domingo, 27 de outubro de 2013

MENSAGEM DE OUTONO



A  COR  DA  MELANCOLIA





O peitoril desta varanda outonal, de onde preguiçosa e melancolicamente me detenho, é o ponto privilegiado do patamar a que consegui chegar. Mais por mercê da inexorabilidade do tempo do que por força das minhas ambições. 
Sinto-me bem nesta melancolia colorida de Outono, que assumo como aquele estado de graça em que, numa predisposição lógica e natural para a revisão sentimental(ista) dos meus sonhos, percepciono pequenas e grandes respostas a pequenas e grandes perguntas, com a lucidez que ultrapassa e apaga quase todas as dúvidas.

Até porque o acumular e o desmoronar de tantas das minhas ilusões e desilusões se transformaram naquela incomensurável mais-valia que quase me garante a imunidade ao risco.

Perante a explosão de cheiros, sabores e musicalidades, na profusão cromática de tanta vida em mim, sinto que quase já nada tenho a perder. É a sensação de vitória, entre melancolias de paz.



                                                          Aurora Simões de Matos




sábado, 19 de outubro de 2013

FOZ DO DOURO - AO ENCONTRO DAS ÁGUAS DO PAIVA, DOURO E ATLÂNTICO





AO ENCONTRO DAS ÁGUAS







No limite da margem, frente à Foz, testemunho emocionada o encontro entre os gigantes.
Mas a minha emoção não é apenas este encontro. Ela vem já de cima, presa noutras águas que a este Douro afluem. Mergulhada noutras frescuras que a este Douro dão corpo, vida e identidade. Pressentida no desassossego  que neste ponto desagua, forma reticente do alarme que, nos labirintos do tempo, abre caminhos à saudade.

A minha emoção vem da intimidade com o leito de franjas bordadas a  verdes tons, nos milheirais da minha terra. Está na voz das águas em cantilenas límpidas, nas manhãs claras de luz e nos queixumes rumorejados em profundezas de vales sombrios. Vive na pureza das cascatas, desfazendo-se em espuma branca de volúpia e no serpentear preguiçoso que orla as tardes silenciosas da minha aldeia.



Com o meu Paiva, esta emoção percorreu caminhos feitos de claridade e tempos feitos de bruma. Deslizou por veredas estreitas de chão apagado, terra rendada de urze e de giesta nascidas do xisto negro... e alargou-se em planuras de fertilidade. Saltitou travessuras em seixos macios de granito acomodado à prova dos anos e quedou-se, em tranquilidades lascivas, à borda das hortas, presa aos gestos lânguidos dos salgueirais. Venceu os percalços das levadas e das represas, brincou nos alcatruzes das noras e no romantismo de moinhos à espera de pintores e de poetas.



 Olhando este Douro prisioneiro da sua tradição e da sua lenda, soberbo de grandeza e de orgulho, ensalivo de ternura palavras urdidas na voz dos sentidos e dou comigo a segredar-lhe perguntas sem resposta.

E que respostas sem mágoa poderia ele dar-me sobre a limpidez das águas que o meu Paiva, inocente e generosamente, lhe ofereceu?



Segredo-lhe queixumes, sufocados em suspiros rendidos à evidência:

- Onde está o rosto do corpo no rio da minha aldeia?
- Que ânsias alterosas lhe abafaram a voz?
- Que enredos imprevistos tentam afogar-lhe a história?
- Em que caminhos esqueceu os vestígios, para se perder nesta viagem para um destino sem contemplações?
- Que prenúncios são os que pairam na densa atmosfera que envolve este momento?






Vejo bandos de gaivotas, varando o céu com silvos agudos de conquista e oiço ainda, muito ténue, o medo do meu Paiva, tão longe já do rouxinol e da cotovia, do pisco e do tentilhão.

Em breve se afogará no mar. Levará consigo os murmúrios e os tumultos deste instante e deixará, desprendidas das águas já salgadas, lágrimas suspensas na bruma da despedida.

E eu aqui, no limite da margem, frente à Foz, testemunha emocionada do encontro entre os gigantes, ignorando o que possa estar para além desta paisagem...
Porque - recordando Fernando Pessoa - é evidente que muitas águas correrão...« para além do rio da minha aldeia»...



                                        Aurora Simões de Matos





(no livro "Imagens da beira-Paiva"--- 2010, Palimage)












(fotos da net, de Miguel Batalha e Pedro Figueiredo)

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

S. LEONARDO DE GALAFURA


NO DOURO COM MIGUEL TORGA

S. LEONARDO DE GALAFURA

(Fotos de Nelinha Barros)





S.Leonardo de Galafura












                                                                        Aurora Simões de Matos



terça-feira, 15 de outubro de 2013

Parada de Ester ---- A Casa dos Mirandas


A Casa dos Mirandas
 Relíquia de arquitetura e de afetos


 A Casa dos Mirandas, em primeiro plano, ao centro


Rio Paiva, que banha os campos de Parada de Ester




 Trecho de Parada antiga 

Estamos bem perto do rio, aqui onde a correnteza da Paiva amansa e se espraia, ora em quietudes benfazejas, ora em brando saltitar, como quem brinca em leito de preguiças.

Estamos em Parada de Ester, aqui onde os campos deveriam verdejar de fartas águas e aloirar de fartas espigas de milho. Aqui, onde há bem poucas décadas, grupos de vacas pastavam em lameiros tranquilos de erva fresca e os rebanhos saíam para o monte, na mansa pacatez de um quotidiano rotineiro, mas sempre cheio de vida. Aqui, onde o alvoroço da Feira dos Doze fazia a história mensal das atividades económicas de uma região em que a agricultura e a pastorícia, o artesanato e o pequeno comércio não deixavam ninguém sem trabalho. Aqui, onde crianças e adultos fervilhavam de vida pelas ruas empedradas ou de terra batida, que se cruzavam em todas as direções e sinuosos declives. Aqui, onde não havia casas desabitadas e as gentes se tinham acomodado a um viver parco de outras perspetivas que não fossem as da sua tradição, e ainda assim iam construindo alegremente a felicidade possível.

Mas o caso mudaria de figura quando, a partir das facilidades trazidas pelo alargamento das redes de estradas e de transportes, a eletrificação de toda esta região, a chegada de novas tecnologias de comunicação e a obrigatoriedade de mais amplos estudos para os jovens, se iniciou a debandada migratória, em busca de melhores condições de vida e novos acessos a patamares de cultura mais elevados.

Toda esta situação agravada por políticas governamentais devastadoras para os agricultores.

À semelhança do que aconteceu noutras regiões, muita gente partiu para as grandes cidades portuguesas ou estrangeiras, deixando Parada sem braços suficientes para o cultivo das suas terras que, pouco a pouco, foram ficando a monte, num abandono que poucos tinham previsto

 As construções de "Parada antiga", em primeiro plano,
contrastam com as de "Parada moderna", em segundo plano


Em contrapartida, a construção de novas casas espalha-se por todo o lado, obrigando ao alargamento da área urbana e impondo novas mentalidades e novos estilos de vida.

Parada não parece a aldeia da minha juventude. Completamente descaracterizada, resta-lhe a compensação de um novo tipo de conforto e bem-estar, que lhe são garantidos pelos novos equipamentos das modernas habitações. Cada uma maior e melhor, mais bonita e mais bem apetrechada que a outra, ostentando o resultado do trabalho árduo e da pequena poupança, às vezes penosa, dos seus emigrantes.

Indiferente à euforia de todo este aparato desenfreado, uma Casa que marca toda a diferença. Pela natureza da sua arquitetura, pela qualidade da sua construção, pelo charme da sua presença, pela força de uma economia que tão bem representou, pela dignidade de vidas que acolheu. Pelo respeito com que se impôs na comunidade em que foi símbolo de abastança e boa organização, mas também de práticas de vida exemplares.

Situada bem ao fundo e um pouco separada da povoação, a Casa dos Mirandas lá continua, há bem mais de um século, a representar a grandeza de uma história familiar das elites rurais que marcaram o século XX, na freguesia de Parada de Ester.

Os habitantes da aldeia chamam-lhe mais propriamente “A Casa das Senhoras Mirandas”, numa prova de deferência pelas cinco irmãs contemporâneas das gerações mais idosas.

Quando D. Maria dos Anjos, D. Virgínia, D. Angelina, D. Arminda ou D. Cândida subiam a íngreme calçada de pedra, desde o fundo do Povo onde tinham a sua casa, até ao cimo onde ficava a Igreja, para assistirem à Missa, sempre em cadeiras próprias, nos melhores lugares da frente, toda a gente lhes dirigia um cumprimento especial, marcado pelo respeito e uma certa distância.

Tinham um irmão, Alfredo Miranda, mas a administração da Casa estava a cargo de D. Virgínia. Não seria tarefa fácil, devido ao tamanho da residência e dos vastos terrenos que lhe pertenciam, como à quantidade de criados e caseiros que ali trabalhavam, apoiados por duas juntas de vacas.


Campos de milho em Parada de Ester



Como nota invulgar desta família, é de referir que D. Arminda e D. Cândida, sendo irmãs gémeas, nasceram obviamente no mesmo dia. Foram também batizadas ao mesmo tempo. Curiosamente, casaram na mesma cerimónia. E fizeram-no ambas com irmãos de bispos. D. Arminda casou com um irmão do Bispo de Eiriz, Senhor D. João Crisóstomo Gomes de Almeida. D. Cândida casou com um irmão do Bispo de Reriz, Senhor D. José de Noronha. Ele há coincidências bem interessantes!

A Igreja Paroquial de Parada de Ester


A Casa dos Mirandas, ao contrário de praticamente todas as outras, numa zona xistosa, foi totalmente construída em granito vindo de fora da freguesia. O que, no século XIX, não seria tarefa fácil, devido às dificuldades de transporte, já que a estrada só seria construída na década de 40 do século XX.

Desde sempre pertenceu à família Miranda que, em 1904, a beneficiou com grandes obras de restauro e aumento. As suas janelas e varandas, dotadas de ornamentos em ferro pintado, são bem típicas dessa viragem do século.

Passados cerca de cem anos, a Casa sofreu recentemente novas e grandes obras, mantendo embora intacta a traça inicial.

Pelos seus três andares, distribuem-se agora vários espaços modernizados e adaptados ao conforto que hoje se exige de uma casa de férias. Quem pode exigi-lo, evidentemente. No lugar da adega, há uma sala de jogos. Várias salas e vários quartos, numa reinvenção prática dos conceitos atuais de bem-estar.

No terreno circundante, de que grande parte foi vendida a particulares, as hortas da quintazinha foram substituídas por relva e árvores de fruto.

A Casa nunca saiu da família. Num negócio entre vários irmãos e sobrinhos, o imóvel foi comprado por um deles e pertence agora ao Dr. Luís Cardoso Rocha, advogado na cidade do Porto e a sua esposa, Dra. Susana Castro Guimarães, magistrada na mesma cidade.

Situada num lugar de excelência, a Casa dos Mirandas continuará, por muitos anos ainda, a marcar uma paisagem impressiva de rústica naturalidade e de forte presença arquitetónica. Relíquia de afetos, entre os verdes e férteis campos de Parada de Ester. 
 



Aurora Simões de Matos
(No livro Contos de Xisto -- 2012
Editora Edições Esgotadas)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

POEMA------DESILUSÃO






DESILUSÃO


Eu queria fazer em palavras as imagens que trago nos olhos
e vestir com gestos de harmonia a súbita memória
mas não há olhos que cheguem aonde não há olhar
nem vozes que cheguem aonde não há palavras...

Não há gestos sem corpo que os prenda a um regaço
nem canções sem lábios que as sintam no silêncio
sem ecos de outras canções a alongarem-se no tempo...

Não há vibrações de sangue a enviar mensagens
quando a água com que se mata a sede da chegada
é a mesma com que se fazem as lágrimas da espera...


                                        Aurora Simões de Matos



sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Douro e Lamego...O mesmo Poema

ALI PASSAVA UM RIO

AQUI  ERGUEU-SE  UM  TEMPLO




Uma só voz bastava para formar um coro
palavras dispersas no chão em estendal
alargado até perder de vista
ao alcance de todos os sentidos
de todos os caminhos sinal de quantas águas
 que poço de memórias e segredos
por mim viessem correr

Aqui passava um rio...

*
Uma só voz bastava para cantar o hino
que no lastro de uma vida acomodada
ao avesso das coisas ao tamanho de horizontes
onde o mundo se alarga em sóis e neblinas
fosse ainda a sobra de qualquer madrugada
cujo feitiço transbordasse para além do tempo

Aqui brilhava um astro

*
Uma só voz bastava para contar a história
das dores e alegrias de quantas histórias
 se cruzassem em turbilhão de afectos
a vida em socalcos requebrados 
de trabalhos e canseiras
num prodígio de natural deslumbramento
em cenário inviolável aos horizontes do querer

Aqui ria uma fonte

*
( ... )



( ... )

Uma só voz bastava que relembrasse a História
das pedras milenares
heranças e oferendas espalhadas
para depois se encontrarem no orgulho
porque é assim que se fala do passado
o sangue e a esperança no estandarte
desfraldado de tanta fidalguia
numa idade entre a vida e a morte
que não ousa repetir o que já foi escrito

Aqui era um cipreste

*
Uma só voz bastava a sugerir a dureza
na força expressiva das pedras
dos montes e dos caminhos
lugares onde a verdade é rude
e outra gente a nossa gente
abre portas de lés-a-lés
e à beirinha do nada silencioso
vai mastigando sem gosto e sem pressa
o sabor sem fruto duma vida 
mascarada de todos os rigores

Aqui cresciam cardos

*  
Uma só voz bastava  para o fervor da prece
que avassala de fé o coração da terra
e se transforma em lágrima e emoção
sorriso puro de encantamento
 lábio trémulo de respeito e gratidão
quando os socalcos requebrados de incertezas
se desdobram em cascata de farturas
 jardim florido de inocências e alegrias
e a altivez se desnuda em humildade
nas palavras do salmo e no sentir da alma

Aqui ergueu-se um templo...

*



                           Autora  - Aurora Simões de Matos




( Excerto do poema "Vozes de sol e chuva"

no livro VOZES DO DOURO ...Antologia de textos durienses
2003
Edição da Câmara Municipal de Lamego