quarta-feira, 7 de novembro de 2012

POENTES DA MINHA INFÂNCIA





Poentes da minha infância








O sol enrubescia de muita luz e cor

e preparava vestes de sensual fulgor

para beijar em festa a serra mais distante.

No mais fundo dos vales, a noite já caíra.

Sereno e protector silêncio sucumbira

ao cansaço do dia, num esforço gigante.





  Em seu leito tranquilo, dormia já o rio.

 Na vertente do monte, o último assobio

do pegureiro exausto de tanta solidão.

 O gado, cabisbaixo, seguia mansamente

caminhos sinuosos em forma de serpente,

chocalhando sinais de vida em união.






Corpos extenuados arrastavam suor,

sentindo em pés descalços contactos de amor

por íntimos caminhos que a casa conduziam.

As leiras já lavradas exalavam frescuras

de terras reviradas, espelhos de almas puras

que por elas lutavam e por elas viviam.




Da robustez dos homens, enxadas companheiras

 salvavam os mais velhos, sentados às soleiras

 de quinteiros agrestes com forte aroma a monte.

 Treinando seus piões, crianças seminuas.

 Cansaço e alegria corriam pelas ruas

 onde todas as pedras olhavam para a fonte.







A aldeia fervilhava de azáfama caseira

e o fumo em que se erguiam novelos da lareira

cheirava ainda à força de quem era Mulher:

o caneco sedento, a ceia para os seus,

o trato aos animais, acreditar que Deus

lhe destinara a sorte, só tinha que a viver.





A poça para abrir, canções pelos caminhos

da água para as regas e a água dos moinhos,

tudo estava sujeito à mesma lei da sorte.

No sino da capela, tocavam as trindades

tangentes badaladas, prenúncio de saudades

da vida sempre igual, do berço até à morte.







Era assim a tardinha de infâncias já distantes

nas encostas da serra, onde tempos marcantes

deixaram a lembrança que me faz regressar.

Tudo se foi no tempo, hoje nada é igual…

a não ser as roupagens de fulgor sensual

que o Sol ainda veste, quando se vai deitar.




         Aurora Simões de Matos





          no livro " Poentes de mar e serra"--------1997






4 comentários:

Ana Margarida disse...

Drª. Aurora
De certeza que a minha Mãe Suzete já tem este seu livro, mesmo assim vou dar-lhe a ler este lindíssimo Poema.
Vai gostar tanto como eu.
Um beijinho grande
Gui

Aurora Simões de Matos disse...

Minha querida Gui
Que saudades eu tenho do vosso carinho!
Se mãe Suzete não tiver o livro "Poentes de mar e serra",onde esse poema saiu pela primeira vez,envie por favor o endereço para o meu mail,que eu envio pelo correio,um dos poucos que tenho ainda.Mas penso que ele saiu também em Imagens da beira-Paiva,onde repus alguns com essa temática.E esse ela tem,de certeza.
Agora dinamizo ao segundo sábado de cada mês,uma TERTÚLIA LITERÁRIA no Hotel Lamego.Depois de amanhã,sobre Sophia de Mello Breyner e Manuel A. Pina.Se quiserem vir,podem ficar em minha casa.Pensem nisso.
Muitos beijinhos para as duas.

Aurora

Cristina Cebola disse...

Excelentes imagens bucólicas em Poesia sentida, da terra e das gentes que a vira nascer.
Viajei prazerosamente nos versos do seu sentir querida Aurora Simões de Matos...inebriada pelos aromas rurais, natureza viva em todo o seu esplendor.

beijinho muito amigo*

Aurora Simões de Matos disse...

Querida Cristina Cebola

O telurismo,tão subjacente ao Poema,faz parte de muita da minha obra escrita.Entendo essa obra como uma missão e o meu empenho tem seguido no sentido de transmitir às gerações vindouras a riqueza das nossas tradições que,sem estes registos escritos ,se perderiam no tempo.
Grata pelo seu carinho e por todo o apoio.
Muitos beijinhos amigos.
Aurora