segunda-feira, 4 de junho de 2012

                                           A Paiva da tranquilidade

Ao encontro das águas

No limite da margem, frente à Foz, testemunho emocionada o encontro entre os gigantes.
Mas a minha emoção não é apenas este encontro. Ela vem já de cima, presa noutras águas que a este Douro afluem, mergulhada noutras frescuras que a este Douro dão corpo, vida e identidade, pressentida no desassossego que neste ponto desagua, forma reticente do alarme que, nos labirintos do tempo, abre caminhos à saudade.
A minha emoção vem da intimidade com o leito de franjas bordadas nos verdes tons dos milheirais da minha terra; está na voz das águas em cantilenas límpidas nas manhãs claras de luz e nos queixumes rumorejados em profundezas de vales sombrios; vive na pureza das cascatas desfazendo-se em espuma branca de volúpia e no serpentear preguiçoso que orla as tardes silenciosas da minha aldeia.

Com a minha Paiva, esta emoção percorreu caminhos feitos de claridade e tempos feitos de bruma. Deslizou por veredas estreitas de chão apagado, terra rendada de urze e de giesta nascidas do xisto negro e alargou-se em planuras de fertilidade. Saltitou travessuras em seixos macios de granito acomodado à prova dos anos e quedou-se em tranquilidades lascivas à borda das hortas, presa aos gestos lânguidos dos salgueirais. Venceu os percalços das levadas e das represas, brincou nos alcatruzes das noras e no romantismo de moinhos escondidos em recantos à espera de pintores e de poetas.
Olhando este Douro prisioneiro da sua tradição e da sua lenda, soberbo de grandeza e de orgulho, ensalivo de ternura palavras urdidas na voz dos sentidos e dou comigo a segredar-lhe perguntas sem resposta.
E que respostas sem mágoa poderia ele dar-me sobre a limpidez das águas que a minha Paiva inocente e generosamente lhe ofereceu?
Segredo-lhe queixumes sufocados em suspiros rendidos à evidência:
- Onde está o rosto do corpo do rio da minha aldeia? Que ânsias alterosas lhe abafaram a voz? Que enredos imprevistos tentam afogar-lhe a história? Em que caminhos esqueceu os vestígios para se perder nesta viagem para um destino sem contemplações? Que prenúncios são estes que pairam na densa atmosfera que envolve este momento?
Vejo bandos de gaivotas varando o céu com silvos agudos de conquista e oiço ainda, muito ténue, o medo da minha Paiva, tão longe já do rouxinol e da cotovia, do pisco e do tentilhão. Em breve se afogará no mar. Levará consigo os murmúrios e os tumultos deste instante e deixará, desprendidas das águas já salgadas, lágrimas suspensas na bruma da despedida.
E eu aqui, no limite da margem, frente à Foz, testemunha emocionada do encontro entre os gigantes, ignorando o que possa estar para além da imensidão desta paisagem, porque – recordando Fernando Pessoa - é evidente que muitas águas correrão «para além do rio da minha aldeia».

2 comentários:

Ramos disse...

Gosto! Gostamos!
Um abraço
Cizaltina/Felisberto

Aurora Simões de Matos disse...

Meus Queridos
"Para além"de tudo o resto,é maravilhoso redescobrir
afectos lindos de uma juventude que urge reinventar.

Também eu gosto mto de vós.Como casal.E como seres
individuais.Meus colegas.Meus amigos.Meus leitores
Que bom o vosso apoio...
Aurora.