domingo, 17 de fevereiro de 2013

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013


 

FLORBELA ESPANCA

Análise Literária
 

TERTÚLIA DO HOTEL LAMEGO

09/02/2013








 
Análise literária por Dra.Maria Irene Cardoso

(Também no Site Oficial da Organização Internacional de Cultura, Nova Acrópole... Lisboa)

http://www.nova-acropole.pt/a_florbela_espanca.html
 

Senhora Professora Dona Aurora Simões de Matos,

Organizadora desta Tertúlia Literária



Minhas Senhoras e meus Senhores:



Apesar do encantamento que sempre experimentei relativamente à poesia de Florbela Espanca, apesar do fascínio que sempre em mim provocou o mundo florbeliano, povoado de palavras cheias de beleza, de ritmo e de múltiplas sugestões, confesso que me não foi fácil alinhavar esta meia dúzia de considerações sobre a Poetisa. Considerada como a maior de Portugal. A razão da dificuldade invocada é a riqueza imensa da sua obra, sobretudo a poesia: concisa, na dignidade formal dos seus sonetos, revestidos de harmonia e de equilíbrio. Toda uma estética de contenção, à boa maneira da Antiguidade Clássica. E, apesar disso, oferecendo, esta poesia, a expressão mais sentida dos mais exaltados arroubos de amor, de angústia, de ansiedade ou de desespero, de saudade ou de nostalgia: modos de expressão e de sentir que situam a Escritora sob a esfera de múltiplas influências literárias finisseculares (do século XIX para o século XX): o Romantismo, o Parnasianismo, o Simbolismo.

Segundo José Carlos Fernández, «Os seus poemas são galerias de sonho…»; «Em alguns sonetos, Florbela é uma árvore amada que sempre espera e cujas raízes morrem de sede, em outros é um vitral alquímico e sinfonia de cor.»


Florbela Espanca nasceu no Alentejo, em Vila Viçosa, no dia 8 de Dezembro de 1894, filha (tal como seu irmão Apeles) de uma mãe solteira e de um pai casado com outra mulher que não a mãe.

A morte prematura de seu irmão, que se despenhou no Tejo, a bordo do avião que pilotava, lançou a Poetisa numa indescritível angústia, o que acabou por acentuar o pendor melancólico, angustiado, mesmo, e saudosista do seu espírito. A seu irmão, dedicou os livros de contos: “Máscaras do Destino” e “Dominó negro” e ainda, pelo menos, dois sonetos.

Frequentou, Florbela, o liceu na cidade de Évora e matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, já depois de separada de seu primeiro marido. Casou pela segunda vez e pela segunda vez se separou. Casou ainda uma terceira vez, tendo vivido em Esmoriz e em Ovar onde seu marido, Mário Lage, era um notável clínico.

Desencantada da vida, tendo entrado numa espiral de sofrimento anímico indescritível, faleceu, no ano de 1930, em Matosinhos, no dia do seu 36º aniversário.






Fazendo contas, Florbela Espanca nasceu há cerca de 118 anos e faleceu há cerca de 82 anos.


De temperamento amoroso, terno, sonhador e arrebatado, derrama em poesia apaixonada as suas intensas e doridas vibrações: eróticas e sentimentais. Florbela é uma alma que vive na procura incessante da perfeição, do ideal, que nunca conseguirá encontrar em homem nenhum, em nenhum dos amores que viveu.


Prince Charmant…


No lânguido esmaecer das amorosas

Tardes que morrem voluptuosamente

Procurei-O no meio de toda a gente.

Procurei-o em horas silenciosas!



Ó noites da minh’alma tenebrosas!

Boca sangrando beijos, flor que sente…

Olhos postos num sonho, humildemente…

Mãos cheias de violetas e de rosas…



E nunca o encontrei!... Prince Charmant…

Como audaz cavaleiro em velhas lendas,

Virá, talvez, nas névoas da manhã!



Em toda a nossa vida anda a quimera

Tecendo em frágeis dedos, frágeis rendas…

-Nunca se encontra Aquele que se espera!...


Desiludida, mas insaciável na sua sede de perfeição, insaciável na sua sede de Ideal, volta-se para si, na procura vã do ideal de si mesma, que também não encontrou. Então, como Narciso, também Florbela, não tendo conseguido encontrar a perfeição em si, apaixona-se pelo seu reflexo, o “eu” que é perfeito nos seus sonhos. Há mesmo uma atitude de orgulho, de vaidade, de altivez. E até de sobranceria.




Vaidade


Sonho que sou a Poetisa eleita,

Aquela que diz tudo e tudo sabe,

Que tem a inspiração pura e perfeita,

Que reúne num verso a imensidade!


Sonho que um verso meu tem claridade

Para encher todo o mundo! E que deleita

Mesmo aqueles que morrem de saudade!

Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!



E agora um extracto de outro soneto:


Altiva e couraçada de desdém,

Vivo sozinha em meu castelo, a Dor!

…………………………………………….

Castelã da Tristeza, porque choras

Lendo toda de branco, um livro de horas,

À sombra rendilhada dos vitrais?...


À noite, debruçada p’las ameias,

Porque rezas baixinho?...Porque anseias?...

Que sonho afagam tuas mãos reais?...

Castelã da tristeza”
 

Ao reler agora Florbela Espanca, veio-me à ideia a lembrança de um extracto do livro Voo nocturno do escritor e piloto aviador francês, Antoine de Saint-Exupéry. Uma das personagens principais deste romance é Fabien um piloto aviador (tal como Saint-Ex.). Quase no final da narrativa, a personagem Fabien, de noite, a bordo do seu avião, atravessa uma tremenda tempestade, e tendo perdido o contacto com a torre de controlo, em Buenos Aires, para onde se dirigia, acabou por se desnortear e se perder. Tentando sair do negrume da tempestade, e não tendo referências, Fabien elevou-se nos ares acima das nuvens, que iam clareando, e atingiu uma zona onde via as estrelas, esplendorosas na sua luminosidade. (Mau presságio: a personagem Fabien vai despenhar-se, caindo do céu, no seu avião). Mas antes do desastre, há um momento de exaltação que nos é descrito da seguinte forma:



«Ele [Fabien] vagueava por entre as estrelas acumuladas com a densidade de um tesouro.[…] Por entre preciosas pedrarias, ele vagueia, infinitamente rico, mas condenado.»

Voo nocturno -Antoine de Saint-Exupéry (trecho traduzido e adaptado)


Não condenada, espero, mas é este o sentimento de riqueza, de «…riqueza acumulada com a densidade de um tesouro», que eu própria experimento ao abordar a poesia de Florbela Espanca. Exactamente pela riqueza, pela opulência e pelo brilho estelar das palavras, das imagens, das sensações e das sugestões desta linguagem mágica, vertida em sonetos de impecável recorte clássico. E também pela grandeza imensa e subida, a tocar as estrelas, do seu amor, dos seus anseios, dos seus sonhos, da sua saudade…saudade de um mundo que ela entreviu para lá da vida… numa dimensão superior… «Em Florbela Espanca, não há voos filosóficos, mas há transcendência» - observa Aurélia Borges que foi discípula de Florbela Espanca e sua fiel amiga.

Florbela tem, dentro da alma, o desejo intenso de alcançar o Absoluto, o Infinito:




«Porque o meu Reino fica para além…

Porque trago no olhar os vastos céus

E os oiros e clarões são todos meus!...»

                                “Versos de orgulho”



  «O amor de um homem? – Terra tão pisada
  Gota de chuva ao vento baloiçada…
   Um homem? – Quando eu sonho o amor de um Deus!...»



Diz-nos o escritor José Régio que «…vários sonetos nada ficam a dever aos melhores da língua portuguesa.» E prossegue: «Florbela nasceu artista, nasceu esteta. Sobretudo por ter demonstrado que soube lidar com as palavras, de modo a fazê-las render o máximo de sugestão, de expressão, de relevo. Muitos dos seus versos são verdadeiros tesouros de sugestão.» (Fim de citação).







Na poesia de Florbela, temos como atrás ficou dito, expressivas influências do Romantismo, do Parnasianismo, do Decadentismo, e do Simbolismo. Há aspectos em que estes movimentos literários se entrelaçam e há aspectos em que se opõem. Em todos eles Florbela colheu o seu lirismo, a sua capacidade de sugestão, o luxo das palavras, algumas raras, carregadas de beleza de sugestões várias, e ainda o requinte e a elevação do verso bem talhado, escultórico, perfeito, musical.

«De la musique, avant toute chose» -» -A música, antes de tudo» - dizia o poeta Simbolista Verlaine.


Românticos são os seus arroubos poéticos, na expressão do mais ardente amor, pletórico de sentimento e de erotismo. Numa vibração muito feminina e muito exaltada, o amor é avassalador, total. Florbela Espanca investiu no amor as suas ânsias mais ardentes de Absoluto, de Infinito. O intimismo lírico, o tom confessional e a expressão de uma tristeza, saudade e angústia que nada mitiga, bem como o sentimento de solidão, são também traços do Romantismo, potenciados pelo seu pendor melancólico e pelo seu drama existencial. Na sua poesia avulta ainda, à maneira dos Românticos (e já dos Pré-Românticos) o gosto pela paisagem ensombrada e o gosto pela noite.


Note-se a veemência arrebatada da expressão da angústia:



Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!

Gritem ao mundo inteiro esta amargura,

Digam isto que sinto, que eu não posso.

Neurastenia

Note-se o gosto pela noite, pela escuridão, tão própria dos Românticos e também dos Simbolistas:



Eu não gosto do sol, eu tenho medo

Que me leiam nos olhos o segredo

De não amar ninguém, de ser assim!



Gosto da Noite imensa, triste, preta,

Como esta estranha e doida borboleta

Que eu sinto sempre a voltejar em mim!

A minha tragédia”


E a vastidão do mar, toda essa água,

Trago-a dentro de mim, num mar de mágoa!

E a noite sou eu própria! A Noite escura!!!


Note-se o amor arrebatado, avassalador:


E é amar-te assim perdidamente…

É seres alma e sangue e vida em mim

E dizê-lo, cantando, a toda a gente!


O Parnasianismo, movimento literário essencialmente poético, surgido como reacção contra o Romantismo, e proclamando «a Arte pela Arte», manifesta-se, entre outros aspectos, pelo culto da beleza formal. Influencia Florbela Espanca na perfeição dos seus sonetos, impregnados de harmonia e de equilíbrio, de escultórica estrutura, de serena beleza.


Quem me dera encontrar o verso puro,

O verso altivo e forte, estranho e duro

Que dissesse a chorar isto que eu sinto.

Tortura”


O Simbolismo e o Decadentismo emprestam à poesia de Florbela o requinte formal (como no Parnasianismo), e sobretudo as temáticas do isolamento e do egotismo altivo do poeta, o gosto (que já vem do Romantismo) pelo impalpável, o vago, o nebuloso e o indefinido, bem como a visão pessimista da existência. O Simbolismo e o Decadentismo cultivam, de modo muito acentuado, a musicalidade do verso, fazem o aproveitamento estético da camada sonora das palavras, o significante, e investem nos ritmos, nas cadências, usam palavras requintadas e raras, semanticamente ricas e plenas de sugestões várias, de modo a apreenderem a beleza, a delicadeza e os matizes dos estados de alma, e um mundo intangível, porque metafísico.


O poeta António Nobre (a quem Florbela chamava pelo nome mítico-literário, “Anto”) influenciou também a Poetisa, sobretudo pela egolátrica nostalgia de um mundo sonhado, pela atitude de fechamento aristocrático, pelo saudosismo, mas também pela poetização do real quotidiano e pela musicalidade e o ritmo do verso.


Torre de névoa

Subi ao alto, à minha Torre esguia,

Feita de fumo, névoas e luar,

E pus-me, comovida, a conversar

Com os poetas mortos, todo o dia.


Contei-lhes os meus sonhos, a alegria

Dos versos que são meus, do meu sonhar,

E todos os poetas, a chorar,

Responderam-me então: - « Que fantasia,


Criança doida e crente! Nós também

Tivemos ilusões como ninguém,

E tudo nos fugiu, tudo morreu!...»



Calaram-se os poetas, tristemente…

E é desde então que eu choro amargamente

Na minha Torre esguia, junto ao céu!...


……………………………….

Fui tudo o que no mundo há de maior,

Fui cisne, e lírio e águia e catedral!

E fui, talvez um verso de Nerval,

Ou um cínico riso de Chamfort…

………….

Ah! De Boabdil, fui lágrima na Espanha!

E foi de lá que eu trouxe esta ânsia estranha!

Mágoa não sei de quê! Saudade louca!

O meu mal







Perpassa pela poesia de Florbela Espanca o amor avassalador, sentimental, feito de profundos afectos e de vibrante sensualidade, o erotismo que se sente em muitos dos seus versos, como aliás, já foi dito. Mas também, e de um modo muito sentido e muito íntimo, o amor à terra, à sua terra.

Diz-nos Massaud Moisés (e passo a citar):


«Uma tão obsessiva e poderosa capacidade de amar, sendo incompreendida, derrama-se na Natureza, originando poemas de tons panteístas, logo transformados em melancólica ternura pela terra-mãe, por Évora, pelos lugares da adolescência e por si própria.«(Fim de citação).

É a charneca alentejana, a sua Charneca em flor, com a qual Florbela se identifica, como sua voz e como sua Musa:



«Charneca em flor


Enche o meu peito, num encanto mago,

O frémito das coisas dolorosas…

Sob as urzes queimadas nascem rosas…

Nos meus olhos as lágrimas apago…



Anseio! Asas abertas! O que trago

Em mim? Eu oiço bocas silenciosas

Murmurar-me as palavras misteriosas

Que perturbam meu ser como um afago!



E nesta febre ansiosa que me invade,

Dispo a minha mortalha, o meu burel,

E já não sou, Amor, Soror Saudade…



Olhos a arder em êxtases de amor,

Boca a saber a sol, a fruto, a mel:

Sou a charneca rude a abrir em flor!»


Na obra do Dr. José Carlos Fernández, Florbela Espanca, A vida e a obra de uma Poetisa, podemos ler, de Aurélia Borges, uma citação colhida no seu livro Florbela Espanca e a sua obra:

«Florbela é a grande intérprete da alma ardente, sequiosa e iluminada, da imensa planície alentejana. Ninguém como ela, em verso ou em prosa, nos soube dar o espelho fiel da grande charneca.»


Não posso deixar de assinalar que o Director da “Nova Acrópole” em Portugal, Dr. José Carlos Fernández, ilustre escritor, filósofo e investigador, filho da «nobre Espanha» (como diria Camões), apresenta, no seu livro, um poema retirado do espólio de Fernando Pessoa, e no qual o Poeta considera Florbela como a sua alma gémea.


«Em memória de Florbela Espanca

Fernando Pessoa

Dorme, dorme, alma sonhadora,

Irmã gémea da minha!

Tua alma assim como a minha,

Rasgando as nuvens, pairava

Por cima dos astros

À procura de novos mundos,

Mais belos, mais perfeitos, mais felizes.»

………………………………………..


Todos sabemos que Fernando Pessoa domina literariamente todo o século XX e é, com Camões, a mais importante figura das letras portuguesas.


A recolha de sonetos de Florbela Espanca é composta de quatro livros, a saber: Livro de Mágoas, Livro de Soror Saudade, Charneca em Flor e “Reliquiae”.



O que é a poesia? O que é ou quem é o Poeta?

E Platão dá-nos a resposta:


«Coisa leve, alada e sagrada, é o poeta…»


Na concisão destas palavras, temos a menção da delicadeza da essência do acto poético, da iluminação que lhe é própria, rumo a novos e insuspeitados horizontes, e temos também a noção de que quem faz poesia é alguém que está impregnado de algo de divino ou que, privilegiadamente, está sob protecção divina.


Esta concepção do acto poético como um “furor poeticus” e do poeta como um ser iluminado, abençoado por um deus, sofreu grandes modificações ao longo dos séculos.


A poesia é uma especial manifestação de Beleza, pelo sentido ( o significado) pelo som (o significante), as sonoridades, agradáveis pela alternância de fonemas bem combinados, e ainda pelas sugestões várias que desperta em cada ouvinte, em cada leitor…

Sabemos que a obra literária é semanticamente autónoma, pois a sua verdade e a sua coerência, como um todo orgânico, são de natureza contextual-interna. Embora não seja, também uma entidade autónoma, fechada em si. A obra literária mantém conexões com o real, ao nível do símbolo, da fantasia daí decorrente, da tentativa de uma interpretação ou de uma significação outra do mundo e da vida. A condição para que um texto seja literatura é o ser obra imaginária e ser capaz de provocar emoção estética, ou seja: criar Beleza. Um texto com estes predicados é obra de arte.

Segundo o poeta norte-americano, Edgar Allan Poe, o mestre da moderna poesia, «a Beleza é o único fim da poesia e de toda a literatura». «E a Beleza – prossegue - consiste numa voluptuosa elevação da alma.»

Contudo, estes poetas da modernidade consideram que a poesia, a literatura em geral, não procedem apenas da inspiração, da originalidade individual, de uma qualquer “iluminação” extática. Assim o grande Charles Beaudelaire, na encruzilhada de três escolas literárias, o Romantismo, o Parnasianismo e o Simbolismo, menciona o magistério de Edgar Allan Poe e de De Maistre, dizendo: «De Maistre e Edgar Allan Poe ensinaram-me a raciocinar». Com efeito, Beaudelaire aprendeu, assim, o gosto pela claridade mental e a desconfiança perante o entusiasmo poético, desprovido de racionalidade. Estamos longe da concepção clássica da Antiguidade, segundo a qual o poeta fazia poesia em transe, possuído de uma “divina loucura”, dádiva abençoada de alguma divindade. Assim, diz-nos Charles Beaudelaire, «…o acto poético não se identifica com o abandono à emoção, ao sentimento […] mas exige rigor, lucidez, obstinação.» Na mesma linha, Paul Valéry diz-nos que «…a criação poética é uma actividade de puro rigor mental, uma ascese da inteligência e da vontade; não o resultado de uma alucinação, um sonho, um arroubamento, ou um êxtase.» E o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade ensina-nos:

«O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.» E acrescenta: «A poesia mora no reino das palavras […] «…lá estão os poemas que esperam ser escritos.»

Assim, a teoria do “fingimento poético” de Fernando Pessoa representa um carácter fundamental de toda a literatura: ser criação imaginária, transfiguração estética da realidade: pensamento, anseio ou vivência concreta. Só depois dessa “transfiguração” do real, obra da inteligência, porque é nela que se realiza, produto do labor do poeta, criando Beleza, só depois, aquilo que é dito ou escrito é digno de ser considerado obra de arte literária.

Já o poeta Horácio, na Roma da Antiguidade, não negando a necessidade e o valor dos dons naturais do poeta, a energia vital que lhe é própria, no acto criador, sublinha o valor da cultura, do bom gosto e do trabalho paciente, que permite aperfeiçoar o poema (ou - acrescento eu – qualquer obra de arte).

Contudo, para lá de todas as teorias e doutrinas literárias, o Professor Doutor Vítor Manuel Pires de Aguiar e Silva, um dos maiores teóricos de Literatura do mundo inteiro, glória de Portugal, meu Mestre de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, diz-nos: «…uma forte ambiguidade, um esfíngico segredo, hão-de envolver sempre a criação poética.»


Nenhuma obra de arte é unívoca. A riqueza de cada uma reside na pluralidade de sentidos, de sugestões e de emoções que desperta. Como um diamante lapidado, a obra de arte brilha, soberanamente, em todas as direcções. A sua riqueza reside na emoção estética que desperta: o esplendor da Beleza.


Impunham-se estas considerações, antes de regressarmos a Florbela Espanca.


No início do seu Livro de Mágoas, inscreveu a Poetisa os seguintes versos do introdutor do Simbolismo em Portugal, Eugénio de Castro (discípulo de Beaudelaire, de Verlaine e de Mallarmé, entre outros).



E passo a dizer os versos de Eugénio de Castro:


«Procuremos somente a beleza, que a vida

É um punhado de areia ressequida

Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa…»


Aqui temos, em Eugénio de Castro, como em Florbela, os temas clássicos da beleza e da transitoriedade da vida, este último a lembrar Heraclito de Éfeso quando nos diz: «Ninguém se banha duas vezes nas águas do mesmo rio.»


Mas fixemo-nos nas primeiras palavras dos supracitados versos de Eugénio de Castro:


«Procuremos somente a beleza…»


E dou, uma vez mais, a palavra a Florbela Espanca:


«Tardes da minha terra, doce encanto,

Tardes duma pureza de açucenas,

Tardes de sonho, as tardes das novenas,

Tardes de Portugal, as tardes de Anto.


Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!

Horas benditas e leves como penas,

Horas de fumo e cinza, horas serenas,

Minhas horas de dor em que eu sou santo!

                        


«Noitinha

A noite sobre nós se debruçou…

Minha alma ajoelha, põe as mãos e ora!

O luar, pelas colinas, nesta hora,

É água dum gomil que se entornou…



Não sei quem tanta pérola espalhou!

Murmura alguém, pelas quebradas fora…

Flores do campo, humildes, mesmo agora,

A noite os olhos brandos lhes fechou…


Fumo beijando o colmo dos casais…

Serenidade idílica das fontes,

E a voz dos rouxinóis nos salgueirais…


Tranquilidade… calma… anoitecer…

Num êxtase, eu escuto, pelos montes,

O coração das pedras a bater…»



Razão tem o filósofo grego, Platão, quando nos diz:



«À vista da beleza, ganham asas as nossas almas.»



Segundo o mesmo filósofo, o Belo serviria para conduzir o homem à perfeição. Efectivamente, a Beleza eleva os nossos espíritos.



E Sócrates, o maior filósofo da Antiguidade Clássica, dizia:

«Toda a beleza é difícil.»





Na opinião do filósofo alemão Arthur Schopenhauer: «O belo é um resplandecer, um esplendor, uma cintilação com que o supra-sensível Bem se revela na dimensão do sensível, atraindo-nos.»


E citando, de novo, Platão: «… o que os humanos chamam Amor é somente uma parte ínfima do autêntico amor – este é o desejo do Belo e do Bem, da Sabedoria e da Felicidade, da Imortalidade, do Absoluto.» Este Absoluto que a Poetisa procurava no Amor, com a ânsia ardente de quem sonha com o Infinito…



E é já nos finais do século XX, ou no dealbar do século XXI, que o eminente teólogo, Joseph Ratzinger (hoje Sua Santidade o Papa Bento XVI), responde a Florbela Espanca e a cada um de nós:


«Só o Infinito preenche o nosso coração.»


***



Maria Irene Bernardo Cardoso

Lamego, 9 de Fevereiro de 2013

domingo, 10 de fevereiro de 2013

A CASA ASSOMBRADA - Conto de Aurora Simões de Matos


A Casa Assombrada
Conto



Não havia volta a dar. A casa estava assombrada e ninguém se atrevia a passar-lhe por perto, a partir do lusco-fusco que cobria a Terra com seu manto de dúvidas e temores.

Não havia volta a dar. Apesar de ainda habitável e senhora de certo conforto que outras ao redor não possuíam, ninguém conseguia dormir nela nem que fosse um curto sono, comer nela nem que fosse um moado de caldo, acender na tosca lareira uma rápida fogueira de pinhas. Rezar nela um padre nosso pequenino.


Vasculhando nas memórias de uma vida, Ti Belmiro Penata, que na infância vivera muito perto da Casa Assombrada, lembrava, para a equipa de uma estação de rádio que o entrevistava, as peripécias insólitas que sempre fizera por esquecer.
 Mesmo quando a força das lembranças o incomodava, assobiava para o lado, rezava o Credo em Cruz e fazia-se de forte. E quando os sonhos lhe povoavam a noite de visões macacas, levantava-se mais cedo, ia à fonte lavar a cara com água fresca e munia-se de sachola, como quem se arma contra o Rabudo, com vontade de lhe cortar o rabo. E os chifres. Que os tinha o bicho, afiançava ele. Bem lhos tinha visto uma noite, ao vir do talhadoiro do Senhor dos Caídos, carreiro acima, à luz da lua cheia.

Então, conte lá, Ti Belmiro. Alguma vez, como vizinho que foi desta casa, viu ou sentiu aqui alguma coisa estranha?

Pois então não vi? Vi eu e viu quem quis ver... Aquilo eram festas e mais festas, barulho de concertinas, passos de grandes bailações. Pelas janelas abertas, viam-se luzes a passar, embora a casa estivesse vazia. As velas acesas cruzavam-se no ar, como se alguém as levasse na mão!



Mas não havia mãos; só havia velas...

Exatamente. Ainda me arrepio, só de falar nisso. Credo em Cruz, Santo Nome de Jesus! Abernúncia!


E Ti Belmiro, homem dos seus setenta e tais, passava as costas da mão pela testa, como que a limpar os suores frios que lhe causavam tais lembranças.

Mas agora já não se vê nada disso... continuava o entrevistador.

Pois não! Mas para isso tiveram que vir aí três padres benzer a casa. Estiveram ali metidos durante três dias e três noites e ninguém sabe o que lá se passou.

E de quem é esta casa?

A Casa Assombrada dantes chamava-se Casa das Rolhas, porque os donos tinham aqui família, mas viviam há muito lá para perto de Lisboa, onde negociavam em rolhas de cortiça. Era gente de teres e poucas vezes estavam por cá. Só durante algum tempo de verão. E nem sempre. Até que acabaram as visitas e deixaram isto tudo ao abandono.

Mas agora está tudo em paz!

É o estás! Acabaram-se as festas e as luzes, mas ficou o Rabudo. Ele há noites, quando a lua cheia deixa tudo iluminado, em que muitos já viram aí à porta, ou à janela, ou mesmo em cima do telhado, um macaco de grande rabo e dois chifres. Como se fosse um chibo, mas com cara de macaco. Chamam-lhe o Rabudo. É o diabo que ficou a guardar a casa. Ninguém se atreve a chegar-se perto. Mesmo os animais, quando passam ali à porta, na encruzilhada dos quatro caminhos, ficam mudos e começam a andar de lado, virando o focinho, como que a desviarem-se. Vê-se que os bichinhos ficam contrariados.

Mas isto acontece em algum outro lugar, aqui nas redondezas?

Não senhor! O que eu sempre ouvi dizer foi que esta casa, há muitos, muitos anos, funcionou como cadeia. Eram tempos de guerra e por aqui passou um grupo de soldados inimigos, que entraram na aldeia e fizeram pouco de todas as mulheres que encontraram. Abusaram delas e mataram-lhes os filhos pequenos. Mas os homens da terra juntaram-se, apanharam-nos e meteram-nos na tal casa, deixando-os morrer à fome. Mais tarde, a casa foi comprada pelos tais das rolhas. Mas nunca ali houve sossego. Também há quem tenha ouvido gritos vindos do forno da cozinha. Por acaso, eu nunca ouvi nada disso. Agora as danças das velas e o Rabudo em cima do telhado, isso eu vi, sim senhor.

Ó Ti Belmiro, e aquelas Alminhas mesmo na encruzilhada, também já têm muitos anos?

Há umas Alminhas e três cruzes de pedra. É que, por via destas coisas, já ali morreram três pessoas, em alturas diferentes e de maneiras diferentes.
 Um rapaz morreu de desastre, quando a motorizada se despistou e foi cair no barroco, a uma altura de trinta metros. Outro morreu com duas facadas, quando um vizinho deu com ele a roubar-lhe a água da rega no talhadoiro. E a terceira, uma rapariga ainda jovem, caiu ali morta, engasgada com uma côdea de pão. Tudo mortes macacas. Por isso é que lá foram postas as cruzes. E as Alminhas são para se rezar e recolher esmolas para as almas do purgatório.

Enquanto dura a conversa entre o aldeão e os dois entrevistadores, vai-se juntando gente curiosa, cada qual comentando o assunto à sua maneira, mas nunca olhando de frente para a Casa Assombrada.

Nisto, um rapazito, na inocência da sua traquinice, observou aos berros:



Ó avô, está uma cabra em cima do telhado! É a cabra preta da Ti Zulmira!


Aproveitando o ajuntamento e fazendo-se de forte, o senhor Mendonça foi a casa buscar a caçadeira e, indiferente aos avisos e receios do pessoal presente, atirou a matar. Dois tiros de espingarda, bem certeiros, na barriga daquela cabra chifruda.

Cuidado, que é a cabra preta da Ti Zulmira!

Cuidado, que é o macaco Rabudo!

Cuidado, que é o diabo a vigiar-nos! Credo em Cruz, Santo Nome de Jesus! Abernúncia! T'arrenego, Satanás!

Ai a minha rica cabra preta! vociferava Ti Zulmira.

Mas já o cheiro de pólvora queimada invadia os ares, enquanto o animal, resvalando pelas lousas do telhado da Casa Assombrada, caía no chão com grande estrondo, uma nuvem de fumo escurecia os ares e os vidros do carro dos jornalistas, inexplicavelmente, se rachavam de alto a baixo.

Será que matámos o diabo?

Não há dúvida! Ele vai aparecer por aí outra vez! comentavam os mais desconfiados.

Credo em Cruz! Isto é um espelho nunca visto!

A notícia correu veloz por toda a freguesia e o sineiro da igreja paroquial tomou a iniciativa de tocar os sinos a rebate, em sinal de alvoroço.

Tontice! rematou o senhor Abade. Sempre haverá Deus e sempre haverá o Diabo a querer fazer-Lhe frente.


Mas já a voz aflita e revoltada de Ti Zulmira reagia aos acontecimentos, exigindo justiça.

E agora, quem me vai pagar a minha cabra preta?








Aurora Simões de Matos
Do livro "Contos de Xisto"

Editora Edições Esgotadas
(Também à venda na Net)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013



INSÓNIA


 POEMA




Quando a solidão tomar conta de mim
E a insónia da noite acontecer,
Quando a surdez do grito reprimido
Aumentar ainda mais o meu sofrer,
Quando a injustiça da vida traiçoeira
Continuar sobressalto e pesadelo
E a cicatriz ainda por fechar
Teimosamente resolver sangrar...


Quando a solidão tomar conta de mim
E o meu peito, ofegante de cansaço,
Ou quem sabe, sedento de emoção,
Não conseguir conter aquele soluço
Que me sacode o corpo num frémito de dor
E angústia e revolta... e raiva... e desamor...


Por muito insónia que minha noite esteja,
Por muito injusto que meu soluço seja,
Lá fora a noite esqueceu já meu pranto...
Lá fora a noite continua linda...
Lá fora há luz, há cor, há céu, há mar...
Lá fora, há gente que me espera ainda.


Lançarei ao vento meu queixume magoado,
Apanharei a pétala que o vento me trouxer...
Farei dessa pétala um amuleto perfumado,
Meu mais belo segredo de Mulher...
Deixarei florir meu riso embriagado,
Deixarei fruir minha gargalhada linda...
Lá fora, há gente que me espera ainda.


E à injustiça do destino traiçoeiro
Que lançou no abismo meu gozo mais profundo,
Responderei serena, forte, de cabeça erguida...
Lançarei, corajosa, um desafio ao Mundo...


Largarei os fantasmas do meu coração,
Para conceder à Vida... outra vez... o meu PERDÃO...


Aurora Simões de Matos



sábado, 2 de fevereiro de 2013



CHUVA MIUDINHA

POEMA





Era uma chuva miudinha
muito leve,
tão leve que não caía
em vez de cair, subia
e andava pelo ar,
com vontade de brincar.


Só que eu não queria,
nem sequer me apetecia
brincadeira
e fiquei a olhar a chuva,
à minha porta encostada,
de maneira
a não ser importunada.


Mas a chuva miudinha
entrou
pela minha porta dentro
sem cerimónia nenhuma,
brincando ao sabor do vento
e molhou
e molhou-me todo o rosto
e levou minha pintura
e desfez meu penteado
e me deixou tão sem jeito,
que me deu para pensar
como é
que uma chuvinha a brincar
pôde meu dia estragar...

         Aurora Simões de Matos