quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Um poema na voz de Aurora

UM POEMA NA VOZ DE AURORA


-----Aos Poetas de Lamego----

Salão Nobre da Câmara Municipal de Lamego




domingo, 25 de novembro de 2012

Malhadinho





Tão pequeno e indefeso,
nasceu no monte
à sombra duma giesta em flor,
amparado pelo pegureiro
com mãos calejadas só de amor!

Nasceu da «Malhada»
que, balindo, toda dor,
confiou sem reservas o seu filho
ao generoso pegureiro
de mãos calejadas só de amor!

Um tufo de fentos e erva seca,
ao lado duma torga abandonada,
foi seu primeiro ninho de calor
no aconchego da primeira mamada..
.
E quando ao fim da tarde conheceu
os caminhos que iam dar ao lar,
sentiu o abraço enternecedor
que o levava ao peito,
muito ao jeito
do bondoso pegureiro
com mãos calejadas só de amor!

Cresceu o «Malhadinho»!
Já sabe andar sozinho
e não precisa da ajuda de ninguém,
nem mesmo do úbere de sua mãe.


Mas, quando calha, dia madrugado,
a vez de abrir a porta ao gado,
a vez de fazer sua vigia
ao amigo pegureiro
de mãos calejadas só de amor,
há sempre um olhar terno de alegria
e um balido de bom entendedor.

Aurora Simões de Matos


sábado, 24 de novembro de 2012

A ninhada



Era a ninhada
acocorada
debaixo da mãe galinha
quietinha
não fosse algum deles fugir
e sair
do calor das asas dela.

Ela rodava
ajeitava
debicava com carinho
levezinho
cacarejando de amor
ao redor
junto da palha amarela.

E o pintainho
apertadinho
deu a primeira corrida
conseguida
e fugiu da mãe pedrês
um dois três
só seis ficaram com ela.

Mas a galinha
coitadinha
além de galinha mãe
é também
mãe-galinha mãe zelosa
e receosa
avista aberta a cancela.

Abre uma asa
qual a casa
e levando os pintainhos
bem juntinhos
os seis baixinho a piar
vai buscar
os três pra debaixo dela.

E mal se move
que são nove
na hora de recolher
têm que todos caber...

Mas que família tão bela!



Aurora Simões de Matos

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Quando o Verso se Desfolha – Programa N.º 9

A voz de Aurora Simões de Matos
em três poemas
Rádio Clube de Lamego
 
 
(Do livro Poentes de mar e serra:
- Dá-me tudo o que te peço
                                - Malhadinho
                                - Trovoada na Serra)


Clique no link a seguir:
Quando o Verso se Desfolha – Programa N.º 9

quarta-feira, 21 de novembro de 2012


As Alminhas, nichos de fé




Uma das mais ingénuas e românticas manifestações de arte popular, associada à religiosidade do nosso povo, são as Alminhas.

São pequeninos oratórios, onde os vivos podem rezar pelos mortos em sofrimento nas penas do Purgatório.

Construídas em pedra, podem ter formas diversas, mas são fundamentalmente constituídas por um nicho com pintura ou imagem resguardada ou não por protecção de vidro e encimado por uma cruz em relevo. Por vezes, mãos piedosas encarregam-se de nelas manter mais ou menos viçosas as flores de uma jarrinha.

Com o tempo, desapareceram alguns pormenores destes pequenos monumentos, como as tábuas pintadas em que sobressaía o fogo vermelho onde ardiam e sofriam as almas, assim como os anjos que levavam as purificadas a caminho do Paraíso.

As Alminhas foram construídas como sinal de uma tradição de fé, em tempos bem recuados, quase sempre por iniciativa das Irmandades das Almas, que muitas vezes nelas inseriam pequenos cofres de ferro chumbados na pedra. Estes cofres destinavam-se a guardar as esmolas dos crentes, para depois se mandarem celebrar missas de sufrágio pelas almas do Purgatório. Essa prática caiu em desuso e hoje já não é costume deixarem-se ofertas em dinheiro.

Através dos tempos, plantadas à beira dos caminhos, nas encruzilhadas, nos cunhais das habitações, em muros estratégicos, discretas ou bem visíveis, a encimar fontes ou à entrada de pontes centenárias, estes sinais de devoção tão profunda e piedosa do nosso povo sempre têm merecido o carinho de quem não é indiferente à tradição.

Muitas estão em ruínas ou desapareceram entretanto. Muitas outras vão acompanhando o desenrolar de novas eras e sofrendo adaptações mais ou menos consentâneas com a rusticidade que lhes é tão peculiar. Algumas transformaram-se mesmo em pequenos monumentos de cariz estilizado, de acordo com a pessoa ou a entidade que quis deitar-lhes a mão, evitando o seu desaparecimento.

Os nichos das Alminhas, onde quer que se encontrem e qualquer que seja o seu estado de conservação, emprestam sempre à paisagem uma impressão de tranquila afectividade e levam-nos a pensar nos outros como irmãos, com generosa emoção. Assinalam a presença do Cristianismo e são pontos de referência para os residentes e para os viajantes.

No meu concelho, na Serra ou no Vale, não há povoado em que não se encontrem umas ou várias Alminhas.

Curiosamente, a casa onde nasci ostenta, num dos seus muros voltados para o caminho público, um desses nichos. Por diversas ocasiões, a dita parede foi sujeita a obras de restauro e beneficiação. No entanto, uma imagem enfeitada com flores lá continua, embora adaptada a novos tempos.

A minha rua? Chama-se Rua das Almas, naturalmente. É um sítio de passagem, um ponto de encontro, um lugar de regresso.

É a Rua das Almas, despojada e simples, como simples são os nomes das coisas à beira-Paiva.




terça-feira, 20 de novembro de 2012

Bailes antigos





Naqueles tempos de menina
que minha lembrança encerra,
recordo com saudade
os bailes da minha terra...

Rapazes, chapéu ao lado,
e as moças bem sadias,
algumas delas rogadas
nas povoações vizinhas,
mesmo doutras freguesias,
faziam do seu bailar
a arte de bem saber
como, num rodopiar,
se pode a vida viver...
E como bem o faziam!...
Porém, as comprometidas,
com a sua compostura,
a um só par se ofereciam,
bem à maneira do crer
em valores que defendiam.

E ai da voz ou do gesto,
um simples olho piscar
do intruso que tentasse
seduzir namoro alheio!
Fervilhavam os ciúmes,
e a faca de dois gumes
que o baile traduzia
em perigo e alegria,
poderia redundar
cena de pancadaria.

Se tudo corresse bem,
vigorava o fresco viço
dos corpos, sangue maciço
a redobrar de euforia
ao som da gaita de beiços
ou então da concertina,
em loucas valsas de roda,
em chulas, danças da moda,
e também na mais esperada
de toda a bonita dança:
a célebre contradança
que a todos enfeitiçava.

«Agora ao centro tudo...
e outra vez...
rodas em cabeceiras...
rodas ao outro lado...
à direita passeia tudo...
procurar o seu par...
é força, balanço e tudo...
mais uma vez rodar...
meia volta e troca o par...»

Nesta dança delirante
de cega obediência
ao mandador bem falante,
num jogo de resistência
que não permitia engano,
os meus olhos não largavam
meu Tio Floriano.

Ainda hoje, quando há festa,
gosto de o ver dançar
nos seus setenta e tal anos.
Corpo janota, bem feito,
num porte todo elegante
de tronco muito direito
e pés de grande dançante,
puxar da sua Mulher
e... de repente... esquecer
desgostos e desenganos,
num bailar em rodopio
como nos tempos antigos...
quando era jovem meu tio...

E lembro-me espectadora
de muito roubo de beijos
escondidos no sabor
do toque dos realejos!

Aurora Simões de Matos
do livro Poentes de mar e serra - 1997


domingo, 18 de novembro de 2012


Capela de madeira




Plantado na colina, junto à eira,
erguia-se o canastro de madeira,
belo, robusto, altivo, sobranceiro
na sua postura e autencidade
herdadas do tempo e na rusticidade
da terra-mãe
que lhe oferecera a força e o poder
arrancados à verdade do monte:
o xisto de seus pés e sua fronte,
o tronco de árvore que lhe dera corpo,
a lousa negra que lhe cobria o ser,
o ventre feito de vísceras douradas
na aridez do sol, na aridez do vento,
que corria, livre, à vontade do tempo
e lhe atravessava os ossos, lhe retesava as veias
na generosa intenção de oferecer
a dádiva do amadurecer
o pão, fruto de meses na canseira
do lavrador, até chegar à eira.



Ainda hoje, sereno monumento
à ruralidade, que é de todo o tempo,
podemos vê-lo, na colina plantado,
mesmo que das entranhas despojado,
belo, humilde, saudoso, junto à eira,
lembrando-nos capela de madeira.


Aurora Simões de Matos








quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Oração ao Anjo da Guarda

ORAÇÃO AO ANJO DA GUARDA
Autora --- AURORA  SIMÕES  DE  MATOS

(Do livro Poentes de mar e serra - 1997)



Meu Anjo Bom
Que me segues silencioso
E assistes aos meus erros, desgostoso
E vês os meus momentos de glória
Sentindo tua a minha vitória
Companheiro da noite e do meu dia
Não me abandones, faz-me companhia

Eu sei
Que o teu poder é só o meu poder
E que o meu querer
Nem sempre terá sido o teu querer
Eu sei
Que fui eu que escolhi os meus caminhos
Mesmo quando, em vez de rosas
Eu antes quis espinhos

Eu te agradeço
Por me teres deixado ser sempre EU
Iluminada pela minha Estrela
Que nos espreita sorrindo, lá do Céu
Tu sabes que tudo o que fiz
Eu fiz por bem

Eu te prometo ser sempre assim

Amém.          

                                                  


                                                                                   
                                                                              Aurora Simões de Matos
Chitas em Castro Daire

DESFILE DE VESTIDOS







Texto de abertura do Desfile, no ano de 2008


Oriunda da Índia, a chita chegou à Europa no século XV, na época do grande trânsito marítimo em demanda de novos mundos que, ao Velho Continente, abriram portas para as mais diversas transacções comerciais.
Desde logo, foi enorme a divulgação e a aceitação deste tecido de algodão, caracterizado por tramas simples e desenhos ingénuos de tons garridos, com variadíssimos motivos, estampados de pintas, bolas, riscas, arabescos, flores ou cornucópias.
De textura macia e agradável, cores vistosas e apelativas, facilidade de manuseamento e confecção, a preços acessíveis às bolsas menos fartas, depressa virou moda entre as classes de menores recursos, com especial incidência no mundo rural das aldeias, mas também nas gentes humildes que habitavam e enchiam de vida o quotidiano dos grandes centros urbanos.
Sendo a chita um tecido essencialmente feminino, foi a mulher jovem, a rapariga e a criança quem mais e melhor usufruiram da sua beleza simples, da sua beleza prática, da sua natural e graciosa utilidade, numa variada gama de peças da sua indumentária, onde pontuavam os folhos, as fitas, os bordados, as rendas, as espiguilhas, os favos, os debruados, as pregas, os machos, os franzidos, os godés, os tufados e os rodados. Em vestidos curtos ou compridos, saias, blusas, bibes ou aventais que marcaram o vestuário de várias gerações.
Mas o uso das chitas, que tamanha importância assumiram na vida de um passado não muito distante, foi bastante mais que uma moda.
Desde o século XVIII, até meados dfo século XIX, estes tecidos tiveram um lugar determinante nas relações comerciais entre os mercados, nomeadamente entre Portugal e o Brasil, onde, no século XX, o chamado «Século das Chitas», pela primeira vez o seu uso se generalizou entre os estilistas.
No nosso País, a partir de 1940, por todo o lado passaram a exibir-se concursos de vestidos de chita, onde, a par das tradicionais mostras evocativas de um tempo muito recente, se foi apurando o sentido estético, o bom gosto e a riqueza da fantasia e do pormenor, que ficarão para sempre ligados à época do rock and roll, do twist, do hula hoop.
A chita deixava de ser considerada um elemento «piroso», de gosto duvidoso, para ganhar estatuto de fidalguia, no recuperar de certos acessórios de decoração, ao estilo de muitas casas senhoriais adaptadas ao mundo contemporâneo.
Ao longo dos últimos séculos, muitos foram os escritores e os poetas que nela se inspiraram, para vestirem belas e sensuais personagens de atrevida e saudável garridice ou de elegância mais contida e discreta, num colorido gracioso, que enche páginas de livros e letras de canções imorredouras.
Se é certo que um Povo deve, sem preconceitos, honrar as suas tradições, também é certo que às novas gerações devem ser facilitadas oportunidades para um contacto com essas realidades, a fim de que possam conhecê-las e orgulhar-se delas.
Com esse objectivo de carácter pedagógico redobrado, vamos assistir a mais um «Desfile de Chitas». Como modelos, crianças e jovens da nossa terra que exibirão, por que não com uma pontinha de vaidade, uma mostra da moda, ao tempo de suas bisavós.

Aurora Simões de Matos





Leitura do Poema, pela voz da autora









                                     

                                                    VESTIDO DE CHITA




Texto de abertura do Desfile, no ano de 2009



                I


Era uma linda moçoila
que vivia lá na aldeia
cercada de serranias.
Não tinha ainda vinte anos,
pele morena, negros olhos,
cabelo sempre entrançado.
Fresca moçoila bonita,
seu nome Maria Rita.
Depois da escola, a lavoura
numa vida de trabalho.
A vida vivida à justa
desde o nascer ao sol-pôr,
em tarefas carregadas
entre risos, gargalhadas,
os cansaços à mistura
com cantigas bem cantadas.
E ao domingo, bem cedo,
banho fresco, perfumado,
lençol de linho mudado
com cheirinho a barrela,
saltitava de alegria
e com outras raparigas
ia à missa na capela.
À tardinha, no terreiro,
bailava com seu namoro
e ao toque do realejo
esperava que o seu par
lhe roubasse um doce beijo.
Tão bonita, a rapariga
com o vestido que a mãe
lhe tinha feito ao serão,
todo às pregas bem certinhas
com fundo rosa às pintinhas.
Era um vestido de chita,
seu nome, Maria Rita.


              II


Era uma linda miúda
que vivia lá na vila.
Tinha perto de quinze anos,
pele risonha e seus olhos
quais luzeiros no caminho
alumiavam a vida
de quantos nela cruzavam,
de quantos nela pensavam.
Rua abaixo, rua acima,
espalhando pelos ares
um cheirinho a brilhantina
com o cabelo apanhado
e franja à solta no rosto,
ia ligeira e traquina,
toda ela simpatia,
seu nome Rita Maria.
O riso aberto, alegria
desde o nascer ao sol posto.
Tinha jeito na costura
e à mestra ia aprender
a arte que os pais achavam
ser bonita para a filha.
E foi na mestra, medindo,
cortando com muito amor,
alinhavando e cosendo,
que a futura costureira
para si própria um dia
fez o primeiro vestido
com espiguilha nos bolsos
e na gola redondinha,
todo rodado à cintura
e atrás um grande laço.
Lindo vestido de chita
de tecido – fantasia,
seu nome, Rita Maria.




                                     
                                                     III


                                     Era uma doce menina
                                     que morava na cidade,
                                     e andava pelos dez anos.
                                     Pele macia, olhos azuis,
                                     cabelos loiros à solta
                                     a emoldurar um rosto
                                     sempre à procura, curioso
                                     de tanto para aprender,
                                     de tanto para viver,
                                     muito afável e meiguinha,
                                     seu nome, à data, Ritinha.
                                     Tinha acabado a escola,
                                     ia agora ao liceu,
                                     dava os primeiros passos
                                     para uma vida que os pais
                                     escolheram para um dia
                                     ser como eles, professora.
                                     Ia ao liceu agora
                                     e não esquece aquele dia
                                     que levou a vez primeira
                                     o seu vestidinho azul
                                     que a modista lhe fizera
                                     pelo novo figurino
                                     com modelos lá de fora.
                                     Era um vestidinho aos folhos
                                     todos franzidos ns saia
                                     que ficava bem armado
                                     com saiotinho engomado.
                                     A manga era tufadinha
                                     e o peito com bolero
                                     era todo à mão bordado.
                                     Com seu vestido brilhou
                                     e à hora do recreio,
                                     em lindas danças de roda,
                                     muito ela rodopiou,
                                     toda em chita vestidinha,
                                     seu nome, à data, Ritinha.



                                                                                           Três Ritas e tantas outras
                                                                                           que a vida juntou nos folhos
                                                                                           de um tecido - fantasia
                                                                                           em peças da mocidade,
                                                                                           em pedaços de vaidade.

                                                                                           Maria Rita da aldeia,
                                                                                           Rita Maria da vila
                                                                                           ou Ritinha da cidade,
                                                                                           cada qual a mais bonita,
                                                                                           com seu vestido de chita.



Aurora Simões de Matos

segunda-feira, 12 de novembro de 2012


MORREU A SOBREVIVENTE




É com enorme pesar que informo do falecimento da Tia Céu da Seara, a heroína da minha última publicação escrita.
Completaria 110 anos, no próximo dia 5 de Dezembro.
Não estará connosco na grande festa que lhe preparava a Santa Casa da Misericórdia de Castro Daire e a Câmara Municipal. Continuará, contudo, na memória colectiva de uma região, como personificação da Mulher rural do século XX que, atravessando-o, o ultrapassou, com a ousadia e com a ternura que a caracterizavam.
Lúcida até ao fim, falava como quem reza a oração com que certamente entrou, triunfante, pelas portas ao encontro de Deus.

O Céu estará em festa, na recepção a um Anjo que recordaremos com a maior SAUDADE...

PAZ à sua alma.





UMA NUVEM SE ABRIU


(Poema lido na Eucaristia do funeral de Maria do Céu Trindade)
Igreja da Ermida, 11 de novembro de 2012


Carregavas em ti o peso do mistério,
vivias da memória que, só tua, guardavas
nas horas tranquilas de olhar tão sereno,
qual cofre de segredos que a mais ninguém mostravas.

Ao peso dessa dor, na leveza do amor,
carregavas em ti mil vidas por viver.
Eras, por todas nós, o pulsar quase exangue
a que emprestava força teu peito de MULHER.

Nesta libertação, rumaste agora ao Céu,
qual Anjo de asas brancas na cor desse cabelo
onde marcas só tuas a vida foi pintando.

Restará uma lenda do tempo que foi teu,
na memória dos dias, um nome ficará
a pairar sobre os montes, onde andaste cantando.
           
            Nas águas contra os seixos ouvem-se já queixumes.
É o rio que chora pela gentil figura
que tanta vez olhou e temeu e amou
a Paiva benfazeja, a Paiva da fartura.

E a fonte murmura um segredo baixinho.
Nos campos ondeando, o arbusto tremeu.
Suas folhas caíram, seu caule se quebrou,
gemendo de saudades por alguém que morreu.

É a Mãe- Natureza em pranto redobrado
por esta filha sua que partiu rumo ao Céu,
qual pétala de rosa esvoaçando ao vento.

Uma nuvem se abriu no céu iluminado.
Sua alma, feliz, sorriu e nela entrou...
Nós sorrimos também em nosso pensamento.


Aurora Simões de Matos

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Marcha Bairro do Castelo - 2011 - Castro Daire TV


POENTES DA MINHA INFÂNCIA





Poentes da minha infância








O sol enrubescia de muita luz e cor

e preparava vestes de sensual fulgor

para beijar em festa a serra mais distante.

No mais fundo dos vales, a noite já caíra.

Sereno e protector silêncio sucumbira

ao cansaço do dia, num esforço gigante.





  Em seu leito tranquilo, dormia já o rio.

 Na vertente do monte, o último assobio

do pegureiro exausto de tanta solidão.

 O gado, cabisbaixo, seguia mansamente

caminhos sinuosos em forma de serpente,

chocalhando sinais de vida em união.






Corpos extenuados arrastavam suor,

sentindo em pés descalços contactos de amor

por íntimos caminhos que a casa conduziam.

As leiras já lavradas exalavam frescuras

de terras reviradas, espelhos de almas puras

que por elas lutavam e por elas viviam.




Da robustez dos homens, enxadas companheiras

 salvavam os mais velhos, sentados às soleiras

 de quinteiros agrestes com forte aroma a monte.

 Treinando seus piões, crianças seminuas.

 Cansaço e alegria corriam pelas ruas

 onde todas as pedras olhavam para a fonte.







A aldeia fervilhava de azáfama caseira

e o fumo em que se erguiam novelos da lareira

cheirava ainda à força de quem era Mulher:

o caneco sedento, a ceia para os seus,

o trato aos animais, acreditar que Deus

lhe destinara a sorte, só tinha que a viver.





A poça para abrir, canções pelos caminhos

da água para as regas e a água dos moinhos,

tudo estava sujeito à mesma lei da sorte.

No sino da capela, tocavam as trindades

tangentes badaladas, prenúncio de saudades

da vida sempre igual, do berço até à morte.













Era assim a tardinha de infâncias já distantes

nas encostas da serra, onde tempos marcantes

deixaram a lembrança que me faz regressar.

Tudo se foi no tempo, hoje nada é igual…

a não ser as roupagens de fulgor sensual

que o Sol ainda veste, quando se vai deitar.




         Aurora Simões de Matos


          no livro " Poentes de mar e serra"--------1997






segunda-feira, 5 de novembro de 2012


História de uma Vida – A Sobrevivente
(Continuação)


(Biografia romanceada de Maria do Céu Trindade, que reside há 25 anos no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Castro Daire e que, no próximo mês de Dezembro, completa a bonita idade de... 110 anos)








Capítulo II



Na salita, media, cortava, alinhavava, provava, cosia os buréis, os riscados, os linhos e muito mais tarde os modernos terilenes que lhe cobriam a cama de ferro, a um canto. Tecidos que esperavam a sua mão de hábil artista. O ferro de brasas aceso, com que havia de alisar as peças de roupa que ali ia confeccionando, como alfaiate prestigiado que era. Obra não lhe faltava, ajudado pela mulher. Obra para as aldeias, os lugares e as quintas ao redor. Das redondezas chegavam os fregueses, vindos das lojas da vila ou da feira do Crasto, com os panos à cabeça, atados com uma guita. De tudo fazia e fazia bem. Mas o orgulho maior, sentiu-o ele, quando costurou a farda para a antiga música de Castro Daire. Do seu trabalho de alfaiate haveria de sustentar a casa, que as territas pouco davam, nem para o dia-a-dia. E ele tinha ambições para os filhos.

Tinha ambições para os filhos. E eles eram quatro. Ou cinco, contando com a rapariga, que também comia e a quem igualmente queria muito bem. Tinha ambições para os filhos. Queria vê-los crescer saudáveis e felizes. Queria muito que, da Quinta da Seara, os seus rapazes saltassem os socalcos e se embrenhassem no mundo.

Queria mostrar-lhes que o barroco do lameiro fundeiro das suas terras não era nada comparado com a Paiva, lá em baixo, onde tantas vezes já fora deitar as redes, na mira de sorte na pescaria que lhe valesse um petisco para o jantar do meio-dia de Domingo. Mas que a Paiva, mansa de consolo em Verões de abrasar o corpo e o chão, ou brava de meter medo em Invernos rigorosos, quando o bramido das águas se ouvia por todo o vale, a Paiva era uma criança até chegar ao Douro, soberbo de orgulho e de força. E que, mergulhadas as suas águas no caudal do grande rio, mesmo assim continuava a ser uma criança trémula de medo, ao enfrentar o mar imenso.






O mar, o mar imenso... Tão grande, que o vapor demorara quase um mês a atravessá-lo. E os seus rapazes tinham que ver e que sentir a imensidão das coisas. Da água e da terra. Das cidades e das gentes por esse mundo fora. Que os seus rapazes não haviam de ser menos que os filhos dos outros. Dos outros, dos que ele conhecera no Brasil, onde se ganhava dinheiro certo e não faltava trabalho. E não haviam de faltar oportunidades para os seus rapazes serem alguém.

Era esse o maior sonho de João Trindade. Por isso, quando cada um deles chegou à idade de aprender a ler, obrigou-o a ir para a escola. Já se sabia que ficava longe, os caminhos eram carreiros ruins de atravessar até Vila Seca, a perto de uma hora de distância, o lugar mais próximo onde a Mestra ensinava um grupo de rapazes, numa salita meia escura. Tudo rapazes. Não era que fossem obrigados, naquele tempo, à frequência da escola. Mas quem soubesse ler e escrever tinha o futuro garantido.

No caso das raparigas, a situação era diferente. Eram raríssimos os casos em que os pais dispensavam as filhas do trabalho e as mandavam para a escola. Nem haveria necessidade disso – pensava João Trindade. Para quê mandar para a Mestra a única rapariga que o Senhor lhe deixara ficar? Para quê, se a vida da mulher era no lar, a tratar do homem, dos filhos, da casa, dos animais e das terras, se adregasse de as ter? Que sempre uma mulher haveria de arranjar que fazer e onde empregar forças e afectos. Que sempre uma mulher ficaria melhor no aconchego do lar, que por esse mundo fora, louvado seja Deus!

Louvado seja Deus, que a João Trindade calhara-lhe a sorte grande. Mulher trabalhadeira a sua. E respeitadora. Amiga do marido e cumpridora dos seus deveres de mulher e mãe. Que Deus lha conservasse.

Maria Emília de seu nome, filha de gente de bem, família de boa formação religiosa e moral, tia de Padre, era ela o grande apoio daquele lar. Nunca se lhe ouviu uma praga, um maldizer, um berro zangado. A calma em pessoa, era esta mulher que, desde madrugada, não parava até altas horas da noite. Para tratar da casa, dos filhos, do homem. E de tudo o resto, que a seu cargo tinha tudo o resto. Animais e terras. E as compras na vila ou na loja de Sobradinho, ou na de Ribas. E a lã para fiar e fazer caturnos. E o linho para semear, mondar, regar, colher, massar, tascar, limpar, fiar, dobar, tecer. Do pouco linho que conseguia cultivar no lameiro do meio, abaixo da casa. Que haveria de lavar na barrela e estender no coradoiro, em lençóis e brancas toalhas. E, pela noite fora, ajudar o homem na costura. Que o tempo fez-se foi para trabalhar.

O que lhe valia era a filha, a única que o Senhor lhe deixara, desde que a última lhe morrera, com doze anos apenas. A sua Margarida, que Deus havia de ter no céu. O que lhe valia era a filha. A Céuzita, calma e obediente como a mãe, trabalhadeira como a vida lho exigia. Humilde e meiga como a mãe, responsável e atenta como o pai lho exigia. Sorridente e acomodada como a mãe, discreta e púdica como o Senhor Abade lho exigia. Que a sua religião e os ensinamentos da Santa Madre Igreja tinham grande peso nas famílias e nas pequenas comunidades espalhadas por todo o vale da Paiva e serras ao derredor.

- Ó senhora mãe, daqui por quinze dias é a festa de Nossa Senhora do Carmo. Já falta pouco para o 16 de Julho. E eu queria estrear uma saia e um lenço da cabeça...
- Já sabes que o teu pai te dá sempre qualquer coisa para estreares no dia da festa. Mas é só uma peça, que os teus irmãos são quatro e eu prometi que dois deles haviam de levar o andor de Nossa Senhora na procissão. Sempre têm que ir bem arranjados. Tu contenta-te com a saia, ou com o lenço. Eu falo com o teu pai.
- Mas eu é que sou a mordoma da festa... Também gostava de ir bem arranjada!
- E vais, e vais, minha filha. Vai ser a rapariga mais linda daquela festa! - aconchegava a mãe.
- Ó senhor pai, então sempre me dá a saia para a festa? E também me dá um lenço? Já nem lhe peço uma blusa de chita...
- Era o que faltava! Ainda no inverno te fiz uma nova.
- O riscado já se rasgou. Também... ando sempre com ela... Tanto se suja e tanto se lava, que tem que se romper.
- Não respondas ao teu pai! - repreendeu João Trindade, de mau humor.
- Tenho sempre que me calar. Já sei, já sei...
- Ela anda a ficar muito atrevida! Também me responde a mim! Não sejas malcriada, Céu. Senão, pode sair-te cara a brincadeira! - aconselhou o irmão mais velho, em tom irónico.
- Eu não disse mal nenhum...
- A pequena não disse nada que ofendesse ninguém, valha-me Deus! Só pediu uma saia e nada mais...
E dirigindo-se à filha:
- Vai segando o caldo, que eu já vou ter contigo para conversarmos.

Maria do Céu já não ouviu a mãe. Cabisbaixa, meteu-se em casa a resmungar sozinha. Que não havia direito, os rapazes tinham tudo e faziam o que lhes apetecia. Ao contrário dela, que tinha que se calar a tudo. Pegar no que lhe dessem, sem nada poder pedir. Mas o que mais a deixava triste era o pai pôr-se sempre do lado dos irmãos. Que, esses sim, davam-lhe cabo do juízo. «Céu para aqui, Céu para ali, Céu para tudo e mais alguma coisa».

Não era que não fossem amigos dela, mas falavam como se fossem todos seus pais.

- Não vês que o irmão só te quer bem? Quer é fazer de ti uma mulher como deve ser, valha-me Deus! - contemporizava a mãe, com aquela calma na voz.

Aquela calma que enchia o lar de paz. Que fazia de todas as horas, momentos de carinho e de sossego.




Aurora Simões de Matos