domingo, 8 de outubro de 2017

CASAS SENHORIAIS DE LAMEGO

A HISTÓRIA DE LAMEGO, 
ATRAVÉS DAS SUAS CASAS SENHORIAIS

É ESTE O TEMA DA "TERTÚLIA ARTES E LETRAS"   -   14 / 10 / 2017
                                          NA CIDADE DE LAMEGO

Organização e coordenação - Aurora Simões de Matos

AQUI FICA O CONVITE E A IMAGEM DE ALGUMAS (APENAS DE ALGUMAS) DAS MAIS BELAS CASAS DA ARISTOCRACIA LAMECENSE




                                                             *******************

                                      Antigo Paço do Bispo e actual Museu de Lamego


                                          Antigo edifício do Seminário e hoje Messe de Oficiais


                                                          Casa das Brolhas


                                                                     Casa das Mores


                                                     Casa de Almacave e actual Paço Episcopal


                                                    Casa do Poço e actual Museu Diocesano


                                                      Solar dos Padilhas ou Casa do Assento


                                                     Solar dos Pinheiro de Aragão


                                                                               Casa dos Serpas


                                                                             Casa dos Silveiras


                                                                     Solar dos Vilhenas


                                                           Solar dos Pachecos



                                                     Casa dos Viscondes de Alpendurada


                                                       Casa dos Viscondes de Arneirós


                                                            Solar do Espírito Santo



SÃO APENAS ALGUMAS

Fotos de Rui Pires e Município de Lamego






                                                                                        Aurora Simões de Matos

sábado, 16 de setembro de 2017

VINTE POEMAS DE AMOR - da autoria de Aurora Simões de Matos

POESIA DISPERSA

(© todos os direitos reservados)



AUTORA  -  AURORA SIMÕES DE MATOS

(© todos os direitos reservados)


Foste tu

Foste tu que inebriaste a gargalhada que soltei do peito, no dia em que me
elegeste o cofre dourado dos teus tesouros. Que me endoideceste de
grandeza a pequenez do tédio. E me ofereceste bálsamos e flores amarelas
- as minhas preferidas - com que enfeitei, noite após noite, a monotonia do
quarto descolorido e a lonjura do meu sonho. Me embriagaste os sentidos,
no perfume do olhar com que amaste a minha intimidade. Me ensinaste a luxúria
e  levaste em bandeja de prata o beijo canibal, com que selámos aquele pacto de
vida e de morte. No dia em que o meu pudor compreendeu a linguagem de amar.

E que, partilhando comigo o mistério de dar vida a outras vidas,
me colocaste no pedestal mais alto que o artista esculpiu na praça maior
da nossa cidade.


***


CONTENTAMENTO


Andava por ti perdida, doida de contentamento. A minha rua parecia enfim a 
minha rua, a fervilhar de gente feliz, com sacos entulhados de guloseimas e 
braçados de ramos de camélias. Cada janela vestia cortinas lavadas para 
espreitar o meu contentamento, quando passava a caminho do encontro 
que marcara contigo, do outro lado da cidade.
Naquele tempo não encontrava muros nem sombras na minha rua. Os mendigos
riam da desventura. Os velhos punham gravatas para cumprimentar os meus
sentimentos, com mãos polidas do tempo que gastaram à espera desses dias.
O campanário da igreja da minha rua tocava a repique. Como só tocava quando 
queria dizer que, nos rostos das almas e das coisas, era dia de festa.

E o repique do sino do campanário ouvia-lo tu do outro lado da cidade, a 
anunciar-te que ia a caminho. Para te dizer que andava por ti perdida, doida de
contentamento.


***

PROXIMIDADE

Era a tarde perfeita. E não deveria nunca poder a hora ser mais certa, o
que restava de um gesto tão vivo. Alguém viria, o rosto confundido no 
outro. O rumo de uma fonte. A mão estendida. Alguém diria que nada
mais contava agora que encontrar a palavra certa. O sinal de si mesmo.
O nome das vestes rente à nudez, ao encontro das horas ditas sem pressa.
Depois, no olhar de cada um, desfeita a surpresa, o mesmo olhar impaciente.
E os sussurros levados pela brisa ao afago de um corpo comum.

Já nada nem ninguém seria tão próximo. É que por ali passava um raio
de sol, estendido no seu limite. O amor rondava a paisagem.

***




MOMENTOS ÍNTIMOS

Havia um nome que tinha de nascer. Esperá-lo era a maneira mais simples
de acreditar que haveria de chegar, no sentido único daquele enleio. O
deserto rasgado em linguagens que não são de entender. Uma onda de espuma
enrolada em sinais que não são de rasgar. Uma certeza inscrita em papel
que não é de escrever. Quando se encontraram na pele e no olhar, à hora da
intimidade  total, os lábios dela, tocados pelo mistério, beijaram o silêncio do
momento.

Como se aquele filho sonhado fosse o esboço secreto de um sorriso ainda por abrir.

***

REDENÇÃO

Era noite à transparência das penumbras que contornam o silêncio.
Naquele vazio perdido, continuou a imaginar a fundura do céu pelo
escuro da noite. Ouviu depois o seu nome a partir de outros lábios.
Em sílabas mordidas no beliscar da emoção. Alguém disse o seu
corpo em livro entreaberto na página que não se lê. Desfolhada e
estremecida. Na respiração molhada de todas as vezes que em si
morrera.

 A mão que a percorreu ao toque murmurado no delírio, evocou a vida 
como uma redenção.


***



                                                              JANELA

«Vens todas as madrugadas prender-te nos meus sonhos...»

Contigo trazes o segredo da vida e a alvorada da idade. Regato
de água cristalina que me acorda para a verdade do dia. Em
gotas suspiradas pelos ares que me respiram. Vens do fundo
da noite, com vestes de luar. Iluminas-me o quarto. Afastas o
cortinado rubro, com os dedos esguios de brandura. De mansinho,
como quem abre uma janela preciosa. A mais cobiçada do teu
mundo.

 E o sol entra-me contigo o dia inteiro.


***


                                                                      TAÇA

« A tua boca, taça misteriosa que ninguém mais possa encontrar...»

Quero beber-lhe o gosto até ao fim. Nela buscar o húmus líquido que
alimenta a terra sequiosa da minha sede. Para além da palavra, oiço-lhe
a música que canta a vida num beijo ardente. Há recantos do meu corpo,
onde só a tua boca vibrou na pele do gosto. Não preciso de mais nada.
Em todos os argumentos que inventasses, sempre haveria a singularidade
do gesto treinado para me fazeres feliz. Servido em taça de bordos rubros,
pelo mistério dulcificado no prazer do mel.

É única e só minha, a boca onde te bebo e tu me bebes.


***



                                                          PÉTALAS

« Comprei rosas encarnadas às molhadas dum vermelho estridente
 tão rubras como a febre que eu trazia...»

Encheu-se a minha cama de alegria. Que a cor das rosas não tardou
a despertar. Vozes dobradas na elegância dos lençóis. Bainhas lisas,
no recorte da linha com que se cose a emoção. Bordada a crivo aberto
de pequenos sinais. A brancura lasciva almofadada no interior da noite.
Marcas da mulher-amante que neles deixava perfumes de alexandria.
Eco de segredos sussurrados ao entardecer. O diálogo entre dois corações
que ali se desfolharam.

Nas pétalas que esvoaçaram suspiros, podiam ler-se mensagens que só
os nossos sentidos entenderam.


***


PENAR

«Asa negra que esvoaça negros dias ensombrados...»

Em que noite deixaste as penas luzidias que meu afã por ti amaciou
de carícias? Quem cativou o piar lânguido do teu espanto sofrido? Sei
que perdeste a largura do adejar que te sustinha, quando soltaste o
último penar em leito sem esplendor. Que é feito do esvoaçar alegre
ao redor do meu telhado tão só teu? Em que memórias escureceste de
sonhos a finura transparente do teu voo ?

Espero-te à hora do costume. No peitoril da janela frente ao mar. Esvoaça-me,
que te desensombrarei.


***


ESPERO A TUA PALAVRA

Não desisto de falar contigo e espero a tua palavra. Para ouvir o que pensas da 
noite e da madrugada. Do vulto que se perde e se denuncia pela luz. Do rosto
que se embrenhou na escuridão sem se despedir da lua. Por companhia o
rasto de uma estrela moribunda.
Sei que me ouves e não desisto de perguntar-te: A quem pertence o que perdemos
de nós? Será que cada um guardou o que o outro perdeu? A sombra é um vulto da
noite ou da madrugada?

Espero a tua voz. Ainda que seja só para dizer-me: « Encontrei o rasto de uma estrela
moribunda. O dia está aí.»


***



         SEDE

Era noite de cálidos regressos. Sorriu à vida na seiva inquieta
da saudade. O amor abrigado nos louros cabelos desgrenhados
de lassidão. Que em noites de volúpia a lassidão não se abriga
em qualquer veia. Confessou-se presunçosa de ser assim como
era. Na deriva das horas cegas sussurrando a lúcida aventura. Entre
duas emoções espalhou incenso de aromas. Dos lábios brotou-lhe
uma canção. Tão cúmplice como a virtude partilhada. «Se eu pudesse
dava-te um rio. Onde o meu nome boiasse à tona da maior fundura.
Trazê-lo à margem seria teu fado!».

 Adormeceu e sonhou que era nascente. Acordou a tremer cheia de sede.


***
             
                                                        VULCÃO

Era noite estrelada de sorrisos. Que se abriam tão serenos como
um desejo que chega devagar. Tão íntimos como um silêncio que
nos fecunda o tempo. Naquele momento ela acreditou que o
primeiro deus é o deus do amor. O deus de todas as esperanças.
Mesmo que um dia o fogo lambesse o que restasse do vulcão. Que
nele consumasse o grito dos que morrem. No acaso do último
instante. À boca da cratera aberta sem futuro nem perdão. Onde
os dois lados que somos se confundem na imensidão de um outro
deus.

O deus da ausência que recolhe em seu reino todas as
dúvidas. E nelas a escuridão do desencanto.


***


                                                QUIETUDE

Era noite rendida à cor que se merece. E naquele corpo fogoso
perdeu-se de encantamento. Precisa de silêncio agora. De ficar
calada e estendida no momento da última celebração. Apetece-lhe
chorar sem lágrimas nem remorso. Deixar-se ficar assim na quietude
de morrer por alguém. A porta está fechada e ninguém sabe de nada.

Justo será celebrar este descanso de prazer em si. Não quer beijos nem
abraços. Apenas uma mão que aperte a sua.


***



DECOTE


Naquela tarde não havia nuvens a abrir melindres no céu da
esplanada. O sol e a sombra em desatino quase perfeito. Não
fosse a vontade de pensar sonhando o gesto. Não fosse o vento
na agitação febril do estontear. Ou a crocância trincada do pão
carnal no saborear profundo da impaciência. Não fosse o vento
a segredar os anseios de um peito em chamas. Na insinuação
daquele seio a crescer de dureza rente ao coração. A poesia
estava toda ali. No decote atento de uma boca a oferecer cornucópias
de desejo. A fantasia gritante de quem morde. O desespero ofegante
de quem corre. A língua a viajar por entre os montes e vales do
poema.

Não fosse a sombra do vento, o artista inventaria a luz. Para a imagem
guardada no último sorvo do retrato.


***

NUDEZ

Naquela visão furtiva reparou na bela ruiva que lhe deixava os nervos em
sobressalto incontido. Dengosa no andar perdido numa rua de Lisboa. Alta
e esguia como um arbusto sem folhagem de estorvo. O sorriso de ironia
estilizava-lhe a figura onde podiam ler-se sinais de madrugada. Qual
escultura de sensual nudez a escorrer aromas pela noite inteira.

No ciúme que despertou prazeres sem nome, adivinhou-se a alcova em que 
fulminou de prazer quem a esperava há tanto.


***

APETITE

Naquela hora de sede, murmurava-se o entardecer de um dia longo. A
garganta secava-lhe na agonia da falta. À procura da gota, que ao leve
toque de um beijo, anunciasse o deslizar sereno de um rio. Que serpenteasse
pela veia, na correnteza do apetite. Perto viria a turbulência da fonte, em
descontrolada corrida, que haveria de saciar-lhe a fome líquida.

Intensamente forte era o amor.

***

                                                                           BEIJO

Naquele instante de encontro o olhar cresceu. Quando a boca se insinuou
à intimidade total do grito. A vida em turbilhão morria e renascia. Sem
pressa nem ansiedade. Em purpúreo esplendor do infinito. No aberto incêndio
do desejo. Pois ali tudo era céu e inferno. Fogo e chuva. Vulcão de lava ardente.
Rio que desabava. Trovão a ribombar em seu lampejo. Pêssego de veludo e
sumo de uva.

Romã que amadurou no momento selvagem daquele beijo.


***



RETROSPETIVA

Medi o tempo pela distância do teu abraço. À hora de saber quantos
degraus de vida conquistada por uma aberta, em dia de outono
pardacento. Haverás de insinuar que só a infância sabe guardar os gestos
e as imagens que o tempo desnudou.

É como se o passado estivesse à minha espera para, embrulhado em filigranas
de amor, me entregar este presente onde sempre te pressinto.


****


SEMENTE

A ternura com que o teu nome me enleva, me basta. Como se bastando, me 
enchesse. Me consumasse todos os sentidos. Não contes a ninguém de que
cor são os frutos que provamos, pelo sumo de só provar pelo prazer da 
semente. Não contes  nossos tudos e os nadas de momentos que crescem
como se desertos de areia  fossem. Na hora de conhecermos a hora de onde
nascem as flores, desses desertos aí seremos nós. 

E as malhas do tempo alongar-se-ão como nuvens pressurosas do nosso 
abraço, recuperado do nosso sangue.

***

TRÊS CAMINHOS

Era noite de três caminhos. O primeiro não tinha saída. Cumpria um destino
na senda do vestígio cujo sentido ia dar a um corpo deserto. As palavras
ficavam-lhe suspensas da sombra onde a luz se escondera na cegueira. O 
segundo era povoado de mitos que tornavam o ar irrespirável. Entre a razão
da impaciência e o desassossego do assombro. Que não servia o que se espera 
da harmonia com que se traduz o amor. No mistério de um olhar tranquilo encontrou
a promessa dentro dos últimos lábios que beijou. 

E o abraço tornou-se mais longo. Acabava na mesma fonte que fora seu começo. O 
terceiro caminho aconteceu já dentro da madrugada.

***

TODOS OS RIOS COMEÇAM NA NASCENTE 

Se eu pudesse
dava-te a beber o avesso destas águas

Talvez que nelas ainda descobrisses
o avesso de um rosto
ou a parte frontal de um coração

Talvez que nestas pedras desnudadas
fosses a tempo de insculpir teu nome

Se eu pudesse
dava-te a correnteza serena de uma fonte




NOTA:

Poemas insertos nos livros:

Poentes de mar e serra - 1997 - (Sobre usos, costumes e tradições da beira-Paiva)

Uma Palavra - 2001 - (Sobre a analogia entre as estações do ano e as fases da vida de uma Mulher)

O amor é sempre inocente - 2017 - ( Homenagem a Judith Teixeira, poetisa silenciada do Modernismo Português)




                                       Autora - Aurora Simões de Matos

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                                            INÉDITOS
2019

(© todos os direitos reservados)

Leitura estranha

Sem pressa de chegar
atravessaremos juntos
o deserto de uma noite
aberta enfim por tua mão
Um corpo a celebrar
a descoberta das águas
a descoberta do fogo
o luar, surpresa da madrugada

Um corpo rota da seda escravo em ti

Será preciso morrer
para dedilhar o canto adormecido
do grito em sangue
Uma após outra a penumbra de tamanha solidão

Só tu a lê-lo 
na página aberta fechada há tanto
que por ser branca
há-de lembrar a agonia da culpa a ser rasgada

Leitura estranha!

***********

DISTÂNCIA MAGOADA

Procurei a luz nas vertentes de um sorrir tranquilo
à hora da noite madura naquele amanhecer tardio

Surgiste pétala de maresia na alvorada
por onde escolheste teus caminhos de mar

E a pele da água foi deserto que se cumpriu
no fulgor da maré a espraiar-se
rente a um corpo que se pressentiu a gotejar loucura

Por um fim de tarde na distância magoada
entre a onda e o adeus

***

ANSEIOS BRANCOS

Semeaste gestos de ternura sobre o meu corpo em
segredo de luz para que nele florescessem caminhos 
no futuro imperfeito que é o tempo onde se escondem
os alfabetos de que se não conhecem as letras por inteiro.

Colheste nele as notas musicais com que entoaste a mais
bela canção de amor entrelaçado em nossos dedos. Como
se no sangue a pulsar anseios brancos a cor das emoções
nas minhas veias fosse todo o sossego do teu peito em
que morremos uma e outra vez.

***
FATALIDADE

Devagar no vagar dos mimos que me deste a arder a
timidez de cada som desabrochou a flor fruto maduro
com que noite após noite saciaste a gula imprevisível
do teu olhar de fogo.

Conta-me agora se o vento anoiteceu a hora crepuscular
da dúvida para que  não cumprisses o resto do caminho que
trocaste por desertos incumpridos por onde te perdeste
no labirinto de uma dimensão onde sempre existirá o
meu retrato.

***


terça-feira, 12 de setembro de 2017

FEIRA DO LIVRO DO PORTO - 2017

" O AMOR É SEMPRE INOCENTE - Homenagem a Judith Teixeira, Poetisa silenciada do Modernismo Português"


Seleccionado para 


LIVRO DO DIA,  NA FEIRA DO LIVRO DO PORTO, a 10 / 09 / 2017







com redução de preço de capa


                                                                                                   
LIVRO DO DIA , NA FEIRA DO LIVRO DO PORTO,
 a 10 / 09 / 2017 - "O amor é sempre inocente - Homenagem a Judith Teixeira, Poetisa silenciada do Modernismo Português"

Autora - Aurora Simões de Matos
Editora - Edições Esgotadas

Anunciada desde a véspera e repetidas vezes aos altifalantes da Feira do Livro, foi uma sessão de apresentação e autógrafos, que excedeu todas as expectativas, esgotando completamente o estoque de livros disponível, obrigando à sua reposição.


ESTOU MUITO FELIZ e deixo imagens de uma das partes da "FESTA"...... transmitida em directo para o mundo, via Instagram!!!

                                         A autora
























MUITO OBRIGADA
Aurora Simões de Matos
( fotos de Ana Matos)

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A VOZ DO MAR, VOZ DE DEUS



                                                                                                                  
Faz com a mão uma concha
e guarda o som do mar na concha da tua mão.

A tua mão é o búzio
no areal do teu corpo.

Com a tua mão em concha
vais ouvir o marulhar e com ele a voz do vento.

Guarda em ti esse momento da voz de Deus a cantar...

E se no teu areal
perpassar a emoção desse instante que é só teu,
espraia-te à beira-mar
e respira a voz de Deus na brisa do seu cantar!



LONJURA

É tal a imensidão da dimensão do mar
que o olhar se perde
e a voz nele se dissipa.

Do concreto se passa ao abstracto
e tudo se dilui e se desfaz
na dispersão de lonjura tamanha.

O corpo se arrebata e a alma se desfoca
quando tudo o que eu queria
era apenas sentir
que a minha solidão 
é espaço de cumprir o tempo que se evoca.


SOL-PÔR

O horizonte vestiu vestes de fogo
e o sol incandesceu e tudo é luz
na linha que limita o fim do mar.

O milagre paira ainda um instante
diante do olhar
na deslumbrante hora de se esconder.

E só então
o sol se esconde e num repente
se afunda à nossa frente
em majestosa exibição

Já se não vê
a bola que de fogo se vestiu
e inundou de rubro o horizonte.

Do céu desceu e se escondeu 
do nosso olhar por hoje mesmo defronte
para voltar amanhã à mesma hora
do lado oposto de onde nasce a aurora




AGITAÇÃO

O mar se agita com desassombro
Onda desfeita, outra se apronta

O leão salta, ruge a procela
e se enovela
aos pés da rocha que se amedronta

Em espuma branca
todo vergasta, o mar se solta
em leviana insensatez, quase uma afronta.


AGUARELA

Um quadro sem moldura
uma paisagem
manhã serena

Não há gaivotas

A  luz intensa
azul e azul
e um barquito que se despede no horizonte


Aurora Simões de Matos
no livro " Poentes de mar e serra" - 1997


















segunda-feira, 14 de agosto de 2017

" A Escola do Montemuro e beira-Paiva: meio século de desafios, conquistas e perdas"


É este o título do novo livro que acabo de escrever e que entrará na minha Editora, nos próximos dias.
Da sua edição, oferecerei uma boa parte aos habitantes de Meã, meu torrão natal, e à Junta de Freguesia de Parada de Ester.
Prenda minha, como recordação de tempos inesquecíveis na minha aldeia, ainda na escola que funcionava em espaço arrendado a um particular. Onde havia disciplina e saber, respeito e esforço. Onde os castigos corporais eram prática comum a todo o país, e onde se trabalhava de sol a sol, na busca da tão almejada 4ª classe, o limite da escolaridade para a grande maioria da população portuguesa.


Quando, na década de 1960, aqui leccionei como primeira professora diplomada, para mais filha da terra, a escola que me tinha como única titular era frequentada por mais de sessenta alunos. Isso mesmo: mais de sessenta alunos, para uma única professora.

Hoje, toda a região vive o drama da falta de crianças. A juntar-se às demais crises, de onde sobressai a económica e políticas desajustadas da nossa realidade, instalou-se a grave crise demográfica.
Não nascem crianças, os jovens e os adultos mais capazes partem, os idosos passaram a ser a força sem força de muitas das nossas aldeias, praticamente abandonadas pela serra e pelo vale.

Os poucos meninos, que por aqui vivem ao derredor ainda, perderam o direito a poderem crescer junto dos seus. E partem diariamente numa longa viagem diária até ao Centro Escolar mais próximo, porque a escola da sua terra encerrou portas. E foram tantas as escolas que fecharam!


À Escola do Ensino Básico de Para da Ester, afluem diariamente alunos de várias aldeias das duas margens do rio Paiva. Vêm em carrinhas da Câmara disponibilizadas para o efeito. Uma situação que, dizem-nos, é a única possível, na conjuntura dos factos.

E assim continuamos a ver crescer crianças que o não são, porque lhes roubaram o tempo, o espaço e o direito de o serem, em plenitude. Lacunas dramáticas que um dia, inevitavelmente, hão-de reflectir-se numa sociedade adulta em convulsão.

* A ESCOLA NOVA da aldeia de Meã, construída na primeira metade da década de 1960, fechada por falta de alunos, e onde funciona agora a Associação Cultural, Desportiva e Acção Social " Os Sete Casais de Meã"

Edifícios onde, até há pouco mais de duas décadas, se ouvia o alegre bulício da criançada em busca do saber, são agora lugares-fantasma, no silêncio de espaços que já não sabem sorrir.

A fugir a toda esta dramática situação, os pais que actualmente constituem família, ao contrário do que se passava no século XX, saem agora para as grandes cidades de Portugal e estrangeiro, por lá criando os seus filhos. E ninguém tem o direito de os julgar, por terem "fugido" de uma zona que a isso os obrigou.

A aldeia de Meã, totalmente vazia de crianças hoje, delas mata saudades, quando os pais as trazem em tempo de férias no Verão.

Aqui, no Montemuro e beira-Paiva, a antiga trilogia « Deus, Pátria, Família» do Estado Novo de Salazar, deu lugar à moderna trilogia « Austeridade, Poupança, Conformismo» do Estado Democrático do Possível. A filosofia que rebentou com toda a estrutura escolar do Montemuro.




* A ESCOLA ANTIGA DE PARADA DE ESTER, onde fiz a minha primeira classe, e que há muito fechou portas à criançada. Aqui funciona agora a sede do " Clube de Caça e Pesca da Encosta do Montemuro e Paiva".


* O edifício onde agora funciona a Escola do Ensino Básico e o Jardim de Infância de Parada situa-se no espaço do Largo Nossa Senhora do Rosário, nas instalações do Grupo Desportivo, em lugar de mais fácil acesso.

* Parque Infantil da aldeia de Meã, construído no princípio da grande crise e que, verdadeiramente, nunca se encheria de crianças

* Mais um lugar-fantasma, onde o abandono levanta inquietações


* O Jardim de Infância de Meã, onde as crianças já não brincam

* Primeira escola masculina de Vila Seca, que funcionou em casa particular, desde o início do século XX


* Escola do Plano dos Centenários, construída em Vila Seca na década de 1950, e hoje transformada em "Centro de Convívio"



* Na Escola de Picão, onde já funcionaram várias turmas dos dois sexos, ainda se lecciona, embora apenas com uma turma. Sujeita a acabar, pela falta de crianças que façam o número exigido por lei.


( Fotos de Carlos Batalha , Artur Marado e Mauro Granja)