajuda-me!»[1]. E terminava as suas peças com outra sigla: «S.D.G.», que indica «Soli Deo Gloria». A sua obra foi sempre uma interacção fecunda entre a fé e a música. A música era a sua forma de viver a fé. Não admira, então, que Emil Cioran tenha notado que, «quando escutamos Bach, vemos nascer Deus. Depois de uma oratória, uma cantata ou uma Paixão, Deus tem de existir. E pensar que tantos teólogos e filósofos desperdiçaram noites e dias a procurar provas da existência de Deus, esquecendo a única!»

É claro que a música não é a única prova de que Deus existe, mas o certo é que, pela música, foram muitos os que chegaram a Deus. Basta olhar para o caso do filósofo espanhol Manuel Garcia Morente, activista republicano e anticlerical ao tempo da Guerra Civil de 1936 a 1939. Não foi nenhum intelectual católico que o convenceu; foi a música que o converteu. Ele próprio confessa que o momento decisivo para a sua conversão foi a escuta de «L’enfance de Jésus», de Hector Berlioz.



[1] Com luminosa simplicidade, o compositor Joseph Haydn confessava: «Quando estou a compor uma obra e sinto que me foge a inspiração, peço no Terço e rezo-o. Logo me vêm à mente as melodias em caudais e, por vezes, com tanta abundância que nem tenho possibilidade de as notar»!








4. De tudo isto podemos depreender que a música, em si mesma, contém uma sacralidade congénita. E esta sacralidade não se manifesta apenas quando a música fala de Deus. Além do divino, há, segundo os estudiosos, três fontes de inspiração para a música: o amor, a dor e a alegria. Alguém negará que o amor é sagrado, que a dor é sagrada e que a alegria é sagrada? E alguém contestará que a experiência de Deus ocorre especialmente na experiência do amor, na experiência da dor e na experiência da alegria?

Por outro lado, a música especificamente sacra, ao invocar Deus, invoca-O, quase sempre, em ligação com a dor, com o amor ou com a alegria. Compreende-se, assim, que a música sacra seja omni-abrangente, de pendor panenteísta (não panteísta). Ou seja, a música mostra como Deus toca em tudo e como tudo (nos) leva a tocar em Deus. A esta luz, percebe-se também que a música sacra esteja presente muito para lá do espaço sagrado. Dou um exemplo, de todos bem conhecido. O hino oficial da Liga dos Campeões é a adaptação — feita por Tony Britten, em 1992 — de um belíssimo exemplar da música sacra. Trata-se do hino «Sadoc, o sacerdote», composto por um alemão (Handel) para a coroação de um rei inglês (Jorge II) a 11 de Outubro de 1727. A letra inspira-se na passagem do Primeiro Livro dos Reis 1, 38-40, sobre a unção do Rei Salomão. Foi David que designou Sadoc para ungir Salomão[1].



5. Esta presença da música sacra para lá do espaço estritamente sagrado tem outras expressões sintomáticas. Numa altura em que nas igrejas predomina uma música sacra ligeira, um dos maiores redutos da música sacra profunda acaba por ser o espaço público. De facto, se quisermos ouvir música sacra de qualidade, temos de nos deslocar à Casa da Música, ao Centro Cultural de Belém. Ou, então, temos de sintonizar a RTP2 ou a Antena 2. Às vezes, chego a pensar que emissora católica é a Antena 2, tal é a quantidade de música sacra que (felizmente) emite. Curiosamente, nas igrejas a música sacra profunda é mais oferecida em concertos do que na liturgia.

Esta verificação não envolve qualquer desprimor pela música sacra mais ligeira, que actualmente é costume ouvir nas celebrações. O conteúdo sacro mantém-se nas letras, embora o ritmo não seja muito diferente do que se ouve nos espectáculos de diversão. Não há dúvida de que esta música sacra ligeira tenta favorecer a prossecução de dois objectivos estimáveis: a adaptação ao nosso tempo e a participação da assembleia. No fundo, há uma certa complementaridade. A música sacra ligeira procura agradar às pessoas com o desejo de as atrair para Deus. Já a música sacra profunda procura louvar a Deus com o propósito de O levar às pessoas. Sucede que, para nosso espanto, as igrejas estavam mais cheias quando a música que nelas predominava não estava centrada naqueles que as frequentavam. As pessoas podiam não entender o que escutavam, mas acabavam por se deixar conduzir pelo que ouviam.



6. Acresce que, na música sacra profunda, a dimensão sacra não está só nas letras, que muitos nem sequer conseguem compreender. Estende-se, desde logo, à melodia, à cadência, ao aprumo. Mais do que adaptar a mensagem às pessoas, a música sacra profunda procura cativar as pessoas para a mensagem. Em tal música ressoa, mais do que a perícia, a espiritualidade. A música sacra profunda não vem de fora para dentro, mas de dentro para fora.

Enquanto a música sacra ligeira sabe muito ao tempo em que vivemos, a música sacra profunda faz-nos saborear sobretudo a eternidade que somos chamados a viver. A música sacra ligeira estimula mais a intervenção do que a meditação. Com a sobreposição do ritmo em relação à melodia, a tendência, sem darmos por isso, é mais para mexer o corpo do que para mover a alma. A pergunta que surge não pode ser senão esta: se nos centramos demasiado em nós, que condições criamos para a abertura, para a mudança, para o crescimento e para a superação?



7. O certo é que, de uma forma mais profunda ou de um modo mais ligeiro, a sacralidade da música continua bem presente na nossa vida. E, depois de uma fase propensa à desconstrução de tudo o que vinha do passado, parece que entramos numa época mais receptiva à reconstrução de tudo o que é perene. E o perene, embora datado, não vale só para um tempo; é válido para todo o tempo. O perene não perde actualidade. As grandes composições de música sacra continuam a ser bastante apreciadas, mesmo que nem sempre sejam muito reproduzidas. De resto, não foi a outra música que serviu de base à música sacra; como está documentado, foi a música sacra que deu origem a muita da outra música. Por algum motivo, a palavra «cultura» provém da mesma raiz da palavra «culto». Ambas significam «cultivar», concretamente, «cultivar o espírito». E, como sabemos, o «culto» foi, ao longo dos séculos, um dos principais «produtores» de cultura.

Queria ressalvar que, dentro da música sacra profunda, não incluo apenas a música erudita; incluo também a música mais simples. Também na música, a simplicidade está cheia de profundidade. Como não valorizar o chamado «cantochão», que significa precisamente «canto simples»? No cantochão cabem o canto moçárabe, o canto ambrosiano e sobretudo o gregoriano. De uma forma despojada, a mesma melodia é aplicada a vários textos, entoados, em alternância, por um solista e por uma assembleia.



8. É no âmbito desta música sacra simples que emerge a música sacra popular, pela qual a alma do povo se vai elevando até Deus. De facto, não deixa de ser espantoso que, apesar da extensa produção musical à volta de Fátima, a composição mais famosa e identificadora do Santuário continue a ser o «Treze de Maio». E, na verdade, o segredo da fama — e da beleza — deste cântico está, sem dúvida, na sua sublime simplicidade. O sortilégio do «Treze de Maio» é que leva imediatamente o povo até Fátima e traz instantaneamente Fátima até ao povo.

É com o «Treze de Maio» que o povo se move até Fátima e se comove com Fátima. E não se pense que esta simplicidade foi espontânea. Diria que o «Treze de Maio» nasceu de uma simplicidade intencional, procurada. As pessoas que o fizeram nascer eram bastante dotadas. A letra é do célebre poeta Afonso Lopes Vieira, que a assinou como um servita, e a música é de um sacerdote redentorista, o Padre José Maria Gonçalves. A primeira partitura mostra que se trata de uma composição para órgão e (apenas) uma voz. As harmonizações que lhe foram introduzidas são muito posteriores.



9. Na sua expressão vocal ou instrumental, a música está indelevelmente ligada à vivência da fé. Dá-lhe mesmo um acréscimo de beleza e um suplemento de encanto. Não foi em vão que Santo Agostinho terá afirmado que «quem bem canta duas vezes reza». Aliás, é curioso notar que até o nome do local onde vive o Papa remete para a música. Com efeito e segundo alguns estudiosos, entre as possíveis origens etimológicas de «Vaticano», encontramos «vate»+«cano», ou seja, «canto» do «vate», do «adivinho» ou do «poeta».

Aliás, esta breve incursão pela etimologia permitir-nos-á alargar a vinculação congénita que existe entre a música e o divino. Há quem diga que, etimologicamente, a palavra «música» vem de «musa». Como sabemos, na mitologia grega, as musas eram as deusas da arte e da ciência. Filhas de Zeus (rei dos deuses) e de Mnemosine (deusa da memória), habituaram-se a cantar em coro. E, de facto, são muitas as alusões ao Céu como um coro ou um conjunto de coros. Há quem colija nada menos do que nove coros celestes: anjos, arcanjos, principados, potestades, virtudes, dominações, tronos, querubins e serafins.



10. Se é certo que o sagrado está presente na música, também é verdade que a música não está ausente do sagrado. A apresentação mais sublime do sagrado costuma ser feita de forma musical. De resto, na imaginativa leitura que Elie Wiesel faz da visão que o patriarca Jacob teve em Betel, a escada que ligava a Terra e o Céu (Gén 28, 12) nunca foi retirada. Essa escada tornou-se escala. Trata-se de uma escala musical cujas notas permitem a Deus descer à Terra para nos falar e permitem-nos a nós subir ao Céu para O alcançar. É certamente de uma forma musical que, segundo o Livro dos Salmos, «os Céus proclamam a glória de Deus» (Sal 19, 1). É igualmente em forma de cântico que, para Isaías, os coros celestiais, clamam «Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do Universo» (Is 6, 3). Aliás, os quatro seres vivos com seis asas, referidos no Apocalipse, cantam o mesmo, de dia e de noite (cf. Ap 4, 8). Não espanta, por isso, que a iconografia represente frequentemente os anjos formando um coro — ou uma orquestra — tocando instrumentos musicais. Para muitos artistas, os anjos são músicos instrumentistas, aparecendo a tocar viola, trompete, alaúde ou harpa.

O Céu é, ele próprio, descrito frequentemente como uma orquestra ou um conjunto de coros. No primeiro dos sete cânticos do Apocalipse, são muitos os anjos, que juntamente com quatro seres vivos e 24 anciãos, cantam continuamente diante do trono do Cordeiro (cf. Ap 4, 8-11; 5, 8-10). Curiosamente, aqui bem perto de nós, o tecto do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, que pretende figurar o Céu (como se vê pelo tom azulado), apresenta dois conjuntos de instrumentos musicais. Ou seja, para o autor, Bártolo Pires Zineu, o Céu é uma orquestra que entoa louvores a Deus e à Virgem Maria.



11. Se repararmos bem, a própria criação do mundo é contada como um acontecimento sonoro e, nessa medida, habitado por uma subtil musicalidade. O Génesis introduz cada acto criador pela fórmula «Deus disse» (cf. Gén 1, 3). E o prólogo do Evangelho de São João assinala que, no princípio, tudo foi feito pela Palavra (cf. Jo 1, 3).  Enquanto o Criador coloca os fundamentos do cosmos, «as estrelas da manhã cantam em coro e todos os filhos de Deus [isto é, os anjos] louvam, a grande voz, a Sua glória» (cf. Jb 38, 6-7). É por isso que, como nota Gianfranco Ravasi, a criação é concebida como uma espécie de uma música que está ininterruptamente disponível à escuta humana.

A música, para a Bíblia, perpassa toda a história humana, ressaltando-lhe os traços divinos. Pensemos, por exemplo, no hino de Moisés e do povo durante a travessia do Mar Vermelho (cf. Êx 15, 1-21) ou no cântico final do Livro de Judite (capítulo 15), ambos acompanhados com instrumentos musicais.



12. E que dizer do Livro dos Salmos? Os 150 Salmos, no fundo, são 150 cânticos. Aliás, a palavra «Salmo» vem do grego «Psalmós», que deriva do verbo «Psállein», que significa «tocar um instrumento de corda», nomeadamente a harpa e a cítara. Ele traduz o hebraico «mizmôr» (que aparece como título de um Salmo por 57 vezes) e que designa um cântico acompanhado por instrumentos de cordas. O conjunto dos Salmos é, desde o século VI, denominado «Saltério», termo que também indica um instrumento de música.

Importará ter presente que é dos Salmos que nos vem o Aleluia, um cântico de louvor a Deus. E é por isso que, como preceituam as normas (cf. IGMR 63), se o Aleluia não for cantado, é melhor ser omitido. O Aleluia nasceu para ser cantado. Ele deriva do «Hallel» ou «Hillel», cujo início se encontra nos Salmos 113 a 118. Eram cantados nas grandes festas judaicas, mormente na Páscoa. Como nos diz São Mateus, Jesus também os cantou no fim da Última Ceia (cf. Mt 26, 30)[2].



13. Quando Jesus nasceu, o Evangelho assinala que uma «multidão do exército celeste» (Lc 2, 13) apareceu aos pastores, dizendo, certamente em coro: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados» (Lc 2, 14). Segundo muitas figurações artísticas, os anjos tocam no nascimento de Jesus, muitas vezes sentados aos pés da Virgem Maria. Os anjos, com asas, formam pequenas orquestras ou um pequeno coro.

O apelo do salmista — «cantai hinos com arte» (Sal 47, 8 — foi acolhido pelo Cristianismo desde os começos. Basta pensar no «Magnificat», cantado por Maria (cf. Lc 1, 46-55), e no «Benedictus», entoado por Zacarias (cf. Lc 1, 68-79). Não espanta, pois, que São Paulo exorte os cristãos para que cantem a Deus com salmos, hinos e cânticos inspirados (cf. Col 3, 16-17; cf. Ef 5, 18-19). Mas os cristãos não se ficaram por aqui. A convocação dos crentes para os actos litúrgicos era feita através de um sinal a que chamaram sino (que significa «sinal»). Para alguns peritos de «marketing», esta é uma estratégia muito inspiradora. Alexis Periscinoto assinala que «a primeira ferramenta de “marketing” foi o sino. Quando ele tocava, não só atingia 90% dos habitantes de uma cidade, mas mudava o seu comportamento pessoal». O sino era visto como um sinal divino. Funcionava como uma convocação para a oração. Criava um clima diferente, fomentando a união de toda a gente.



14. Tudo isto mostra como, no fundo, Deus é música. Deus é harmonia. Deus é a conjugação cadenciada entre a diferença e a unidade. Há uma subtil musicalidade no mistério da Trindade. As pessoas divinas são como diferentes notas que compõem uma mesma melodia. Elas formam uma polifonia que nos visita em permanente sinfonia. Se, como disse Aristóteles, «a música é o princípio de todos os encantos da vida», podemos inferir que a musicalidade divina há-de ser a pauta para todos os passos da nossa existência. Cada passo humano é um com-passo divino. O compasso de Deus connosco é sempre um compasso ternário, executado de um modo sempre extraordinário. Deus ama-nos desde antes do tempo, acompanha-nos em todo o tempo e acolhe-nos para lá do próprio tempo.

Na experiência de Deus está o ápice da harmonia e o segredo da autêntica alegria. É por isso que todo o músico acaba por ser um teólogo e é por isso que há muitos teólogos que também são músicos. Basta pensar no Papa Bento XVI, pianista de reconhecidos méritos, a quem alguns chamavam o «Mozart da Teologia». É que na música resplandece, além da verdade sobre Deus, a bondade de Deus e a beleza que é Deus. O então cardeal Joseph Ratzinger achava até que a beleza de Deus sobressai mais nas músicas de Bach e de Mozart do que em muitas homilias. Mas a música não pertence só à estética; também inspira a ética. É que a prece dos lábios só faz sentido se for acompanhada com a coerência da vida. A este respeito, é espantosa a advertência de Cassiodoro, no século IV: «Se continuarmos a cometer injustiça, Deus deixar-nos-á sem música». Isto significa que o pior castigo para o pior pecado é ficarmos privados de música. Ou seja, é ficarmos privados da harmonia de uma existência onde todos são necessários e cada um é irrepetível. Na «pauta» da vida, Deus é o «sol maior» que não deixa ninguém na obscuridade. É pela solidariedade que maior tributo prestaremos à divindade!



Lamego, 20 de Maio de 2017
               P. João António Teixeira


[1] Já agora, será interessante notar que Sadoc é nome de sete personalidades bíblicas, uma das quais é referida por São Mateus como antepassado de Jesus (cf. Mt 1, 14).

[2] Os Salmos do Hallel dividem-se em: «pequeno Hallell» (Salmos 113-118), «grande Hallel» (Salmo 135) e «Hallel final» (Salmo 150).

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https://youtu.be/toBZLOQULfU

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terça-feira, 6 de junho de 2017

IMAGENS DO PORTUGAL PROFUNDO


                                               Foto de Armando Jorge


                                               A IMAGEM DO AMOR
Viveram alegrias e dores, ganhos e perdas, alguns ócios e muitas labutas.
Construíram um mundo difícil mas honesto, à medida da sua pouca ambição. E nele viram crescer filhos e netos. Descalços na terra batida. Vestidos na estopa de linho e no burel de grosseiro aconchego. Alimentados na frescura de águas puras e verdes campos de suores eternos.
Como sempre viveram em crise, mal se apercebem de que o mundo mudou.
Nunca pediram e nunca esperaram nada de ninguém, pois se habituaram a subsistir pelo próprio esforço.
Agora, quase no limite da vida, feitas as contas...não devem nada aos outros e estão tranquilos.
.

São a imagem da CUMPLICIDADE, DA PARTILHA DO PÃO E DAS EMOÇÕES, DA PAZ DE ESPÍRITO E DO AMOR.
SÃO ALGUNS DOS MUITOS HERÓIS DO NOSSO PORTUGAL PROFUNDO...que, apesar de tudo, ainda têm vontade de sorrir, de namorar e de confiar...
E a mim, que os conheço de perto, ao vê-los tão verdadeiramente simples e honestos, apetece-me perguntar-lhes:
- Que Santo vos fez o milagre de TANTA PAZ, TANTA RESIGNAÇÃO E TANTO AMOR?!

                                                             * Aurora Simões de Matos
Publicada por raiz de xisto à(s) 14:30 Sem comentários:
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quarta-feira, 31 de maio de 2017

NOVO LIVRO SOBRE O MONTEMURO - TEXTO DE AURORA SIMÕES DE MATOS





~~~ HONRA E ORGULHO EM COAUTORIA ~~~

Com Prefácio do Senhor Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa, acaba de ser publicada mais uma obra de que sou coautora. E que é, sem dúvida alguma, com cerca de 400 páginas de profundo saber partilhado, um dos mais importantes livros alguma vez escrito sobre o Montemuro. 


Uma honra fazer parte do leque dos treze autores convidados (várias teses de doutoramento sobre esta região) com que a Dra. Pilar Dias, com raízes parentais em Picão e coordenadora de tão ambicioso projeto, a partir da exigência que lhe conhecemos, pôde contar. Para, cada um ao seu estilo e especificidade no conhecimento da vasta terra montemurana, dar o seu melhor, em registos documentais que certamente ficarão para a História da nossa Serra. Sob o ponto de vista geográfico, histórico, social, económico, etnográfico. A fauna, a flora, a paisagem natural e a humana. Tradições que aqui afloram, em ambiente cultural de enorme alcance, na missão sublime da preservação incólume das raízes.

O tema que me foi destinado - " A ESCOLA DO MONTEMURO - MEIO SÉCULO DE DESAFIOS" foi desenvolvido em 17 páginas de um testemunho vivo, na qualidade de professora, autora, estudiosa e apaixonada pela cultura tradicional deste chão natal que me é sangue.
Muito obrigada,Dra.  Pilar Dias, por me ter incluído nas suas escolhas.

                                                                    * Aurora Simões de Matos


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         A ESCOLA DO MONTEMURO - MEIO SÉCULO DE DESAFIOS
Estávamos na década de 1950. Ainda a distância considerável, viria a  denominada "DEMOCRATIZAÇÃO DO ENSINO". Tão desejada pelos politizados e naturalmente tão utópica para a grande maioria da população portuguesa. Uma enorme percentagem dos habitantes do Montemuro seguia a par com a situação de outras regiões do País, onde o isolamento ditava o elevadíssimo grau de analfabetismo, que nos colocava na cauda de uma Europa cada vez mais culta.
Por aquele tempo, o maior sonho de qualquer chefe de família com os recursos económicos que lhe permitissem uma maior visão sobre o mundo, era ter um filho doutor de leis ou uma filha mestre-escola. Assim, e sendo que meu irmão mais velho era já advogado, nosso pai decidiu que eu seria professora.
Quando chegou a altura, internou-me num bom colégio de meninas em Viseu, de onde passei mais tarde, em regime de semi-internato, para a frequência da ESCOLA DO MAGISTÉRIO PRIMÁRIO. E aos dezoito anos, tinha na mão o diploma que me conferia habilitações para exercer a docência, em qualquer estabelecimento da então chamada Instrução Primária.
A esse natural orgulho pela compensação do meu esforço, aliava-se o de quem tinha encontrado a sua vocação profissional e ainda a alegria de meu pai estampada no rosto e no olhar quando, para amigos, conhecidos e desconhecidos, proferia a solene informação: «Tenho uma filha empregada do Estado.»
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Por tudo  isso, a responsabilidade da menina-mulher profissional era redobrada quando, a sete de outubro de 1960, me dirigi ao primeiro emprego. Por sinal e por sorte, na própria aldeia onde nasci e que, nos últimos anos, usufruíra já dos serviços de uma regente escolar. A quem fora, como a muitas outras por esse Portugal adiante, além da quarta classe obrigatória por lei, ministrado um curso intensivo de algumas semanas, que a habilitava para a prática pedagógica com crianças. Para trás tinha ficado mais um dos postos de ensino que, poucas décadas atrás, exigia aos seus profissionais apenas que soubessem ler e escrever.
Era eu, portanto, na história da minha terra e ao seu derredor, a primeira diplomada a exercer a atividade de professora. O que, na opinião dos aldeões, justificava a cem por cento a grande descarga de foguetes que rebentou no ar quando, um pouco antes das nove horas previstas no horário, cheguei à porta da escola.
Minha mãe, que me acompanhava para assistir à festa, não dominou as lágrimas e, livremente, juntou-as ao pranto  emocionado de várias dezenas de homens e mulheres que, daquele modo exuberantemente ruidoso e simultaneamente intimista no carinho, manifestavam o seu orgulho e a sua expectativa.
Uma professora diplomada e para mais filha da terra! Poderia lá haver maior causa de alegria?! E certamente fora por esse motivo que meu pai, mais tarde, trouxe a notícia que dava conta da surpresa, do espanto e das felicitações dos outros povos em volta, acordados do torpor matinal pelo estralejar festivo da minha aldeia.
Mas o encanto maior tive-o eu, não por via do foguetório, nem pelas lágrimas sentidas daquela gente boa que tanto esperava de mim. A emoção mais forte  daquele primeiro dia com as crianças esteve no momento em que elas, alegremente, me brindaram com um afinado coro de vozes:
- Bom  dia, senhora professora!!!
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A escola era uma casa arrendada a particular, que a tinha devoluta e que servira já ao trabalho da tal regente. Possuía uma sala e, separados por taipal de madeira, dois quartinhos minúsculos e sem luz natural. 
Através da pequena sacada e das duas janelas apertadas, entrava o sol possível, logo pela manhã. E o ruído dos raríssimos carros que passavam na estrada. Mesmo ao descer das escaleiras e a seguir a um pequeno logradouro, que servia de apoio aos tempos de recreio. Sem a presença de qualquer funcionária que ali ajudasse a controlar as crianças, que brincavam ao lado da via, na ausência de  qualquer proteção. Essa seria também, logicamente, função da mestra.
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Não tinha eletricidade, nem água por perto. Obviamente que à semelhança da grande maioria das escolas, espalhadas pela serra do Montemuro e pelo vale do Paiva. Quer  funcionassem em espaços privados, quer pertencessem aos vistosos edifícios do Plano dos Centenários, que o Estado Novo mandara edificar, na década de quarenta. Em comemoração de duas importantes datas para a Nação Portuguesa: a da independência do Reino, em 1140,  e a da sua restauração, em 1640. 
 Não havia casa de banho. Nem espaço onde as crianças pudessem aliviar-se. Teriam de procurar o monte mais próximo, ou a berma de um caminho. Nesse aspeto, a professora sempre gozava da boa vontade de uma vizinha que, com marido jeitoso para a carpintaria, tinha construído, toda em madeira e ao lado da sua habitação, aquilo a que chamavam uma "sagreta". Onde não se usava água e de que se aproveitava o estrume para adubar a terra de cultivo.
 Bem vistas as coisas, e à luz da condição atual das necessidades básicas, não tinha quase nada, a minha escola. A bem dizer, nem carteiras suficientes para sentar os 67 alunos que a frequentavam naquele ano. Isso mesmo, senhor leitor. Percebeu bem, mas vou escrever por extenso. Sessenta e sete alunos das quatro classes. E vinte carteiras. O que, feitas as contas, obrigava a que os mais pequenos se sentassem aos quatro e os maiores aos três, em cada uma daquelas estruturas de madeira, com assento agarrado ao tampo inclinado. Possuindo na parte superior um estreito apoio horizontal, com dois buracos onde se enfiavam os tinteiros de louça branca.
 Bonito! - pensava eu, enquanto os dispunha nos seus lugares para, de seguida, rezarmos de pé a primeira oração em conjunto. A primeira de muitas.

                   Modelo de sala de aula do Estado Novo  ( imagem google)

Na parede branca da frente, um grande crucifixo e, uma de cada lado, as fotografias do Presidente da República, Almirante Américo Tomás e do Chefe do Governo, Doutor Oliveira Salazar. Suspenso logo abaixo, o grande quadro preto, onde se escrevia a giz branco. E se limpava com esponja ou pano húmido, para não levantar pó.  Nas paredes laterais, o mapa de Portugal Continental e o das Províncias Ultramarinas. De apoio ao estudo da situação, limites, divisão administrativa, cidades e vilas, rios e seus afluentes, serras e montes, caminhos de ferro e seus ramais, produções e indústrias nas várias regiões dos territórios em causa. E um Mapa-Mundo. E um outro com imagens do corpo humano, para estudo dos seus órgãos e funções.
 O estrado a demarcar posições e, sobre ele, uma secretária e uma cadeira. Sobre a mesa, repousava a temida régua de madeira grossa. Que, pelos vistos, fazia parte do mobiliário. Ou  ali fora, simpaticamente deixada por alguém, como instrumento  indispensável ao bom funcionamento  dos trabalhos! Ao lado, e em jeito de biblioteca, não mais que meia dúzia de livros, num pequeno armário de duas portas envidraçadas. Com protagonismo para as publicações que falavam dos valores da família, da religião católica, dos feitos dos nossos heróis coletivos. E do Ultramar Português. Não havia ainda, por aqueles anos, literatura infantil disponível ao acesso  de todas as crianças. Nada disso. Esse mimo propagar-se-ia bastante tempo depois.
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Quase nada. E no entanto, quase tudo. A minha vocação, à prova do meu esforço. A minha juventude, à prova da minha alegria. A surpresa  confusa, à prova de um raciocínio lógico e frio. E a inocência rebelde dos sessenta e sete, à prova da sua capacidade de concentração em coisas novas, trazidas pela senhora professora. Diplomada, como tanto tinham ouvido repetir nos últimos dias.
Quase tudo. E, a sobressair de tanta fartura de emoções, o luxo de uma estrada à porta. Que fazia a enorme diferença entre a minha escola e a da maioria das colegas, espalhadas pelo mundo da nossa  serra. Muitas em lugares recônditos onde, em alguns casos, apenas o burro seria usado como transporte possível, por carreirinhos entre mato, à flor da terra. 
Pobres colegas, companheiras de sonhos e crescimentos! - pensava eu. A grande maioria, no feminino. Que, por aqueles anos, poucos eram os homens que se aventuravam no ensino. Cá para mim, penso que muito por via de uma atitude com laivos do preconceituoso machismo vigente.  Vivia-se uma cultura civilizacional, que  ditava a   educação para a maternidade das raparigas. E a figura da professora tinha muito de maternal. Onde já se vira um homem  trabalhar com  "canalha" e  limpar o ranho aos filhos dos outros? Os poucos professores homens disponíveis eram colocados apenas em escolas de turmas masculinas, onde as havia. Em localidades de maiores agregados populacionais. Onde já se vira um homem ensinar, aos sábados, as meninas a bordar e a coser roupa, na aula de lavores? E não nos esqueçamos que a coeducação em turmas mistas era considerada, em última análise, um mal menor de recurso economicista. Mas que nunca um professor homem poderia, por lei, lecionar nessas condições.
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Sim, nesse tempo e por mais uns bons anos, a escola abria aos sábados de manhã. Era o dia das atividades ligadas à Mocidade Portuguesa. O que então se chamava de Educação Cívica. A  formação para a cidadania, como se diria nos dias de hoje. Era a manhã destinada à Moral e Religião, às limpezas, à costura e bordados para as raparigas, aos trabalhos manuais para os rapazes. E  às cantorias. Que começavam com o Hino Nacional e terminavam com a Marcha dos Lusitos. No inflamado ardor que determinava uma educação carregada da ideologia imposta pelos valores do  Estado Novo.
 Era ainda nesse dia que costumávamos fazer as contas e lavrar as atas da Caixa Escolar.
- O que era a Caixa Escolar? - perguntarão os mais novos.
Era uma espécie de conta corrente de todas as receitas oferecidas por algum benemérito e pelos alunos com maior poder económico, através de quota mensal obrigatória. E de todas as despesas em material escolar coletivo ou individual, em favor dos mais necessitados. Giz e esponja para usar no quadro preto, borracha e afia, tinta azul para encher os tinteiros onde se molhavam os aparos (ou bicos) das canetas (ou penas). Somente usadas a partir de uma certa fase das classes mais adiantadas, depois de muito bem treinadas a escrever a lápis, em bonita caligrafia. Mas  também os individuais caderninhos de uma ou duas linhas... e poucas folhas. Ainda daqui poderia sair o dinheiro destinado à compra das vassouras e do sabão, para limpeza semanal da sala de aula. Limpeza feita pela professora e pelas alunas. Que aos rapazes estava destinada a tarefa de carregar com os jarros de água da fonte. 
Mas sobre a Caixa Escolar há ainda a referir que, mensalmente, a professora reunia com os órgãos sociais da mesma, eleitos pelos companheiros, dentre os que eles entendiam ser os mais capazes. Para se fazerem as contas ao dinheiro recebido e gasto, assim como ao saldo guardado numa caixinha de cartão pelo tesoureiro, sob a supervisão do presidente. No fim, o secretário lavrava uma ata. Talvez o primeiro contacto das crianças com a responsabilidade do fenómeno comunitário da partilha e da contabilidade organizada. Talvez um rudimentar exemplo de conceitos como honestidade, poupança, justiça social, impostos, ou burocracia.
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 A escola abria, obrigatória e  diariamente, às 9 horas, embora para os alunos da quarta classe abrisse mais cedo. E fechava legalmente às 15,20 horas, embora para os mesmos fechasse bem mais tarde. Além do tempo para o almoço (que na minha terra se chamava jantar), havia um pequeno intervalo de dez minutos, a meio da manhã. Para uma ida ao monte e comer a côdea de pão. Isto, porque ali se  trabalhava em horário normal, com uma única turma mista. Mas havia lugares, onde funcionavam uma ou mais turmas masculinas e outras tantas  femininas, conforme a sua população. Nesses casos, os chamados horários de curso duplo funcionavam repartidos pela manhã mais prolongada, e pela tarde do mesmo modo.
Ao contrário desses meios mais populosos, que poderiam usufruir  da Cantina Escolar, onde era servida uma boa sopa aos alunos mais carenciados e que  funcionava nos moldes da Caixa Escolar, na minha aldeia, as crianças iam todas comer a casa. Mais ou menos perto, mais ou menos distante. O que não ficava era nenhuma sem a sua dose diária (uma colher de sopa) de óleo de fígado de bacalhau, suplemento alimentar oferecido gratuitamente a todas as crianças portuguesas com dificuldades económicas e em idade escolar, pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). Tinha um sabor desagradável, mas todos o tomavam, com ou sem caretas.
                                                                      

Alguns dos símbolos da escola primária portuguesa, ainda durante parte da segunda metade do século XX ( imagem google)

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A vida era muito dura, para os pequenos estudantes. Além das pesadas matérias curriculares (Língua Portuguesa, Aritmética, História de Portugal, Geografia, Ciências da Natureza, Desenho, Religião e Moral) com todas as minúcias e pormenores, havia que enfrentar uma escola onde se impunha ordem, respeito e disciplina. Muitas vezes, a custo de castigos corporais. Que as famílias aceitavam e mesmo aconselhavam, para bem do crescimento dos filhos, segundo o seu entendimento. 
Nunca obriguei ninguém a ajoelhar sobre grãos de milho. Nem usei as  humilhantes orelhas de burro. Ou a clássica palmatória, também chamada "menina de cinco olhos". Com buraquinhos que ficavam marcados na palma da mão. Não possuí nenhuma, ao longo de toda a minha carreira profissional. Isto não quer dizer que nunca tenha aplicado umas boas reguadas ou palmadas nos pequenitos. O que hoje me faz doer a alma. E uns puxões de orelhas valentes, também os dei. Quanto mais não fosse, para me livrar de ser eu a levar. Recordo que tinha, ao começar, dezoito anos, e os meus alunos mais velhos tinham doze. E que, nestes assuntos de dar e apanhar tareia, tinham eles muito mais prática do que eu.
A exigência era, de facto, muita. As disciplinas de estudo aprendiam-se pela repetição e memorização, muitas vezes pela noite fora, à luz do candeeiro de petróleo. A Aritmética  era difícil, sim, embora uma vez compreendida, se chegasse lá. Pois que o cálculo seguia um certo número de problemas-tipo, cujo raciocínio era quase sempre o mesmo. Sabidos esses, sabiam-se todos os outros. Já as célebres contas eram um horror de desperdício. De tempo e de interesse. Com números de muitos dígitos, a complicarem desnecessariamente. Com vírgulas, prova dos nove e provas reais, para não haver enganos. 
A primeira classe era penosamente sobrecarregada. Além de terem de aprender a escrever com uma caligrafia regular (que se aperfeiçoava nos cadernos de duas linhas, primeiro a lápis e depois a caneta, cujo aparo se ia molhando no tinteiro, só depois de bem treinada nas lousas ou ardósias com o ponteiro ou lápis de pedra), os pequenitos tinham de aprender a fazer cópias 
e ditados, pequenas redações, responder por escrito a perguntas de interpretação de um texto e a ler com o mínimo de hesitações. Embora o que ainda hoje mais me confunda, fosse  a difícil exigência que  obrigava a trabalhar com as quatro operações matemáticas, incluindo a divisão. Complicada, para os sete ou oito anos de qualquer mortal. E a decorar toda a tabuada, seguida e salteada, que as crianças aprendiam em coro, cantando-a repetidamente.
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A quarta classe era uma epopeia. Para aquelas crianças e suas famílias, um sonho e uma conquista apaixonante. Ter, em meados do século XX, o diploma de exame do segundo grau, era subir uns bons lanços na escala social daquele mundo rural e, muitas vezes, um salto para a grande cidade ou para um bom emprego no estrangeiro.
As matérias curriculares eram vastíssimas. Saber, por exemplo, o nome das linhas de  caminho de ferro e dos ramais a seguir, na viagem de um ponto a outro à escolha da professora, perante o mapa de Portugal, era tarefa que hoje nos parece abusiva para uma criança que nem sequer sabia o que era um comboio.
Saber, por exemplo, o nome das produções agrícolas nas várias províncias de Angola e Moçambique e o nome de cada rio que banhava essas mesmas regiões, era conhecimento que hoje nos parece absurdo para uma criança que nem sequer fazia ideia da lonjura dessas enormes metrópoles, nem das razões de tanto interesse por elas.
Saber, por exemplo, os nomes e respetivos cognomes de todos os reis da Monarquia e de todos os presidentes da República de Portugal em sequência, assim como o de todas as cortes, batalhas, tratados e invasões com  respetivas datas, heróis e traidores da nossa História, era esforço de memória que hoje não se justificaria exigir-se a uma criança de dez anos. Talvez cheia de fome e de  frio, sem outros heróis  conhecidos e respeitados que não fossem os anciãos do seu mundo que, por experiência de vida, sabiam responder a todas as perguntas.
Saber, por exemplo, o nome de todos os órgãos, aparelhos, funções, sistemas e seus mecanismos de funcionamento no corpo humano, as classes dos outros animais e das plantas, assim como a sua formação e reprodução, com pormenores a diversos níveis, e ainda os tipos de terreno, rochas e minérios, era obra de grande monta e esforço gigante. Para meninos habituados à naturalidade de  verem parir os animais que com eles conviviam diariamente em casa e pelas ruas da aldeia. A participarem na sementeira, rega e colheita dos cereais e renovos, nos campos  espalhados pelas encostas da sua terra. A darem pontapés descalços nas pedras, pelos caminhos acidentados que lhes oferecia o chão onde tinham nascido.
Saber,  enfim, por exemplo, na segunda classe, portanto aos oito ou nove anos, obrigatoriamente executar as quatro operações matemáticas, cada uma com a sua prova dos nove e as respetivas duas provas reais (pela mesma operação e pela operação inversa), a escrita de frações e -  pasme-se -  todo o sistema da numeração romana é, no mínimo, mais que convite ao saber, um atentado à resistência das capacidades na infância.
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 Tudo isto e muito mais era exigido aos pequenos da escola primária, num ensino marcadamente  revestido de profunda orientação cristã, ao abrigo da Concordata entre o Estado e a Igreja.
Mas o certo é que as crianças sabiam. Só não atingiam as metas aquelas que, por qualquer problema de saúde física ou mental, de todo não conseguissem aprender. Ou quem muito faltasse. Porque, apesar da obrigatoriedade à frequência escolar, já nessa altura de quatro anos também para o sexo feminino, alguns eram ainda os gazeteiros. Por necessidades familiares que os empurravam para os trabalhos do campo, do monte, ou guarda dos irmãos mais novos. Ou então, não raras vezes, por necessidades de evasão física ou mental. Principalmente no tempo dos ninhos ou nas horas de maior calor, quando o corpo pedia uma banhoca nas águas frescas de alguma poça ou ribeira a jeito.
O certo é que, repito, as crianças sabiam. E os exames provavam-no, sem equívocos, na sede do concelho, perante júri oficialmente nomeado. Para, com todo o rigor, espremer os pequenitos até ao tutano da sua esperteza, da sua inteligência, do seu saber e da sua sorte. Alguns membros desses júris eram mesmo conhecidos pela antipatia, exigência, ou implacabilidade.
 Mas as crianças sabiam, isso posso  garantir. Algumas iam nesse dia, pela primeira vez, a Castro Daire. Acompanhadas pelas famílias e vestidas com traje de festa. A maioria, calçando sapatos, coisa que nunca haviam  experimentado.
As duas provas, a oral e a escrita, tinham lugar normalmente em dias seguidos. Mas para que não fosse o diabo tecê-las e a camioneta atrasar por qualquer motivo e não chegar a tempo dos horários previstos para os exames, pernoitávamos todos numa pensão da vila. Enorme surpresa para aqueles meninos que nunca tinham saído da sua aldeia, nem conheciam outra cama que não fosse o colchão de palha coberto de mantas de tiras, onde repousavam dos seus dias cansados. Um luxo! 
Ainda agora, ao recordar essas alturas de enorme tumulto emocional, continuo a sentir aquela  azáfama, responsabilidade e preocupação, a fervilharem-me na lembrança.
Era comum, em tempo de exames, um ou outro aluno sofrer uma reprovação. A pressão era muita e nem todos a suportavam. Mas nunca isso aconteceu a nenhum dos meus.  Um orgulho para a professora e para as famílias que, em absoluto silêncio e com o máximo respeito, assistiam às orais de seus filhos. Seus filhos, que assim davam um grande passo, na afirmação como cidadãos honrados e prestigiados.
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 Acabada esta primeira grande prova de avaliação fora de portas, tão exigente quanto credível, o regresso a casa era marcado por uma descarga de foguetes, à chegada da camioneta  que nos transportava à paragem da nossa terra. Eram risos, gargalhadas, cantigas, alegria a rodos, uma ou outra lágrima a rolar na emoção do rosto de miúdos e graúdos. Todos tinham passado no exame. E a estrada estava cheia, para nos receber.
Havia, pois, segundo o entender daquela boa gente, que recompensar a professora, pelo seu trabalho e dedicação. As melhores peças de linho corado, cobertores de lã de ovelha, toalhas e jogos de cama, paninhos bordados a empenho, rendas feitas com carinho, colchas de puxados tecidas nos teares da aldeia. Os melhores frangos e coelhos, os melhores cabritos, o melhor fumeiro, uma ou outra prenda comprada nas lojas da vila. Para os mais pobres, um grande esforço de equilíbrio nos gastos domésticos, que não permitia ir além da meia dúzia de ovos, hortaliças frescas ou um ramo de flores cultivadas com amor. E que a mestra não se lembrasse de recusar alguma destas ofertas, pois ninguém perdoaria  essa arrogância. Obrigatório  e natural compensá-la, com a eterna gratidão e o incondicional  respeito de todos.
 Devo referir que estes modos de agir, tanto por parte dos professores, dentro ou fora da escola, como dos alunos e suas famílias, eram comportamentos comumente enraizados em todo o Montemuro e beira- Paiva. E as práticas pedagógico-didáticas estendiam-se, mais ou menos uniformes, a todo o país.
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 Com a aprovação no exame, tinha terminado para aquele grupo a frequência escolar. Raríssima era a criança que continuaria estudos. Permaneceriam as saudades, manifestadas  pelas visitas à professora, ao longo da vida de cada um. Estivesse ele onde estivesse, por esse mundo de Deus. Ficaria para sempre a lembrança de meninos a correrem descalços, pelos caminhos rugosos de uma aldeia perdida no Montemuro. De saca de serapilheira com alça a tiracolo. Leve de material, mas carregadinha de sonhos e de vontades.
À mestra, restava-lhe a satisfação do dever cumprido. E poder rever, no Caderno da Classe, com orgulho, o que cada um deles ali fora registando durante o ano, diariamente e na sua vez. Exercícios sobre todas as disciplinas, separados uns dos outros por ilustrações pintadas a lápis de cor, de pequeninos motivos repetidos entre duas linhas. Muitas vezes representando bananas, ananases, palmeiras ou elefantes, numa clara alusão aos territórios de além-mar. Como lhes fora incutido, sob orientação de programas marcadamente ideológicos, como já foi referido. Exercícios elaborados  com a melhor caligrafia e alguns suores, perante a " ameaça" de estarem a contribuir para o espelho de uma escola, com trabalho que bem poderia correr o risco de ir parar às mãos e às apreciações de qualquer diretor ou inspetor escolar que nos visitasse. O que aconteceu por diversas vezes, nos anos em que ali lecionei. Que a vantagem de se trabalhar junto a uma estrada, também tinha as suas surpresas.
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 Claro que o enorme prestígio do professor derivava muito da cultura impregnada de valores, arreigados a uma sociedade hermética e acomodada a tradições seculares. Ao acentuado grau de analfabetismo de toda esta região. E à esperança depositada numa escolaridade que, mesmo não indo além da obrigatória quarta classe, constituía, ainda assim, uma fase  muito marcante na vida de uma geração, que começava a ter acesso a níveis de instrução a que tinham sido alheios seus pais e seus avós.
A frequência da escola primária era de tal modo importante que, em diversos lugares do Montemuro, quando o Estado se furtava à obrigação de oferecer igualdade de meios a todas as crianças, o Povo construía as próprias escolas. A expensas suas.
 
                                   
                            Foto 1 - Escola masculina de Vila Seca, a funcionar em casa particular, desde inícios do século XX
                                    
    Foto 2 - Escola feminina de Vila Seca, a funcionar em casa particular, desde inícios do século XX.

  Na freguesia da Ermida, por exemplo, os meninos da chamada " Ribeira", isto é, que habitavam mais perto do rio, frequentavam, desde inícios do século XX, a escola de Vila Seca, que funcionava em duas casas particulares, uma para cada sexo, e a que chegavam calcorreando por vezes grandes distâncias, debaixo de pesados sóis e assustadoras tempestades.  Só em meados do mesmo século, na década de 1950, ali foi construído um novo edifício. Era uma escola do Plano dos Centenários, que recebia alunos de muitos quilómetros ao redor. Muitas vezes com fome, quase sempre descalços e mal agasalhados, mas com uma vontade férrea a ditar o cumprimento de um dever e de um sonho.
Já o lugar de Sobradinho, pertencente à mesma freguesia, temendo as intempéries da natureza e ainda  os lobos pelo caminho até Cetos, construiu a sua própria escola. A braços dos seus homens e mulheres. A esforços da poupança de suas famílias. Num investimento de empenho, pela valorização dos seus filhos.


Foto 3 - Escola do Plano dos Centenários, construída em Vila Seca, na década de 1950 e hoje transformada em Centro de Convívio

E mais acima, a aldeia de Picão, desde sempre bastante populosa, ainda na primeira metade do século XX  levou a cabo, por sua iniciativa, a construção de uma casa com duas salas, onde funcionou, durante muito tempo, a escola. A que não faltava o terreiro, de apoio aos tempos livres nos recreios da criançada. E mesmo uns miniaposentos para habitação dos professores, que vinham sempre de longe.
Mais tarde, na segunda metade do mesmo século, a terra foi beneficiada com um edifício do famoso Plano dos Centenários, aqui  várias vezes mencionado. Baluarte de um Estado Novo que começara, lentamente, a empenhar-se na instrução do seu Povo rural. Que criara cursos profissionais, a educação de adultos, a telescola, a  sexta classe obrigatória para ambos os sexos. Ainda que com rigorosas diretrizes, na continuação dos omnipresentes valores da trilogia "DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA".
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Estávamos já nos finais do Estado Novo. Como Ministro da Educação, fora nomeado, em 1970, Veiga Simão. Sentindo a urgência de medidas que ajudassem a superar a baixa instrução dos portugueses que, na sua grande maioria, ficariam pela escolaridade obrigatória, desfasando-se cada vez mais das práticas europeias, o Ministro encetou uma grande reforma - a denominada "REFORMA  VEIGA  SIMÃO". E generalizou-se a ideia de que todas as crianças e jovens portugueses,independentemente do seu estatuto social ou económico, deveriam usufruir de mais estudos.
         Com as exigências internacionais sobre Portugal, o Governo altera toda a política de educação, nos seus diversos patamares. Começava a tão ansiada e justa "DEMOCRATIZAÇÃO DO ENSINO". Que só viria a funcionar em pleno, após o 25 de abril de 1974, e que rapidamente se alargaria a todo o país, com uma ampla mobilização e participação social.
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Todo o sistema educativo é reestruturado com novos programas. São construídos modernos edifícios e equipados para funcionamento de novos ciclos de escolarização, desde o básico ao secundário. Toda esta mudança requer diferente preparação aos professores. Alguns, em especial os mais velhos, resistem. Mas, gradualmente, vão-se adaptando, com ações de formação quase constantes. As Escolas do Magistério dão lugar às Escolas Superiores de Educação, com o objetivo de oferecerem aos novos professores e educadores de infância uma formação de nível superior. As universidades criam novos cursos e abrem as portas a um número cada vez mais alargado de estudantes.
 O cumprimento da escolaridade obrigatória, progressivamente aumentada em número de anos e beneficiada em várias reformas curriculares, passa a ser complementada com diversas medidas de apoio às famílias. O transporte escolar, a criação de cantinas, o suplemento alimentar, o alojamento e a alimentação dos estudantes são realidades novas, num Portugal apostado na modernização das suas práticas pedagógicas e na elevação do nível cultural dos seus jovens. Apesar de todas as ambiguidades e contradições. 
Mesmo com os efeitos perversos que, sem dúvida, poderiam vir a refletir-se na qualidade do ensino e, em certa medida, no grau de exigência a que estavam habituadas as anteriores gerações, o certo é que esta igualdade de oportunidades de acesso ao saber seria sempre bem mais justa. Para trás iam ficando imensas situações de famílias que, sem possibilidades económicas que facilitassem mais estudos aos filhos, os encaminhavam para os seminários. Onde, na condição de pessoas sem recursos, poderiam crescer em educação e instrução, quase sem custos financeiros. E assim, abrir portas a um futuro seguro e feliz, segundo o seu entendimento. Quer ele fosse ou não  na carreira sacerdotal, que muitas vezes não estava, de resto, nas suas ambições. 
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 Com as mudanças de abril, grandes e diversas foram as reformas estruturais no País e as obras que estas exigiram.
          Uma rede de novas estradas municipais passou a cruzar a nossa  serra em todas as direções, 
          acabando com o seu crónico isolamento. Ao mesmo tempo que  beneficiava da eletrificação,
          onde pouco antes isso era quase impensável, a rede de saneamento básico começava a estender-
          se a algumas aldeias. A televisão e o telefone entravam na maioria das casas e, alguns 
          anos depois, primeiro o telemóvel e mais tarde a  internet chegavam a todo o lado e passavam a
          fazer parte do quotidiano das gentes. O  Montemuro estava agora mais culto e mais perto de
          tudo.
Costumes e tradições, impulsionadores de práticas de vida ancestrais, foram dando vez a hábitos de modernidade. Para o bem e para o mal, as nossas crianças e os nossos jovens eram agora mais semelhantes aos do resto do país e do mundo. Com toda a segurança, partiam do seu pequeno meio, alargando horizontes de crescimento e valorização pela cultura.
                                                                  *
 Mas, como parece acontecer ciclicamente, as crises económicas chegam e instalam-se. A par de políticas  desajustadas da nossa realidade. Alheadas do apoio ao pequeno agricultor e ao pequeno comerciante tradicional. Indiferentes no apoio à célula primeira de qualquer sociedade, que é a família. Arrastando tudo e todos na grande crise social que parece não ter fim à vista.
Os jovens, mais cultos, mas criados num meio rural de mentalidades impreparadas para aceitar e valorizar como normal o seu novo estatuto cultural, não se conformam com o destino de um trabalho agrícola, artesanal ou de pequeno comércio. Legitimamente, sentem o direito de procurar, fora de portas, a sua realização pessoal e profissional.
E partem. Consigo, levam o diploma das habilitações literárias. Muitos, o canudo de uma licenciatura que, bem vistas as coisas, aqui não lhes serve para nada. Alguns rumam às grandes cidades do litoral onde, com o problema do desemprego que grassa por todo o país, não encontram resposta para a enorme angústia da falta de trabalho. E, cada vez mais, aumenta o número de jovens licenciados que emigram, principalmente para a Suíça, França e hoje em dia, 
em número crescente, para o novo destino do  Luxemburgo. Oferecendo aos países de acolhimento o seu entusiasmo e o seu talento, em áreas que quase nunca têm a ver com os cursos que tiraram. Grande parte deles, para servirem à mesa, em hotéis. Por lá constituem família, por lá dão filhos ao mundo, por lá vivem saudades que os fazem regressar uma ou duas vezes por ano. Para, acabadas as férias, de novo voltarem ao trabalho. Enquanto o há, seja no que for, desde que digno.
                                                                        *
 O Montemuro, cada vez mais desertificado, vive agora o drama da falta de crianças, que se estende a outras regiões. A  juntar-se às demais crises, instala-se a grave situação demográfica. Não nascem meninos, os jovens e os adultos mais capazes partem, os idosos passam a ser a força sem força das nossas aldeias praticamente abandonadas. 
          A partir de finais do século XX, inúmeras escolas começam a fechar portas. Mas a grande
          sangria teria lugar  em 2006. Em setembro desse ano, as crianças da Carvalhosa, de Codeçais,
          de Sobradinho, de Cetos, da  Pereira, são apenas alguns exemplos de meninos que perderam o
          direito a poderem crescer junto dos seus. Edifícios onde, até há pouco mais de duas décadas, se
          ouvia o alegre bulício da criançada em busca do saber, são agora lugares fantasma, no silêncio
          de espaços que já não sabem sorrir. E isto, por toda a serra, por todo o vale, por todo o lado.

Os últimos governos tomam medidas. Há quem entenda serem as possíveis. Medidas economicistas, que não têm em conta uma pedagogia de proximidade para as poucas crianças que restaram, as suas famílias e a classe dos professores  que, apanhados de surpresa, reagem, sem sucesso, ao que consideram um dos grandes desastres do sistema educativo português.
                                                                *
 Ao virar do novo milénio, cria-se um novíssimo modelo de gestão escolar. Surge a filosofia dos Agrupamentos Escolares, que junta alunos de diferentes ciclos, das diversas escolas com menos frequência. Contra a vontade das famílias, muitas vezes contra a opinião das autarquias.
Mas o pior estaria ainda para chegar. A partir de 2010, e tendo apenas em conta a poupança que nos é imposta de fora para dentro, surgem os Mega-Agrupamentos. Numa verdadeira massificação do ensino, impessoalizando as linhas de conduta desde sempre unificadoras da relação aluno-professor-família. Sofrem na pele, mais agudamente, as crianças com menos recursos económicos.
                                                                       *
 Os últimos ministros, de diferentes partidos do chamado arco da governação, defendem o sistema. Não só com a tese da socialização mais equilibrada entre estatutos socioeconómicos diferentes, mas também como a possibilidade de acesso e partilha de instalações especializadas. O reforço de unidades orgânicas pertencentes a um novo projeto educativo, através da articulação dos vários níveis de ensino.
No entanto, a descentralização do Ministério da Educação, que tenta dar lugar à municipalização do ensino, com o esquema de um Mega-Agrupamento por concelho, está longe de ser consensual.
          O que foi criado, na base da democracia que deve levantar-se e consolidar-se na escola,   
         acabará por retirar-lhe competências. Cada vez é maior o abandono escolar. Cada vez mais  
         difícil o apoio aos alunos com maiores dificuldades. Cada vez mais complicada a gestão de
         recursos. Cada vez mais sentida a desmobilização dos professores, quebrada que foi a
         confiança com o Ministério. Sendo que este é apenas um dos pontos de litígio.
As atividades de uma gestão pedagógica de proximidade, que é afinal a maior responsabilidade das escolas, são muitas vezes preteridas em favor da concentração da burocracia.
                                                                    *
Perante este estado de coisas, em 2015, o Montemuro, como sempre, obedece. Mas sofre.
Dizia-me, com voz amargurada, a D. Adília, professora aposentada e avó de crianças em idade escolar, numa entrevista por telefone, a partir de Picão:
- Só até aos três anos, os nossos filhos são verdadeiramente nossos. A partir daí, o Estado toma conta deles, quer seja ou não de nossa vontade.
E eu, com os meus botões, vou pensando em voz alta:
- Onde e quando foi que eu já ouvi criticar este conceito, pelos que agora o põem em prática?

                                         Foto 4 - Atual Jardim de Infância de Picão

Na verdade, assim é. Por enquanto, na aldeia de Picão existe ainda um jardim de infância e uma turma do primeiro ciclo. Com serviço de cantina, aulas de Educação Física, Inglês, e todos os requisitos exigidos ao atual ensino. Aqui  chegam, diariamente, os pequenitos a partir dos três anos. Em veículos adaptados, e entregues a pessoal disponibilizado pelo município ou pela empresa vencedora do concurso para transportar as crianças. Nas  condições de segurança exigidas por lei. Vêm de toda esta zona ao derredor, logo pela manhã. A partir dos mais diversos lugares das antigas freguesias da Ermida e de Picão, e mesmo de fora delas.
O Engenheiro Saúl Balceiro, do Mega-Agrupamento de Castro Daire, confirma-me todos os dados. Este ano letivo de 2014/2015, frequentaram o jardim de infância de Picão crianças de Picão, Carvalhosa, Pereira, Campo Benfeito e Ribas.
E a turma do primeiro ciclo contou com alunos de Picão, Pereira, Vilar, Ribas, Póvoa do Montemuro e Campo Benfeito.  Mas aqui chegarão também meninos de Sobradinho, Codeçais, Vila Seca ou Cetos, no caso de aí os haver, e quando chegarem à idade adequada. Até que os deixem. Porque, disseram-mo e repetiram-mo, pelo menos a escola continua, ano após ano, mais perto do fim. Com a respetiva certidão de óbito, à espera de ser assinada. Simplesmente, porque deixou  de atingir a frequência dos vinte alunos exigidos.

                        Foto 5 - Atual Escola de Picão, a funcionarcom uma turma do primeiro ciclo

           E, quando tal acontecer, mais um grupo de meninos deslocados engordará o Mega-
           Agrupamento de Castro Daire, frequentado há já alguns anos pela grande maioria das crianças
          do concelho. Dificultando, ainda mais, o trabalho e o sucesso a todos os intervenientes deste
          complexo  processo.

*
As nossas crianças estão a ser, neste século XXI, que se estimava de maiores facilidades na vida de cada um, sacrificadas à situação daquilo a que alguns chamam de " lógica da prática possível". Ou será que o estão à incoerência e à insensibilidade de políticos, que não têm minimamente em conta a psicologia infantil, nem as necessidades básicas da infância?
O certo é que estamos a criar novas  gerações de crianças que o não são, porque lhes roubaram o tempo, o espaço e o direito de o serem, em plenitude. Algumas vezes, infeliz e inadvertidamente, também pelo bairrismo doentio das famílias. Que preferem colocar os seus filhos a grandes distâncias, porque a aldeia vizinha sempre foi rival da sua. Lacunas dramáticas que um dia, inevitavelmente, hão de refletir-se numa sociedade adulta em convulsão.

A antiga trilogia "Deus, Pátria e Família", do Estado Novo de Salazar, deu lugar à moderna trilogia  "Austeridade, Poupança e Conformismo", do Estado Democrático da Falência.  Certamente que ninguém duvidará de qual delas é a mais nefasta para as crianças, primeiro e último sentido de qualquer escola.
Se é bem verdade que a Educação sempre determinará o futuro de qualquer Povo, a razão e  a prudência impõem que nela nos empenhemos por inteiro e lhe demos a mais urgente, correta,  primordial e assumida prioridade.
*** 

          A título de testemunho real daquilo que aqui partilho sobre a importância da Escola no
          Montemuro e beira-Paiva, deixo aos leitores desta Obra um pequeno e simples poema, que 
          escrevi para os meus primeiros alunos e lhes ofereci, numa das duas grandes e sentidas 
          homenagens com que me presentearam. Desta feita em 2010, quando perfaziam 50 anos sobre 
          o inesquecível primeiro encontro, na nossa querida escola.

«Uma vez... em 1960

 Sessenta e tal passaritos
na sala escura todos os dias vinham pousar.
E a mãe dos passaritos
contava coisas bonitas e ensinou-os a voar.
 Primeiro devagarinho
depois mais alto... e mais alto...

 Da sala escura saíram em passos titubeantes.
Ensaiando a vez primeira o sonho em realidade
aprenderam a maneira de fazer da vida inteira
uma vida de Verdade.
 Aprenderam voos rasos, aprenderam a subir
tentaram a espiral até o cume atingir
e partiram à aventura... e partiram à procura
de rumos que tinham lido
e que tinham aprendido, um dia na sala escura.

          Por céus estranhos voaram
          e nas nuvens que encontraram, viveram o aprender
          que, andem por onde andarem, é doloroso crescer.

Mesmo assim, muitos seguiram por distâncias que atingiram
o sonho e a fantasia que a mãe lhes tinha ensinado.
Em espaços sem limites de vidas feitas Verdade
ganharam a confiança, ganharam a segurança.
Mas sobreveio a saudade.

 Outros, uma minoria, preferiram a magia
duma vida singular perto do calor do ninho
onde até o respirar se sente com devoção
e o bater do coração marca o compasso da vida.
Da vida feita Verdade. Mas sobreveio a saudade.

 A saudade dos que ficam, a saudade dos que vão
é a saudade num grito que aprenderam na lição
da sala escura de outrora.
 Sala escura e tanta luz! Tanto sol, tanto saber!
Tanto amor para aprender!
O mundo todo na mão, e eles no meu coração

Sua mãe... e professora.»
 Foto 6 - Com alguns dos meus primeiros alunos, passados 50 anos



                                                                  *  Aurora Simões de Matos




Publicada por raiz de xisto à(s) 06:51 Sem comentários:
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