domingo, 21 de julho de 2013

JORNADA AQUILINIANA


                              JORNADA AQUILINIANA



                                       Aquilino Ribeiro

Por TERRAS DO DEMO
Vale Encantado, Nave e Lapa
30 /06 / 2013


Intervenção, à porta da casa onde nasceu Aquilino Ribeiro
( Carregal,Sernancelhe )

Não sendo eu especialista em coisa nenhuma, tão pouco uma aquiliniana assumida, nunca por nunca poderia ou saberia ou me atreveria a uma análise profunda sobre a obra de Aquilino. Deixo essa tarefa a alguns dos presentes que, certamente melhor do que eu, o farão.

O fascínio por este autor, de quem distingo "Terras do Demo ", "Malhadinhas", "Andam Faunos pelos Bosques", vem-me talvez de superiores e transcendentes laços de afecto que me prendem a um telurismo que, subjacente e muito presente em boa parte das coisas que, à minha dimensão, tenho publicado, continua a tomar conta desta identidade de mulher serrana da Beira

E é nessa qualidade e apenas nessa qualidade que, sim,estou muito à vontade para, na circunstância, me enquadrar nos ambientes rurais e bucólicos que o nosso autor descreve com um realismo ora romanceado, ora em carne viva expressa na dureza dos seus usos e costumes, das suas tradições ancestrais, do seu típico linguarejar carregado de regionalismos, dos seus misticismos mais puros.. Num apego umbilical ao mundo campestre e às suas gentes, reflexos de um Portugal hoje praticamente perdido no tempo. Um tempo quase irreal, paradoxo civilizacional da época contemporânea.

Exaltação do torrão natal campesino, num registo impressivo evocador dos ambientes da Beira serrana das primeiras décadas do século XX. Literatura de tradição, em natural convívio com a matriz popular que lhe moldou as marcas da força, da coragem, da irreverência, da ironia ternurenta com que nos fala, em seus personagens, das realidades humanas. Com a matriz popular que lhe oferece o manancial vocabular com que preenche as mais saborosas páginas de uma linguagem tão vernácula quanto romântica. Quantas vezes em expressões satíricas de uma riqueza lexicológica excepcional e única.

Vitorino Nemésio referiu: «A força plástica e musical do mundo aquiliniano é admirável. A serra portuguesa, a aldeia patriarcal, o rebanho transumante, vivem nos seus livros, como a vida flamenga e holandesa, nos quadros dos grandes pintores dos Países Baixos ».

Para ilustrar e documentar as palavras de Nemésio, trouxe um pequeno excerto de " Terras do Demo ". Estas, onde nos encontramos. Estas que Aquilino tão bem conheceu, vivenciou e eternizou em imagens ímpares, onde quis homenagear as paisagens, as ambiências e as gentes austeras de um canto da sua Beira natal. Precisamente o canto que nele próprio, aldeão de nascença, preenche um espaço singular na tradição honrada que lhe é referência.

                                                                                           Aurora Simões de Matos

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(excerto de Terras do Demo)

 « O Chico Brás não tornou a cuquear com a Zefinha do Alonso. Repeso e assustadiço, ia nutrindo a esperança de que os rebates da gravidez podiam ser flato ou endrómina passageira, e mesmo que Nosso Senhor, amerceando-se com a quebra de mancebia, fosse servido de sustar tão grave dano para os dois. E, todo pronóstico, cuidou de pôr os santos da sua banda, rezando-lhes, depois da ceia, uma boa enfiada de padre-nossos e não se esquecendo de ajudar todas as manhãs à missa do padre Zé. Aí estava este, que era um rascoeiro de gema, sem olhar a donzela, viúva ou casada, que para riba dos setenta andava rijo como um pêro, mimoso da divina graça. Ora, o corpo o pede...Deus consente.
O Neve-Ladroa, que fora moço de padeiro no Porto e corria feiras e romarias em chinelos de trança largando pelas tavernas suas loas de borracho e doutor da mula ruça, disse-lhe uma vez, à boca do adro:
-Estás um santarrão, amigo Brás! Mas olha, toma tento com a patroa. O marranito ainda chinca...e para toda a casta de pássaras!
O marranito era o padre, das unhas do qual, muito franzino e tarraco, nenhuma moça saía, a dar crédito às vozes, sem subir ao calvário.
O Brás, beliscado em sua honra, cresceu para ele; mas seguraram-no.
-Eu dou-te a chincadela, pedaço de bêbedo!-espumava ele.
E o Neve-Ladroa, que lhe sabia dos maus repentes, desandou, pigarreando. de envergonhado, aquele seu mormo de velho piteireiro..
O Inverno zurrava lá de riba da Nave, tão ventoso e com pancadas de água  tão rijas que pareciam os penedos dos barrocais a rolar por ali abaixo, de escantilhão. As hortas nadavam na cheia, raro o folhareco de couve a que lançar os dedos. Inteigava-se o cristão com caldo de castanhas piladas, miga de unto, pão com cebola ruda ou umas azeitonas do Távora mais pequenas que carrapatos.Andavam os pobres a lazarar, de povo em povo, sequinhos como as palhas em que se deitam.
Quedava o vivo nas lojas, a esmoer nos cuanhos das malhadas, berrando por todos os foles sua dura fome.Havia rebanhos em que tinham morrido os reixelos da novidade. Deus andava de mal com a serra. »




Fundação Aquilino Ribeiro, em Soutosa



Colégio da Lapa, onde Aquilino estudou



Nesta JORNADA AQUILINIANA, visita a ;

...Biblioteca Aquilino Ribeiro, em Moimenta da Beira
...Casa onde nasceu Aquilino, em Carregal, Sernancelhe
...Colégio da Lapa, onde Aquilino estudou
...Fundação Aquilino Ribeiro, na casa onde viveu, em Soutosa
...Igreja de Alhais, onde foi baptizado


                                                                                         Aurora Simões de Matos






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