domingo, 2 de julho de 2017

DOS INCÊNDIOS ÀS ARMAS ROUBADAS E AO FUTEBOL - AS MINHAS CONVERSAS COM O INFANTE, EM JEITO DE DESABAFO



Visitei o INFANTE D. HENRIQUE, na sua Casa da Ribeira do Porto. Fui recebida à entrada pela histórica Figura, tendo mantido com ela uma longa conversa, em modo de desabafo.

Não, não lhe falei da política expansionista de Portugal do seu tempo. Que muitos aplaudem e outros tantos criticam. Nem de gente escravizada. Nem do seu jovem irmão D. Fernando, que morreu prisioneiro em Fez, no Norte de África, perante a posição irredutível de D. Henrique e D. Pedro, em não entregarem Ceuta aos seus donos primeiros. Certamente, um espinho no sapato do Navegador.«Águas passadas não movem moinhos» e os tempos eram outros, e a palavra Pátria tinha um peso do tamanho do mundo, e D. Filipa de Lencastre não tinha educado a "Ínclita Geração, Altos Infantes" para a desistência, muito menos para a cobardia. E o Adamastor era conversa fiada que não lhe metia medo. E havia povos a precisarem de ser evangelizados. E etc... etc... etc... E a economia, a cultura, a língua e a geografia estavam mesmo a pedir medidas de alargamento!

Não fui ali para lhe falar das Descobertas, nem da Guerra Colonial que se lhes seguiu, cerca de 5 séculos depois.

O INFANTE É O INFANTE, e o seu lugar na História ninguém lho tira nem põe em causa. Como ninguém porá em causa o patriotismo subjacente a todo o movimento de expansão territorial das diversas potências ultramarinas. Que fez dos Portugueses os grandes impulsionadores da recuperação de uma Europa em crise, por via dos milhões de pessoas mortas com a peste negra e por via das guerras religiosas. E que tornou Portugal numa grande potência mundial e no primeiro Império de grande amplitude, a nível global.

*

Assim sendo, tinha eu encontrado o melhor interlocutor para o meu revoltado desabafo. Vai daí, barafustei:


Senhor Dom Henrique

- Como pode este país tão cheio de referentes heróicos pela sua soberania e engrandecimento, solidariedade e respeito por si próprio deixar arder incautamente 500 milhões em bens, um valor incalculável em vidas humanas, tantas certezas  e tantas esperanças, sem ninguém de boa fé colocar sem medos a mão na consciência individual e colectiva, encontrar o rasto que despoletou o crime e se assumirem as verdadeiras culpas?!

- Como pode este país dormir tranquilo, quando quem tem o dever de olhar pela sua segurança se deixa adormecer, à hora a que assaltantes lhe levam armas e munições, material de guerra, de defesa e segurança, talvez para ser usado em ataques terroristas contra si próprio?! Talvez por desleixo grosseiro que nos envergonha? Talvez por falhas previstas, confirmadas e desvalorizadas por quem subiu ao poleiro e dali não enxerga senão o que lhe convém?! Talvez por, ingenuamente, não se ter ainda reparado que o mundo está em guerra?!

- Como pode este país de grande destaque no futebol mundial, o desporto mais popular de sempre a nível global, aquele que arrasta multidões e envolve orçamentos astronómicos, que faz parte da nossa cultura, que além de ser superiormente considerado na literatura, no cinema, na televisão, na música, desempenha um forte papel na saúde física e psíquica das gentes e na solidariedade entre os povos, como pode este país permitir que alguns dos seus clubes mais prestigiados se tenham entregado ao ódio e à vingança extrema, exibindo na comunicação social para o planeta atónito, o ridículo de e-mails comprometedores de grandes nomes do desporto- rei envolvidos em corrupções, tráfico de influências, branqueamento de gestos e de palavras, vilezas e descalabros... e a denúncia de rezas e bruxarias encomendadas a especialistas portugueses e estrangeiros da magia negra?
Isto, claro, sem nunca ninguém chegar a acordo e  a consenso, quanto a culpados, que os não há, obviamente!!! Como se sentirão Eusébio, Mário Coluna, Peyroteo, Luís Figo, Quaresma, Cristiano Ronaldo?


O INFANTE ouviu, suspirou, colocou a mão em pala sobre o olhar que dava para o rio e se prolongava pelo mar fora, perscrutou as ondas da vida, e respondeu, rouco de pasmo:

- Pobre Portugal... assim não vais longe!!!

E, cobrindo o rosto com as largas abas do inconfundível chapéu, rematou, incrédulo:

- Para não ver misérias!...

***

Por mim, dei meia volta, entrei no Museu ali a dois paços e fui visitar a Exposição sobre "O Foral do Porto", inaugurada a 10 de Junho último, com a presença do Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
E dessa visita vos deixo alguns registos:







Assinatura no LIVRO DE VISITAS

PRAÇA DO INFANTE

                                            CASA DO INFANTE - PORTO



                                                           *Aurora Simões de Matos

2 comentários:

bernardete costa disse...

Minha amiga, apenas me ocorre este comentário à tua conversa: como pode um país?! Mas se te serve de consolação, muittas das malévolas que apontas ao nosso país são comuns a tantos outros, muitos outros por esse mundo fora. Assiste-se ao descalabro de valores e princípios. A verdade entretanto desaparece do dicionário. Também a transparência, assim como o respeito, a honra, a dignidade...
Não quero estar cá quando este mundo, tão belo visto do espaço, se esboroar transfomando-se numa coloaca de merda!

Aurora Simões de Matos disse...

Tens toda a razão, Bernardete Costa! Sinais dos tempos, que ninguém sabe para onde se encaminham. Mas pelo rumo, não deve ser para nenhum paraíso. Grande abraço e boas conversas com os teus personagens! Criados à medida das tuas esperanças, preocupações e dúvidas, mas certamente com um fundo onde sempre possamos adivinhar algo de bom.

Grande abraço, querida amiga!