terça-feira, 14 de agosto de 2012

Reportagem de Afectos

Reportagem de Afectos

Rádio Lafões entrevista Aurora Simões de Matos em Meã






Condução do programa - Fernando Luís
Fotos e montagem do vídeo - Alcides Riquito


Poemas de Aurora, musicados por Gervásio Pina

"Serrana" - na voz de Gabriela Pina
"Canção da água" - na voz de Gervásio Pina





segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Férias de Verão

Férias de Verão
1ª Parte





                                                                                                               

Acabada a primeira parte destas férias anuais de Verão, vivo agora um curto intervalo, para depois me lançar na segunda parte, entre o campo e as serras, o mar e uns curtos passeios (cá dentro), que hão-de libertar forças regeneradoras de outras forças.


Desta primeira parte, guardo sempre as melhores recordações.


Há vários anos já que, respondendo a necessidades físicas e afectivas, procuro, no mês de Julho, as Termas de S. Pedro do Sul. Para beneficiar das suas águas que dispensam apresentações, para me encontrar com amigos que desfruto apenas nesta época, para regressar, ainda que só por duas semanas, a espaços-matriz de uma infância tranquila, a lugares-memória que me marcaram a vida, em tempos de crescimento.


De facto, nas Termas de S. Pedro do Sul, vivi entre os oito e os quinze anos, idade marcante nas aprendizagens de qualquer vida, por mais normal e rotineira, calma e sem sobressaltos... ou mergulhada em solavancos que muitas vezes nos acontecem.


Aí cresci, entre gente boa que me ajudou a cimentar a personalidade e me transmitiu valores que ainda hoje defendo. Entre os mais humildes, que viviam do trabalho sazonal no Verão, alugando quartos nas suas casas particulares ou fazendo pela vida com trabalhos temporários, nos grandes hotéis sempre cheios. Mas também entre os mais abastados, donos de unidades hoteleiras de prestígio, famílias tradicionais de requintada educação, no esmero de uma sociedade sempre na mó de cima. Uns e outros vivendo, já nesse tempo, como agora, do turismo termal, que tinha no Verão o seu ponto mais alto.

Aí frequentei a escola primária, hoje em ruínas, ao lado da vetusta Igreja de Nossa Senhora da Saúde. No meu recreio, mais tarde esventrado, sobre os achados arqueológicos hoje à vista de quem passa, num abandono pungente, brinquei todos os jogos, danças e cantigas que ali eram costumes saudáveis, em meados do século passado. Parte de uma infância e de uma adolescência alicerçadas na segurança, no aconchego, em visões e vivências que me abriram portas à imaginação e ao deslumbramento.




Umas das experiências que me ficou gravada pela memória de um tempo tão particular, foram as corridas despreocupadas pelos longos corredores do Hotel Palácio, quando ali brincava com as filhas do casal que, ao tempo, se ocupava da guarda e vigilância do mesmo. Nesse tempo, o Hotel só funcionava no Verão.


Envolto em várias polémicas, desde a sua construção megalómana, na segunda década do século XX, nunca o grandioso edifício serviu os objectivos para que fora projectado. Não chegaram os Irmãos Diniz, da firma com o mesmo nome, a conseguir o monopólio da exploração das águas termais. E se os luxuosos espaços do empreendimento chegaram a ser usados como lugar de encontro e de grandes e exuberantes festas das elites portuguesas e mesmo estrangeiras, a situação não poderia durar muito tempo, já que a manutenção do imóvel não se compadecia com quebras na produção de receitas.


O Estado Novo, apercebendo-se do subaproveitamento do Hotel Palácio, fez dele um grande Centro da FNAT e o Pós-25 de Abril, depois de grandes obras de restauro e modernização, transformou-o no espaço acolhedor consentâneo com as necessidades e exigências da vida actual, onde instalou uma das unidades mais requintadas da INATEL.











Os seus 77 quartos, apetrechados com todas as comodidades, o magnífico restaurante, o bar, as várias salas de estar (cada uma mais bonita que a outra), a biblioteca, a sala dos computadores, a sala de jogos e a de conferências, o espaço das crianças, os bem tratados jardins e a quinta, espaço envolvente de onde destaco a esplanada sempre cheia nos serões animados com música ao vivo, tudo são agradáveis surpresas e locais de regozijo e bem-estar. Para quem (associados e não associados) procura esta prestigiada unidade hoteleira. Para uma cura termal, ou apenas para descanso e convívio. Como lugar de passagem, onde apetece ficar por mais tempo. Sempre, como espaço de referência.


Mas se as instalações são óptimas, nota máxima também para a disponibilidade, a simpatia e a eficiência de todo o pessoal que nele trabalha.




Por tudo o que, desde a infância, o Hotel Palace das Termas de S. Pedro do Sul significa para mim, mas também pelos muitos amigos que ali fui fazendo ao longo dos anos e com quem tenho partilhado grandes momentos de descontracção; pelas famosas águas sulfurosas medicinais que, segundo a História, já D. Afonso Henriques procurava para alívio dos seus males, mas também pela beleza da paisagem envolvente que bem merece o nome de “Sintra da Beira”, agradeço à Vida poder continuar a passar ali uma parte das minhas férias de Verão. A primeira. Da segunda, contarei mais tarde. Se valer a pena, como esta valeu.



 Aurora Simões de Matos

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Os meus brinquedos


        Onde está minha boneca
        que deixei há tanto tempo
        abandonada a um canto
        da minha longínqua infância?
        Era toda em papelão,
        de olhos castanhos, bem fundos,
        sempre de perna esticada
        e de barriguinha ao léu.
        Com ela, corri os mundos
        duma criança mimada,
        do meu quarto fiz o céu,
        passei horas sossegada.

       Só que agora não sei dela
       e queria tanto vê-la...




                                                                            









                                                                             Onde está meu regador
                                                                                    e meu ferrinho de engomar
                                                                               que deixei abandonados
                          a um canto, na distância?
                  Eram todos em latão
                        de cor-de-rosa pintados,
                              bem da cor da minha idade.
                            Foram comprados na feira
                         e no meu quarto usados,
                            ao tom da minha vontade.
                              Com eles, fiz da brincadeira
                       o meu hino à liberdade.

                          Só que agora não sei mais
                          onde estão brinquedos tais
                             e vem-me a imensa vontade
                        de comprar outros iguais
                   e matar esta Saudade.

Aurora Simões de Matos  



SOL-PÔR


voxscriprurae.blogspot.com


     Sol-pôr

      O horizonte vestiu vestes de fogo
      e o sol incandesceu e tudo é luz
      na linha que limita o fim do mar.

     O milagre paira ainda um instante
     diante do olhar na deslumbrante
     hora de se esconder e só então
     o sol se esconde
     e num repente
     se afunda à nossa frente
     em majestosa exibição.

     Já se não vê 
     a bola que de fogo se vestiu
     e inundou de rubro o horizonte.

     Do céu desceu
     e se escondeu
     do nosso olhar por hoje mesmo defronte
     para voltar amanhã à mesma hora
     do lado oposto
     de onde acontece a aurora. 

Aurora Simões de Matos


terça-feira, 31 de julho de 2012

O AMOLADOR

O AMOLADOR





O amolador

« A….mola navalhas e tesourinhas…
Com .. põe panelas e alguidares…
Arran…. ja guarda-chuvas e sombrinhas!...»

Num dia qualquer, bem cedo
chegava ao Cimo do Povo
o fiel amolador
com seu carrinho de mão
mais o vibrante pregão
que, voando pela aldeia
anunciava a chegada
por todos mais que esperada
que haveria de compor
a já furada candeia
e o velho borrifador.

Tinha a voz inconfundível
com mistura de assobios
feitos de dedos esguios
e a tirada musical
duma gaita especial
soprada bem à maneira
de quem queria ser diferente
no meio da outra gente
e que fazia os delírios
da atrevida criançada
que, à roda dele, se juntava
em algazarra animada.

Mas já chegavam, correndo
tomando a vez dianteira
as mulheres atarefadas
por vidas todas canseira
com as peças mais variadas
que se possa imaginar:
almotrigas e candeias
tachos, panelas de folha
e panelas esmaltadas
já velhas, todas furadas
que, depois de muitos pingos
haveriam de durar
por mais uma temporada.

Pratos partidos em dois
à espera dos agrafos
pontos com arte bordados
nas caçoilas de Molelos
assadeiras e alguidares
todos de barro vidrados
as facas e as tesoiras
navalhas e canivetes
tudo, enfim, o que tivesse
perdido o fio e fizesse
falta ao bom do lavrador
e às lides da mulher
na cozinha ou na costura
trabalhando a vida dura
guarda-chuvas desvirados
varetas todas partidas
sombrinhas desarranjadas
tudo ficava perfeito
depois de, com muito jeito
ao seu carrinho apoiado
de roda sempre a girar
as mãos do amolador
emprestarem seu valor
à aldeia onde ficava
ao serviço daquele povo
duas semanas a fio
e onde, com muito brio
punha tudo como novo.

Só depois, nómada errante
lá seguia sua vida
por outra aldeia…e então
num outro Cimo do Povo
soltava o pregão de novo:

«A…mola navalhas e tesourinhas…
Com… põe panelas e alguidares..
Arran…. ja guarda-chuvas e sombrinhas!...»

Aurora Simões de Matos

domingo, 29 de julho de 2012

TRIBUTO A LAMEGO



TRIBUTO A LAMEGO
A minha segunda Pátria







Aliança de vida com selos de amor

Conheço-lhe o sangue. Provei-o já há muito
no suor que escorria de meu rosto
sabor antigo que escorre de seus ramos
É assim que me chega
a energia da seiva que procuro
onde as raízes entrançam sentimentos

Conheço-lhe as raízes. De imaginar seus frutos
corre meu sangue qual rio de amor
corpo sem margens qual rio de dor
por sítios onde o retorno
faz o sentido dos passos que dei
por todos os passos

Conheço-lhe os caminhos. De tanto os cruzar
sei dos contornos e dos seus limites
distingo-lhes a borda, o leito e o caudal
embora nunca saiba como pronunciá-los

Conheço-lhe os gostos. E de tanto provar
aromas e sabores, texturas e as cores
do pranto solto e aberto gargalhar                          
vestígios no interior deste silêncio
que se cumpriu pelo fulgor do tempo
de ser apenas e só o meu destino
é que por sorte e por ela vivo

Conheço-lhe a voz, o gesto e a imagem     
de cada esquina em cada beiral
pedra ou soleira
da aliança que com ela fiz.
Lamego, Cidade Velha sempre nova
por quem chorei, ri e vivi
por quem amei, por quem sofri
por quem afinal me fiz Mulher                                                                      

Existo nela e ela existe em mim
nas sombras confundidas pelas ruas
vozes suspensas da alta folhagem
em cada árvore que aqui plantei
um gesto último a dizer adeus
e um sorriso esquecido que regressa                                       

Por ela, "Cidade Verde", é que eu existo
de esperança cor de fé
e é nela que me deito cansada das palavras
Depois, se cada rosto que em minha mão tocou
disser ainda sem falar meu nome
apenas na surpresa ou num esboço
serão decerto então desta Aliança
selos de amor
gotas de Vida que verti no chão


Aurora Simões de Matos











 
 
Leitura deste poema no Salão Nobre da Câmara Municipal de Lamego
(2007)





quinta-feira, 26 de julho de 2012

Liberdade

LIBERDADE


                                              Imagem de Francisco Henriques


"Liberdade"

     Orgulho

       Vês a ave passando?
       Entendes seu voo de asas envolto em pressa,
       seu deslizar picado rente ao Verão?
      
       Se o entendes, olha.
       O sentir esvai-se num momento,
       tal nuvem passageira já se foi.
       Assim a tarde que cai sobre a manhã.

       Vês a ave amaciando as penas
       no orgulho de ser liberdade?
       Se a enxergas, olha.
       Seu deslizar no céu é só para quem crê.















         
"olhares.sapo.pt"


                               Grito de sol
                                             
                                               Esta voz tem o som da tarde quente
                                               a transpirar de luz no tempo soalheiro.

                                               Respiram-se ares de festa nos caminhos
                                               de esperanças consumadas.

                                               Este grito é de sol nos altos cumes
                                               onde a neve derreteu as incertezas,
                                               para que as águias pudessem entender
                                               as alturas que o Homem traz no destino.

                                               Esta canção é marcha nupcial
                                               cantada frente ao altar-mor da Vida.

            Aurora Simões de Matos