Férias
de Verão
1ª Parte
Acabada
a primeira parte destas férias anuais de Verão, vivo agora um curto
intervalo, para depois me lançar na segunda parte, entre o campo e
as serras, o mar e uns curtos passeios (cá dentro), que hão-de
libertar forças regeneradoras de outras forças.
Desta
primeira parte, guardo sempre as melhores recordações.
Há
vários anos já que, respondendo a necessidades físicas e
afectivas, procuro, no mês de Julho, as Termas de S. Pedro do Sul.
Para beneficiar das suas águas que dispensam apresentações, para
me encontrar com amigos que desfruto apenas nesta época, para
regressar, ainda que só por duas semanas, a espaços-matriz de uma
infância tranquila, a lugares-memória que me marcaram a vida, em
tempos de crescimento.
De
facto, nas Termas de S. Pedro do Sul, vivi entre os oito e os quinze
anos, idade marcante nas aprendizagens de qualquer vida, por mais
normal e rotineira, calma e sem sobressaltos... ou mergulhada em
solavancos que muitas vezes nos acontecem.
Aí
cresci, entre gente boa que me ajudou a cimentar a personalidade e me
transmitiu valores que ainda hoje defendo. Entre os mais humildes,
que viviam do trabalho sazonal no Verão, alugando quartos nas suas
casas particulares ou fazendo pela vida com trabalhos temporários,
nos grandes hotéis sempre cheios. Mas também entre os mais
abastados, donos de unidades hoteleiras de prestígio, famílias
tradicionais de requintada educação, no esmero de uma sociedade
sempre na mó de cima. Uns e outros vivendo, já nesse tempo, como
agora, do turismo termal, que tinha no Verão o seu ponto mais alto.
Aí
frequentei a escola primária, hoje em ruínas, ao lado da vetusta
Igreja de Nossa Senhora da Saúde. No meu recreio, mais tarde
esventrado, sobre os achados arqueológicos hoje à vista de quem
passa, num abandono pungente, brinquei todos os jogos, danças e
cantigas que ali eram costumes saudáveis, em meados do século
passado. Parte de uma infância e de uma adolescência alicerçadas
na segurança, no aconchego, em visões e vivências que me abriram
portas à imaginação e ao deslumbramento.
Umas
das experiências que me ficou gravada pela memória de um tempo tão
particular, foram as corridas despreocupadas pelos longos corredores
do Hotel Palácio, quando ali brincava com as filhas do casal que, ao
tempo, se ocupava da guarda e vigilância do mesmo. Nesse tempo, o
Hotel só funcionava no Verão.
Envolto
em várias polémicas, desde a sua construção megalómana, na
segunda década do século XX, nunca o grandioso edifício serviu os
objectivos para que fora projectado. Não chegaram os Irmãos Diniz,
da firma com o mesmo nome, a conseguir o monopólio da exploração
das águas termais. E se os luxuosos espaços do empreendimento
chegaram a ser usados como lugar de encontro e de grandes e
exuberantes festas das elites portuguesas e mesmo estrangeiras, a
situação não poderia durar muito tempo, já que a manutenção do
imóvel não se compadecia com quebras na produção de receitas.
O
Estado Novo, apercebendo-se do subaproveitamento do Hotel Palácio,
fez dele um grande Centro da FNAT e o Pós-25 de Abril, depois de
grandes obras de restauro e modernização, transformou-o no espaço
acolhedor consentâneo com as necessidades e exigências da vida
actual, onde instalou uma das unidades mais requintadas da INATEL.


Os
seus 77 quartos, apetrechados com todas as comodidades, o magnífico
restaurante, o bar, as várias salas de estar (cada uma mais bonita
que a outra), a biblioteca, a sala dos computadores, a sala de jogos
e a de conferências, o espaço das crianças, os bem tratados
jardins e a quinta, espaço envolvente de onde destaco a esplanada
sempre cheia nos serões animados com música ao vivo, tudo são
agradáveis surpresas e locais de regozijo e bem-estar. Para quem
(associados e não associados) procura esta prestigiada unidade
hoteleira. Para uma cura termal, ou apenas para descanso e convívio.
Como lugar de passagem, onde apetece ficar por mais tempo. Sempre,
como espaço de referência.
Mas
se as instalações são óptimas, nota máxima também para a
disponibilidade, a simpatia e a eficiência de todo o pessoal que
nele trabalha.
Por
tudo o que, desde a infância, o Hotel Palace das Termas de S. Pedro
do Sul significa para mim, mas também pelos muitos amigos que ali
fui fazendo ao longo dos anos e com quem tenho partilhado grandes
momentos de descontracção; pelas famosas águas sulfurosas
medicinais que, segundo a História, já D. Afonso Henriques
procurava para alívio dos seus males, mas também pela beleza da
paisagem envolvente que bem merece o nome de “Sintra da Beira”,
agradeço à Vida poder continuar a passar ali uma parte das minhas
férias de Verão. A primeira. Da segunda, contarei mais tarde. Se
valer a pena, como esta valeu.
Aurora
Simões de Matos