História
de uma Vida – A Sobrevivente
(Continuação)
(Biografia
romanceada de Maria do Céu Trindade, que reside há 25 anos no Lar
da Santa Casa da Misericórdia de Castro Daire e que, no próximo mês
de Dezembro, completa a bonita idade de... 110 anos)
Capítulo
II
Na
salita, media, cortava, alinhavava, provava, cosia os buréis, os
riscados, os linhos e muito mais tarde os modernos terilenes que lhe
cobriam a cama de ferro, a um canto. Tecidos que esperavam a sua mão
de hábil artista. O ferro de brasas aceso, com que havia de alisar
as peças de roupa que ali ia confeccionando, como alfaiate
prestigiado que era. Obra não lhe faltava, ajudado pela mulher. Obra
para as aldeias, os lugares e as quintas ao redor. Das redondezas
chegavam os fregueses, vindos das lojas da vila ou da feira do
Crasto, com os panos à cabeça, atados com uma guita. De tudo fazia
e fazia bem. Mas o orgulho maior, sentiu-o ele, quando costurou a
farda para a antiga música de Castro Daire. Do seu trabalho de
alfaiate haveria de sustentar a casa, que as territas pouco davam,
nem para o dia-a-dia. E ele tinha ambições para os filhos.
Tinha
ambições para os filhos. E eles eram quatro. Ou cinco, contando com
a rapariga, que também comia e a quem igualmente queria muito bem.
Tinha ambições para os filhos. Queria vê-los crescer saudáveis e
felizes. Queria muito que, da Quinta da Seara, os seus rapazes
saltassem os socalcos e se embrenhassem no mundo.
Queria
mostrar-lhes que o barroco do lameiro fundeiro das suas terras não
era nada comparado com a Paiva, lá em baixo, onde tantas vezes já
fora deitar as redes, na mira de sorte na pescaria que lhe valesse um
petisco para o jantar do meio-dia de Domingo. Mas que a Paiva, mansa
de consolo em Verões de abrasar o corpo e o chão, ou brava de meter
medo em Invernos rigorosos, quando o bramido das águas se ouvia por
todo o vale, a Paiva era uma criança até chegar ao Douro, soberbo
de orgulho e de força. E que, mergulhadas as suas águas no caudal
do grande rio, mesmo assim continuava a ser uma criança trémula de
medo, ao enfrentar o mar imenso.

O
mar, o mar imenso... Tão grande, que o vapor demorara quase um mês
a atravessá-lo. E os seus rapazes tinham que ver e que sentir a
imensidão das coisas. Da água e da terra. Das cidades e das gentes
por esse mundo fora. Que os seus rapazes não haviam de ser menos que
os filhos dos outros. Dos outros, dos que ele conhecera no Brasil,
onde se ganhava dinheiro certo e não faltava trabalho. E não haviam
de faltar oportunidades para os seus rapazes serem alguém.
Era
esse o maior sonho de João Trindade. Por isso, quando cada um deles
chegou à idade de aprender a ler, obrigou-o a ir para a escola. Já
se sabia que ficava longe, os caminhos eram carreiros ruins de
atravessar até Vila Seca, a perto de uma hora de distância, o lugar
mais próximo onde a Mestra ensinava um grupo de rapazes, numa salita
meia escura. Tudo rapazes. Não era que fossem obrigados, naquele
tempo, à frequência da escola. Mas quem soubesse ler e escrever
tinha o futuro garantido.
No
caso das raparigas, a situação era diferente. Eram raríssimos os
casos em que os pais dispensavam as filhas do trabalho e as mandavam
para a escola. Nem haveria necessidade disso – pensava João
Trindade. Para quê mandar para a Mestra a única rapariga que o
Senhor lhe deixara ficar? Para quê, se a vida da mulher era no lar,
a tratar do homem, dos filhos, da casa, dos animais e das terras, se
adregasse de as ter? Que sempre uma mulher haveria de arranjar que
fazer e onde empregar forças e afectos. Que sempre uma mulher
ficaria melhor no aconchego do lar, que por esse mundo fora, louvado
seja Deus!
Louvado
seja Deus, que a João Trindade calhara-lhe a sorte grande. Mulher
trabalhadeira a sua. E respeitadora. Amiga do marido e cumpridora dos
seus deveres de mulher e mãe. Que Deus lha conservasse.
Maria
Emília de seu nome, filha de gente de bem, família de boa formação
religiosa e moral, tia de Padre, era ela o grande apoio daquele lar.
Nunca se lhe ouviu uma praga, um maldizer, um berro zangado. A calma
em pessoa, era esta mulher que, desde madrugada, não parava até
altas horas da noite. Para tratar da casa, dos filhos, do homem. E de
tudo o resto, que a seu cargo tinha tudo o resto. Animais e terras. E
as compras na vila ou na loja de Sobradinho, ou na de Ribas. E a lã
para fiar e fazer caturnos. E o linho para semear, mondar, regar,
colher, massar, tascar, limpar, fiar, dobar, tecer. Do pouco linho
que conseguia cultivar no lameiro do meio, abaixo da casa. Que
haveria de lavar na barrela e estender no coradoiro, em lençóis e
brancas toalhas. E, pela noite fora, ajudar o homem na costura. Que o
tempo fez-se foi para trabalhar.

O
que lhe valia era a filha, a única que o Senhor lhe deixara, desde
que a última lhe morrera, com doze anos apenas. A sua Margarida, que
Deus havia de ter no céu. O que lhe valia era a filha. A Céuzita,
calma e obediente como a mãe, trabalhadeira como a vida lho exigia.
Humilde e meiga como a mãe, responsável e atenta como o pai lho
exigia. Sorridente e acomodada como a mãe, discreta e púdica como o
Senhor Abade lho exigia. Que a sua religião e os ensinamentos da
Santa Madre Igreja tinham grande peso nas famílias e nas pequenas
comunidades espalhadas por todo o vale da Paiva e serras ao derredor.
-
Ó senhora mãe, daqui por quinze dias é a festa de Nossa Senhora do
Carmo. Já falta pouco para o 16 de Julho. E eu queria estrear uma
saia e um lenço da cabeça...
-
Já sabes que o teu pai te dá sempre qualquer coisa para estreares
no dia da festa. Mas é só uma peça, que os teus irmãos são
quatro e eu prometi que dois deles haviam de levar o andor de Nossa
Senhora na procissão. Sempre têm que ir bem arranjados. Tu
contenta-te com a saia, ou com o lenço. Eu falo com o teu pai.
-
Mas eu é que sou a mordoma da festa... Também gostava de ir bem
arranjada!
-
E vais, e vais, minha filha. Vai ser a rapariga mais linda daquela
festa! - aconchegava a mãe.
-
Ó senhor pai, então sempre me dá a saia para a festa? E também me
dá um lenço? Já nem lhe peço uma blusa de chita...
-
Era o que faltava! Ainda no inverno te fiz uma nova.
-
O riscado já se rasgou. Também... ando sempre com ela... Tanto se
suja e tanto se lava, que tem que se romper.
-
Não respondas ao teu pai! - repreendeu João Trindade, de mau humor.
-
Tenho sempre que me calar. Já sei, já sei...
-
Ela anda a ficar muito atrevida! Também me responde a mim! Não
sejas malcriada, Céu. Senão, pode sair-te cara a brincadeira! -
aconselhou o irmão mais velho, em tom irónico.
-
Eu não disse mal nenhum...
-
A pequena não disse nada que ofendesse ninguém, valha-me Deus! Só
pediu uma saia e nada mais...
E
dirigindo-se à filha:
-
Vai segando o caldo, que eu já vou ter contigo para conversarmos.
Maria
do Céu já não ouviu a mãe. Cabisbaixa, meteu-se em casa a
resmungar sozinha. Que não havia direito, os rapazes tinham tudo e
faziam o que lhes apetecia. Ao contrário dela, que tinha que se
calar a tudo. Pegar no que lhe dessem, sem nada poder pedir. Mas o
que mais a deixava triste era o pai pôr-se sempre do lado dos
irmãos. Que, esses sim, davam-lhe cabo do juízo. «Céu para aqui,
Céu para ali, Céu para tudo e mais alguma coisa».
Não
era que não fossem amigos dela, mas falavam como se fossem todos
seus pais.
-
Não vês que o irmão só te quer bem? Quer é fazer de ti uma
mulher como deve ser, valha-me Deus! - contemporizava a mãe, com
aquela calma na voz.
Aquela
calma que enchia o lar de paz. Que fazia de todas as horas, momentos
de carinho e de sossego.
Aurora
Simões de Matos