“FERREIRINHA - A VOZ DE UMA LENDA”
A VOZ DE UMA LENDA
Desde
sempre me senti fascinada por uma das Vozes maiores deste Douro, que
lhe ofereceu e a quem ofereceu a razão e o sentir de uma vida ímpar,
perpetuada na intemporalidade de forças, convicções, ideais e
sensibilidades que a transformaram na Figura quase lendária em que o
mito, de mãos dadas com a História, paira ainda nas águas e nas
margens deste rio que a viu nascer, assistindo ao crescer e ao pulsar
de um percurso impetuoso, com rasgos de heróico desassombro. Deste
rio que a viu morrer.
Do
Douro e para o Douro, a Voz da “Ferreirinha” emerge em
fragilidades e forças misteriosas, a repercutirem a fidalguia e a
ruralidade de uma região em que a Mulher, por força de todas as
circunstâncias, pode ainda e sempre rever-se na coragem, na
persistência e na generosidade desta grande senhora. Na humilde
altivez de quem, vencendo pequenas e grandes barreiras, se impôs ao
respeito, à admiração e ao carinho dos grandes nomes e das gentes
mais ignoradas. Na independência de quem, desafiando todos os
preconceitos, se impôs pela agudez da inteligência, pelo
desassombro de atitudes, pela audácia de actos que marcaram uma
época. Na defesa de valores ancestrais, como a multiplicação do
património, a solidariedade para com os desprotegidos, a coesão da
família, a delicadeza de sentimentos. Mas também a coerência de um
carácter moldado ao arrepio de todas as convenções.
Antónia Adelaide Ferreira nasceu em 1811. Descendente de abastados proprietários do Douro, foi muito devido à sua iniciativa empreendedora que esta região se cobriu de cepas em vastíssimas extensões e que o vinho do Porto levou a todo o mundo o nome de Portugal, em sabores e aromas inconfundíveis. Nas suas vinte e cinco quintas, desde Barqueiros até Barca de Alva, desbravou terrenos até aí incultos, ajardinou a paisagem de opulenta riqueza, abriu caminhos e estradas, construiu casas sólidas e luxuosas. Edifícios modelares, apoiados por grandes armazéns.
Empregou mais de mil trabalhadores ao mesmo tempo. Nas suas quintas do Vesúvio, Travassos, Monte Meão, Mileu, Nogueiras, Granja, Valado, Boavista, Aciprestes, Vila Maior, etc., chegou a colher por ano 4000 pipas de vinho. Resultado da multiplicação dos bens que havia herdado da família. Resultado de colossais plantações e replantações quando, cerca de 1870, a filoxera trouxe a devastação e a tragédia às vinhas do Douro.
Antónia Adelaide Ferreira nasceu em 1811. Descendente de abastados proprietários do Douro, foi muito devido à sua iniciativa empreendedora que esta região se cobriu de cepas em vastíssimas extensões e que o vinho do Porto levou a todo o mundo o nome de Portugal, em sabores e aromas inconfundíveis. Nas suas vinte e cinco quintas, desde Barqueiros até Barca de Alva, desbravou terrenos até aí incultos, ajardinou a paisagem de opulenta riqueza, abriu caminhos e estradas, construiu casas sólidas e luxuosas. Edifícios modelares, apoiados por grandes armazéns.
Empregou mais de mil trabalhadores ao mesmo tempo. Nas suas quintas do Vesúvio, Travassos, Monte Meão, Mileu, Nogueiras, Granja, Valado, Boavista, Aciprestes, Vila Maior, etc., chegou a colher por ano 4000 pipas de vinho. Resultado da multiplicação dos bens que havia herdado da família. Resultado de colossais plantações e replantações quando, cerca de 1870, a filoxera trouxe a devastação e a tragédia às vinhas do Douro.
Seu
avô, José Bernardo Ferreira, era já homem de muitos haveres.
Morreu fuzilado por soldados franceses durante uma patrulha, na
terceira invasão, porque estes o tomaram por um seu desertor, devido
ao primor com que falava a língua de Napoleão. Deixou três filhos:
José Bernardo, pai de D. Antónia, António Bernardo e Francisco.
Dos
três descendentes deste avô azarado, herdou a “Ferreirinha” o
que cada um tinha de melhor. Se do tio mais velho, António, lhe veio
o rasgo de génio e a enorme perícia para grandes golpes comerciais,
que a transformariam num dos maiores vultos do mundo empresarial
português, ao tio Francisco foi buscar a originalidade, a
irreverência, o desapego a certos padrões vigentes. Mas foi o pai,
José Bernardo, quem lhe legou a excepcional bondade.
Continuando
a obra social que o seu progenitor vinha desenvolvendo no Douro,
empenhou-se em actos de generosidade que lhe valeram a veneração do
povo e o nome carinhoso de “Ferreirinha”. A sua acção está
presente na construção dos hospitais da Régua, Lamego,
Vila Real, Moncorvo, Misericórdias do Porto. E as Caldas do Moledo
são obra sua. O balneário, as piscinas, o parque que compõem as
termas tiveram a presença dos reis e da alta roda de Lisboa e
Porto. O Palácio do Moledo foi construído, para D. Antónia receber
El-Rei D. Luís.
Nas
suas casas, espalhadas pelos quatro cantos do Douro, recebeu ilustres
personalidades, figuras de Estado, altos dignitários da Corte,
portugueses e estrangeiros da mais alta estirpe.
Barão de Forrester
Barão de Forrester
Dentre
eles, destaque para um britânico, o barão de Forrester, grande
defensor da qualidade do vinho do Porto, a quem a Câmara do Peso da
Régua declarou “Protector do Douro”. Mas o rio que ele tanto
visitara, medira, desenhara, fotografara, estudara e amara, onde
tanta vez navegara, causando, com o seu luxuoso rabelo, o
deslumbramento e o espanto das gentes, matou-o tragicamente, durante
um naufrágio, junto ao Cachão da Valeira. Assistiu ao desastre D.
Antónia, que naufragou também, mas acabou por salvar-se.
A
“Ferreirinha” e o barão de Forrester são duas das figuras mais
importantes de sempre na região duriense. Pela força das suas
personalidades, pelo rasgo dos seus génios, pelas suas lendárias
aventuras.
O
primeiro marido de D. Antónia, primo direito António Bernardo
Ferreira, filho de seu tio António, formou com ela um casal
elegantíssimo, que fazia as delícias dos salões de festas de
Lisboa e do Porto. Fez grandes obras na Quinta do Vesúvio, que
causaram a admiração de quantos por ali passavam. Ausentava-se por
grandes temporadas ao estrangeiro, entregue a hábitos de luxo e
requintados prazeres, esbanjando grande parte da sua enorme fortuna,
o que muito desgostava D. Antónia. Morreu em Paris, apenas com 32
anos, deixando a jovem viúva com dois filhos menores e o encargo de
administrar, sozinha, a maior casa agrícola do Douro.
O
segundo marido, Francisco José da Silva Torres, fora o seu principal
procurador. Homem de bem, amigo fiel, sempre estivera a seu lado nos
bons e nos maus momentos. Foi par do reino e amigo íntimo do rei D.
Luís e de Fontes Pereira de Melo. Incansável no apoio à mulher,
conseguiu, em 1865, a liberdade de comércio dos vinhos do Alto
Douro, um sonho antigo da família Ferreira. Morreu em 1880.
![]() |
Vinhas do Douro (Dourofotos) |
D.
Antónia, de novo viúva e só, continuou, mesmo em idade avançada,
a gerir as suas empresas com um dinamismo excepcional, a espalhar
caridade e promoção social. O povo venerava-a. Quando passava a sua
carruagem, mesmo vazia, os camponeses, em sinal de respeito, tiravam
o chapéu.
Morreu
em 1896, aos 85 anos, na sua Casa das Nogueiras, rodeada pela
família, a quem fora tão dedicada. A sua perda foi muito sentida,
não só na região, como a nível nacional.
Dela
se contam muitas histórias, umas verdadeiras, outras cheias de
fantasia. Atribuem-se-lhe amores e desamores, romances e aventuras,
dramas e brejeirices. Tudo isso, aliado ao facto de poucos se poderem
gabar de ter tido com ela familiaridade, contribui para o adensar do
mistério que a tornou numa das lendas mais vivas que paira sobre o
Douro, onde, segundo os crédulos do fantástico, o seu espírito
continua a vaguear por entre os bardos. Do Douro e para o Douro, a
Voz da “Ferreirinha”.
***
POR
MARIA D'ASSUNÇÃO,
CONTRA O DUQUE DE SALDANHA
Pelas
terras durienses
Caía
a noite de breu
E
a noite escura caiu
Também
no coração seu
***
***
De
encontro à alma apertava
A
filha, com muito amor,
E
pela noite fugiam
Aterradas
de pavor
Muita
lágrima chorou
E
nas Chagas, em Lamego
Umas
horas pernoitou
***
***
Dali
a Vila Real
Disfarçada
de campónia
Teve
o apoio da gente
Que
tanto amou D. Antónia
***
***
Sempre
abraçada à filhinha
Por
Maria d'Assunção
Soluçava
a Ferreirinha
E
não dava a sua mão
***
***
Sua
mão tão pequenina
Pois
onze anos teria
Queria
o Duque Saldanha
Com
seu filho casaria
***
***
Àquela
hora, Travassos
Estaria
já cercada
Pelos
homens do Marechal
Que
à força a queriam casada
***
***
Mas
as duas, em burrinhos
Já
a caminho de Espanha
Mãe
e filha estavam salvas
Das
mãos do Duque Saldanha
***
***
E
para Londres seguiram
Para
aí permanecer
Até
Saldanha cair
E
perder todo o poder
E
Maria d'Assunção
Ter
idade de escolher

Estas
quadras muito simples, ao jeito da literatura de cordel tão vulgar
no século XIX, bem podiam ter sido vendidas em folhetos, contando o
drama que comoveu o País, ainda hoje nos enche de ternura e ilustra
bem a fibra e a sensibilidade desta insigne Mulher capaz de desafiar
os mais poderosos pelas suas convicções e sobretudo de, como
qualquer mãe, expor a vida por sua filha.
São
feitas desta raça as Mulheres do Douro, de quem a “Ferreirinha”
é certamente um emblema, a guardar com o maior respeito e com o
maior orgulho.
Aurora
Simões de Matos
(Do livro "Vozes do DouroAntologia de Textos Durienses" - 2004
Edição da Câmara Municipal de Lamego)
2 comentários:
Maravilhoso. O que fez D. Antónia foi extraordinário.
Muito obrigada pelo comentário, querida Prazeres Caseiro. A Ferreirinha foi um exemplo muito digno, do qual devem orgulhar-se as mulheres do Douro!
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