quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Gratidão
Em prece, ergo minhas mãos aos céus
e invento nova forma de rezar,
entregando, com fervor, nas mãos de Deus,
o segredo que só quero partilhar
com quem entenda esta devoção
que, inebriada pela Natureza,
eu sinto pelo ar e pelo chão
em que nasci, na pura singeleza
do meu primeiro berço perfumado
por cravinas à mistura com o linho
bem corado pelas mãos de minha avó...


E, se a prece rezada em tom velado,
for por Deus entendida... em meu caminho
outras vozes me dirão que não vou só.


E muitas outras vozes se erguerão
cantando, em coro, um Hino de Alegria,
bendizendo, em uníssona oração
que subirá aos céus em melodia,
a Gratidão de quantos neste mundo
tiveram sua sorte bafejada,
ao nascerem e viverem, no profundo
amor por esta terra abençoada
que nunca atraiçoou os filhos seus,
que os espera de braços sempre abertos
de cada vez que se impõe um breve adeus
e que, com os sentidos bem despertos,
firme e atenta aos desígnios de Deus,
faz dos tempos errados... tempos certos.


Aurora Simões de Matos

2 comentários:

A. disse...

Terra alguma amaldiçoa qualquer alma que sobre e por ela caminha!... A entrega é sempre de quem se entrega a essa Mãe que a todos há-de preencher... até ao pó ou até à Terra que restará de corpos sem forma!... A Alma, todavia, é como um respirar lento, paciente, talvez um bafo desabafado da Terra e do corpo entregue à descoberta das consciências tranquilas!... A Tranquilidade da consciência é um estado natural que, mais cedo do que tarde, não resiste ao chamamento das raízes; aquelas "nervuras" que são esquecidas em frações de longos ou curtos intervalos, mas que sempre fazem parte da inevitabilidade dos regressos, como um todo indivisível!... Na verdade, quem não se sentir Raiz do berço, como Terra de suas raízes, pouco mais lhe restará do que a meia dúzia, ou sete, palmos de uma terra estranha onde a Vida para lá da Vida, nem por cá o será, nem, talvez, nunca o houvesse sido!...

Grata a Terra que beija os tão beijos gratos,
Da gratidão que por ela beijos tanto agradece,
Tão desenraizado pelo desapego que padece,
Apegado às raízes de tão infecundos tratos,
Não saboreiam doces beijos por tão ingratos,
Ai, se da Terra a carne soubesse!....
Beijos da Terra no beijo de quem se merece!...

Almas Felizes,
Vidas completas!...

Aurora Simões de Matos disse...

Meu querido António Pina

Emocionada com tão belo POEMA-comentário,agradeço à Terra onde as raízes prendem sentimentos e afectos,toda a fecundidade que gera a parte e o todo destes encontros sublimes.
Que o nosso encontro na POESIA abra caminhos planos,que conduzam ao cimo da montanha onde o ar se respira sem constrangimentos.Onde o Céu fica mais perto de se olhar.Onde a nuvem fica mais perto de se esconder.Onde a brisa fica mais perto de se sentir.Onde a AMIZADE fica mais perto de se viver.
Minha GRATIDÃO.

Aurora