O AMOLADOR

O
amolador
«
A….mola navalhas e tesourinhas…
Com
.. põe panelas e alguidares…
Arran….
ja guarda-chuvas e sombrinhas!...»
Num
dia qualquer, bem cedo
chegava
ao Cimo do Povo
o
fiel amolador
com
seu carrinho de mão
mais
o vibrante pregão
que,
voando pela aldeia
anunciava
a chegada
por
todos mais que esperada
que
haveria de compor
a
já furada candeia
e
o velho borrifador.
Tinha
a voz inconfundível
com
mistura de assobios
feitos
de dedos esguios
e
a tirada musical
duma
gaita especial
soprada
bem à maneira
de
quem queria ser diferente
no
meio da outra gente
e
que fazia os delírios
da
atrevida criançada
que,
à roda dele, se juntava
em
algazarra animada.
Mas
já chegavam, correndo
tomando
a vez dianteira
as
mulheres atarefadas
por
vidas todas canseira
com
as peças mais variadas
que
se possa imaginar:
almotrigas
e candeias
tachos,
panelas de folha
e
panelas esmaltadas
já
velhas, todas furadas
que,
depois de muitos pingos
haveriam
de durar
por
mais uma temporada.
Pratos
partidos em dois
à
espera dos agrafos
pontos
com arte bordados
nas
caçoilas de Molelos
assadeiras
e alguidares
todos
de barro vidrados
as
facas e as tesoiras
navalhas
e canivetes
tudo,
enfim, o que tivesse
perdido
o fio e fizesse
falta
ao bom do lavrador
e
às lides da mulher
na
cozinha ou na costura
trabalhando
a vida dura
guarda-chuvas
desvirados
varetas
todas partidas
sombrinhas
desarranjadas
tudo
ficava perfeito
depois
de, com muito jeito
ao
seu carrinho apoiado
de
roda sempre a girar
as
mãos do amolador
emprestarem
seu valor
à
aldeia onde ficava
ao
serviço daquele povo
duas
semanas a fio
e
onde, com muito brio
punha
tudo como novo.
Só
depois, nómada errante
lá
seguia sua vida
por
outra aldeia…e então
num
outro Cimo do Povo
soltava
o pregão de novo:
«A…mola
navalhas e tesourinhas…
Com…
põe panelas e alguidares..
Arran….
ja guarda-chuvas e sombrinhas!...»
Aurora Simões de Matos